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Esquerda,
vou ver, direita, vou ver.
Carlos
Chiesa - 06/11/2007
Sei lá porque motivo tenho recebido e-mail
de pessoas declaradamente de esquerda. Como já
afirmei aqui, não sou filiado a nenhuma agremiação
com viés político e o único
contato que fiz com o único cidadão
que conheço que se dedica à política
foi para reclamar de seu partido.
Melhor: a única campanha política
que fiz realmente digna desse nome foi para eleger
o presidente do grêmio da faculdade. Mesmo
ganhando por margem avassaladora, não repeti
a experiência.
Apresentadas minhas credenciais de observador imparcial,
mais ligado ao bom senso e à lucidez que
qualquer outra coisa, gostaria de chamar a atenção
ao suposto embate esquerda versus direita que ocorre
no nosso continente.
Os autores dos e-mail somados ao cantor e compositor
maranhense Zeca Baleiro, este metendo seu acorde
torto no assunto Rolex do Luciano Huck, não
hesitam em afirmar, textualmente, que Veja é
uma publicação de ultra-direita.
Talvez porque ousou contestar a imagem de herói
de Che Guevara, mais que tudo.
Esse mesmo pessoal afirma também que Bush
está apresentando sinais inequívocos
de demência, ao ponto de seus assessores e
seus pais estarem preocupados.
Mas deixam de apresentar provas dessas afirmações.
Talvez por terem bem menos responsabilidade do que
Veja, a mais importante revista nacional e, por
isso, automaticamente, uma das mais importantes
do mundo. Pouca gente os conhece, portanto pouca
gente irá encher-lhes o saco pedindo comprovações.
Não se sentem obrigados a provar suas acusações,
privilégio que Veja - bem como qualquer outro
meio de comunicação de importância
- jamais poderá desfrutar.
Concluo, portanto, que tratam de defender o Presidente-Coronel
Hugo Chávez e o Presidente Lula simplesmente
porque ambos são do seu time e não
porque podem estar certos.
Fazendo um paralelo com o futebol, seria como se
um corintiano defendesse a administração
Duailib/Kia/Berezovisky a ferro e fogo, negando
qualquer mal que tenham feito ao clube, por mais
óbvio que seja. Mal que possivelmente nem
um palmeirense ou sampaulino fanáticos infiltrados
ousariam arquitetar.
Agora vamos ouvir a palavra da direita.
Tudo, simplesmente tudo, pode ser justificado pela
luta contra o terrorismo.
Jean Charles de Menezes? Foi fuzilado porque "portava
uma mochila" e "morava no mesmo prédio
de um terrorista", segundo leio na imprensa.
A polícia blairista cometeu apenas um lamentável
engano em sua luta titânica contra o terrorismo,
poderia ser a conclusão, e dane-se o coitado
do jovem brasileiro, no lugar errado na hora errada.
Mas, será que o atentado às torres
gêmeas foi mesmo perpetrado pela Al-Qaeda?
Lembro que, na época, a imprensa brasileira
publicou que as provas eram absolutamente superficiais
e que não resistiriam a um processo judicial
sério.
Mas foi o suficiente para o Presidente Bush aprovar
legislação que diminuia a liberdade
das pessoas e prender quem achasse conveniente em
Guantanamo, pelo tempo que achasse conveniente e
dane-se o resto.
Na verdade, quem saiu mais poderoso desse episódio,
o governo Bush ou a Al-Qaeda? Eu cravo a primeira
resposta. E, em direito criminal, a primeira pergunta
que se faz é "quem ganha com o crime".
Concluo que ambos os lados pensam que você
e eu, caro leitor, somos uns tontos, que vamos sair
acreditando que só um deles têm razão.
Penso que os dois têm razão, como ocorre
até nas discussões domésticas.
A questão está em qual o percentual
de razão para cada um. Sem usar dois pesos
e duas medidas.
Todo árabe é um terrorista em potencial?
Ora, por favor, sem generalizações.
Todo americano é um agente imperialista?
Ora, por favor.
Todo cara de esquerda é tão romanticamente
idealista quanto o Che? Tenha paciência.
