Carlos Chiesa é formado em Direito pela Universidade Mackenzie e em Publicidade pela ESPM.

Atua como sócio e diretor de criação na 440V, empresa de comunicação que opera com um modelo absolutamente inovador.

Foi Presidente do Clube de Criação de S. Paulo, Vice-Presidente Executivo em agências como Leo Burnett e Publicis Salles, diretor de criação na W/Brasil.

É Conselheiro do Conar. Foi jurado em todos os festivais internacionais de prestígio e ganhou inúmeros prêmios em todos eles.

Palestrante ocasional, também tem um livro infantil publicado.

Além deste site, colabora com outro especializado em automobilismo.









Esquerda, vou ver, direita, vou ver.


Carlos Chiesa - 06/11/2007

 

Sei lá porque motivo tenho recebido e-mail de pessoas declaradamente de esquerda. Como já afirmei aqui, não sou filiado a nenhuma agremiação com viés político e o único contato que fiz com o único cidadão que conheço que se dedica à política foi para reclamar de seu partido.
Melhor: a única campanha política que fiz realmente digna desse nome foi para eleger o presidente do grêmio da faculdade. Mesmo ganhando por margem avassaladora, não repeti a experiência.
Apresentadas minhas credenciais de observador imparcial, mais ligado ao bom senso e à lucidez que qualquer outra coisa, gostaria de chamar a atenção ao suposto embate esquerda versus direita que ocorre no nosso continente.
Os autores dos e-mail somados ao cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro, este metendo seu acorde torto no assunto Rolex do Luciano Huck, não hesitam em afirmar, textualmente, que Veja é uma publicação de ultra-direita.
Talvez porque ousou contestar a imagem de herói de Che Guevara, mais que tudo.
Esse mesmo pessoal afirma também que Bush está apresentando sinais inequívocos de demência, ao ponto de seus assessores e seus pais estarem preocupados.
Mas deixam de apresentar provas dessas afirmações.
Talvez por terem bem menos responsabilidade do que Veja, a mais importante revista nacional e, por isso, automaticamente, uma das mais importantes do mundo. Pouca gente os conhece, portanto pouca gente irá encher-lhes o saco pedindo comprovações.
Não se sentem obrigados a provar suas acusações, privilégio que Veja - bem como qualquer outro meio de comunicação de importância - jamais poderá desfrutar.
Concluo, portanto, que tratam de defender o Presidente-Coronel Hugo Chávez e o Presidente Lula simplesmente porque ambos são do seu time e não porque podem estar certos.
Fazendo um paralelo com o futebol, seria como se um corintiano defendesse a administração Duailib/Kia/Berezovisky a ferro e fogo, negando qualquer mal que tenham feito ao clube, por mais óbvio que seja. Mal que possivelmente nem um palmeirense ou sampaulino fanáticos infiltrados ousariam arquitetar.
Agora vamos ouvir a palavra da direita.
Tudo, simplesmente tudo, pode ser justificado pela luta contra o terrorismo.
Jean Charles de Menezes? Foi fuzilado porque "portava uma mochila" e "morava no mesmo prédio de um terrorista", segundo leio na imprensa.
A polícia blairista cometeu apenas um lamentável engano em sua luta titânica contra o terrorismo, poderia ser a conclusão, e dane-se o coitado do jovem brasileiro, no lugar errado na hora errada.
Mas, será que o atentado às torres gêmeas foi mesmo perpetrado pela Al-Qaeda?
Lembro que, na época, a imprensa brasileira publicou que as provas eram absolutamente superficiais e que não resistiriam a um processo judicial sério.
Mas foi o suficiente para o Presidente Bush aprovar legislação que diminuia a liberdade das pessoas e prender quem achasse conveniente em Guantanamo, pelo tempo que achasse conveniente e dane-se o resto.
Na verdade, quem saiu mais poderoso desse episódio, o governo Bush ou a Al-Qaeda? Eu cravo a primeira resposta. E, em direito criminal, a primeira pergunta que se faz é "quem ganha com o crime".
Concluo que ambos os lados pensam que você e eu, caro leitor, somos uns tontos, que vamos sair acreditando que só um deles têm razão.