O próprio Presidente Lula já se encarregou
de desmitificar isso, quando afirmou que "principismo"
é uma coisa que você usa quando acha
que não tem chance de ser eleito e abandona
se é eleito.
Os caras de esquerda querem que a gente acredite
em que princípios? Ah, "mas isso é
apenas uma colocação do Lula, no jeito
dele falar." Não, é grave, ele
está dizendo que é um político
sem princípios, que opera em seu próprio
benefício ou em benefício da sua turma,
ou de seus ideais, que hoje não sabemos exatamente
quais são, fora desfrutar com gosto da corrupção
e avançar em todos os cargos públicos
que puder pegar.
Hum, como está o comunismo na China? Pelo
que se pode ler, apenas um pouco mais flexível
que na época do civil parando a coluna de
tanques. Alguém pode garantir que ele nunca
mais vai voltar a endurecer? Seria esse o modelo
que os esquerdistas imaginam para o Brasil?
E na Rússia? Putin tem alguma identidade
com um regime democrata ou está mais para
um linha-dura preparando-se para controlar o poder
por muitos e muitos anos?
Chávez? Os e-mail afirmam que Sarney, FHC,
Fox e outros ex-presidentes latino-americanos são
esbirros de Washington que sairam pelo mundo pregando
o credo anti-chavista. Mais uma afirmação
com todo o jeito de mera suposição,
casualmente elaborada em benefício próprio.
E quando Chávez usa seu colega Evo Morales
para embaçar uma das jóias da coroa
do Presidente Lula, a Petrobrás, e seu biodiesel,
o que diz o pessoal de esquerda?
Quando tanto quanto Lula quanto Chávez repetem
atitudes stalinistas, ninguém nos faz o favor
de lembrar que Josef Stalin trucidou muito mais
gente, sua própria gente, que Hitler. Muitas
e muitas vezes, matava por uma simples suspeita
ou por uma denúncia sem comprovação.
Típica de regimes autoritários.
Já tivemos nosso regime autoritário
e, não sei você, leitor, mas eu não
gostei.
Quando Lula diz que foi traído mas não
diz por quem, quando classifica um crime eleitoral
como mera obra de aloprados, a esquerda deixa tudo
por isso mesmo, trata de abafar ou desqualificar
quem não quer que abafe, em nome de algo
que, suponho, devem chamar de revolução.
Epa, então vale tudo em nome dessa revolução?
Vale tudo para manter o Bolsa-Família, ao
invés de ensinar essa família a se
auto-sustentar?
Quando vivemos dez meses de caos aéreo sem
que o governo Lula tenha tomado uma atitude minimamente
competente, com direito a dois megatrágicos
desastres, concluo: qualquer possibilidade de pensamento
único hegemônico, de receita de estatização,
especialmente neste país, me apavora.
Supor que tudo que o governo faz é bom e
quem diz o contrário é de ultra-direita,
golpista, é um atentado à inteligência.
Supor que o governo, especialmente um governo brasileiro,
é capaz de tudo prover e tudo resolver, é
um atentado à história.
Tire JK, mesmo não sendo uma unanimidade,
e aponte um, um único presidente de que realmente
possamos nos orgulhar.
Agora voltemos às brigas esquerda-direita.
Quando o governo militar estava no final, Lula e
FHC eram amigos, companheiros de palanque. Não
esqueço que, quando a disputa pela presidência
ficou entre Collor e Lula, José Serra foi
instado, em pleno programa de TV, a dizer por quem
o PSDB se inclinaria.
Posteriormente o PSDB escolheu Lula.
Faz sentido PT e PSDB serem inimigos? Se fossemos
um país onde os programas partidários
fossem realmente conhecidos e os partidos fortes,
claro que deveriam ser aliados. Mas não,
aqui tudo tem que ficar subordinado a pessoas e
seus carismas, a projetos pessoais, como na época
dos caudilhos, tipo Vargas & Perón.
Acho bom ficarmos espertos, caro leitor, e não
acreditar em tudo que lemos, seja de que lado vier.
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