Penso que os dois têm razão, como ocorre até nas discussões domésticas. A questão está em qual o percentual de razão para cada um. Sem usar dois pesos e duas medidas.
Todo árabe é um terrorista em potencial? Ora, por favor, sem generalizações.
Todo americano é um agente imperialista? Ora, por favor.
Todo cara de esquerda é tão romanticamente idealista quanto o Che? Tenha paciência.
O próprio Presidente Lula já se encarregou de desmitificar isso, quando afirmou que "principismo" é uma coisa que você usa quando acha que não tem chance de ser eleito e abandona se é eleito.
Os caras de esquerda querem que a gente acredite em que princípios? Ah, "mas isso é apenas uma colocação do Lula, no jeito dele falar." Não, é grave, ele está dizendo que é um político sem princípios, que opera em seu próprio benefício ou em benefício da sua turma, ou de seus ideais, que hoje não sabemos exatamente quais são, fora desfrutar com gosto da corrupção e avançar em todos os cargos públicos que puder pegar.
Hum, como está o comunismo na China? Pelo que se pode ler, apenas um pouco mais flexível que na época do civil parando a coluna de tanques. Alguém pode garantir que ele nunca mais vai voltar a endurecer? Seria esse o modelo que os esquerdistas imaginam para o Brasil?
E na Rússia? Putin tem alguma identidade com um regime democrata ou está mais para um linha-dura preparando-se para controlar o poder por muitos e muitos anos?
Chávez? Os e-mail afirmam que Sarney, FHC, Fox e outros ex-presidentes latino-americanos são esbirros de Washington que sairam pelo mundo pregando o credo anti-chavista. Mais uma afirmação com todo o jeito de mera suposição, casualmente elaborada em benefício próprio.
E quando Chávez usa seu colega Evo Morales para embaçar uma das jóias da coroa do Presidente Lula, a Petrobrás, e seu biodiesel, o que diz o pessoal de esquerda?
Quando tanto quanto Lula quanto Chávez repetem atitudes stalinistas, ninguém nos faz o favor de lembrar que Josef Stalin trucidou muito mais gente, sua própria gente, que Hitler. Muitas e muitas vezes, matava por uma simples suspeita ou por uma denúncia sem comprovação. Típica de regimes autoritários.
Já tivemos nosso regime autoritário e, não sei você, leitor, mas eu não gostei.
Quando Lula diz que foi traído mas não diz por quem, quando classifica um crime eleitoral como mera obra de aloprados, a esquerda deixa tudo por isso mesmo, trata de abafar ou desqualificar quem não quer que abafe, em nome de algo que, suponho, devem chamar de revolução. Epa, então vale tudo em nome dessa revolução? Vale tudo para manter o Bolsa-Família, ao invés de ensinar essa família a se auto-sustentar?
Quando vivemos dez meses de caos aéreo sem que o governo Lula tenha tomado uma atitude minimamente competente, com direito a dois megatrágicos desastres, concluo: qualquer possibilidade de pensamento único hegemônico, de receita de estatização, especialmente neste país, me apavora.
Supor que tudo que o governo faz é bom e quem diz o contrário é de ultra-direita, golpista, é um atentado à inteligência. Supor que o governo, especialmente um governo brasileiro, é capaz de tudo prover e tudo resolver, é um atentado à história.
Tire JK, mesmo não sendo uma unanimidade, e aponte um, um único presidente de que realmente possamos nos orgulhar.
Agora voltemos às brigas esquerda-direita. Quando o governo militar estava no final, Lula e FHC eram amigos, companheiros de palanque. Não esqueço que, quando a disputa pela presidência ficou entre Collor e Lula, José Serra foi instado, em pleno programa de TV, a dizer por quem o PSDB se inclinaria.
Posteriormente o PSDB escolheu Lula.
Faz sentido PT e PSDB serem inimigos? Se fossemos um país onde os programas partidários fossem realmente conhecidos e os partidos fortes, claro que deveriam ser aliados. Mas não, aqui tudo tem que ficar subordinado a pessoas e seus carismas, a projetos pessoais, como na época dos caudilhos, tipo Vargas & Perón.
Acho bom ficarmos espertos, caro leitor, e não acreditar em tudo que lemos, seja de que lado vier.


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