Um sonho inacabado
Marco
Antônio Eid -10.11.08
Eleição de Obama resgata os ideais de Martin Luther King, 40 anos após a morte do grande líder do movimento pela igualdade dos norte-americanos.
Em abril de 1968, há 40 anos, foi assassinado em Memphis, Tenessee, nos Estados Unidos, o pastor Martin Luther King, Prêmio Nobel da Paz, um dos principais líderes da mobilização pelos direitos civis de todos os cidadãos norte-americanos e defensor da resistência não violenta contra a discriminação racial. Em 1955, com plena justiça, foi eleito líder do movimento em prol da igualdade de direitos, após coordenar o antológico boicote ao transporte público em Montgomery, no Alabama.
O inesquecível King sempre lutou — com a força do exemplo, das palavras firmes e doces e da sabedoria da tolerância — pelo comportamento igualitário da sociedade e seu tratamento equânime pelo Estado. Contribuiu muito para a melhoria da qualidade da vida da comunidade negra em seu país e a remoção, no conteúdo do marco legal, de odiosos institutos da discriminação. Em 1963, na memorável e pacífica marcha que organizou ao Lincoln Memorial, em Washington DC, pronunciou o seu discurso mais representativo: "Eu tenho um sonho".
As palavras são um primor de justiça, verdade e esperança. O trecho que se segue é emblemático: “Eu digo a vocês, meus amigos, que, embora nós enfrentemos as dificuldades de hoje e amanhã, eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano. Eu tenho um sonho que um dia esta nação irá levantar-se e viverá o verdadeiro significado de sua crença — nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais. Eu tenho um sonho que um dia, nas colinas vermelhas da Geórgia, os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos descendentes dos donos de escravos poderão sentar-se juntos à mesa da fraternidade”.
Em outro trecho, King conjectura sobre o impacto positivo da igualdade social no exercício da política: “Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto o negro for vítima dos horrores indizíveis da brutalidade policial. Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto nossos corpos, pesados com a fadiga da viagem, não puderem ter hospedagem nos motéis das estradas e nos hotéis das cidades. Nós não estaremos satisfeitos enquanto um negro não puder votar no Mississipi e um negro em Nova Iorque acreditar que não tenha motivo para votar”.
Pois bem, King, na eleição maravilhosa de Barack Obama à Presidência dos Estados Unidos, milhões de norte-americanos, sem distinção de raça, credo, ideologia e gênero, exerceram como nunca o direito ao voto. E o fizeram com a consciência que o Sr. clamava aos negros de Nova Iorque! O resultado dessa eleição, 45 anos após seu inspirado pronunciamento, corrobora o seu sonho. Embora Obama não o tenha citado em seu discurso de vitória em Chicago (oops...), em 5 de novembro de 2008, ele também é fruto de sua luta, de sua crença e de seu legado.
A vitória eleitoral de Obama restabeleceu a esperança em um mundo melhor. Em seu discurso, o presidente eleito dos Estados Unidos ressalta a justiça, a redenção dos direitos e o bom combate a ser travado para reduzir as assimetrias sociais. Promete governar para todos. Que assim seja, pois os ideais igualitários, embora concretizados nos direitos políticos de milhões de habitantes nos Estados Unidos, ainda desafiam um mundo permeado de guerras, fome, injustiça e medo. Que a herança e a memória de Martin Luther King, 40 anos após pagar com a vida a persistência em suas crenças, iluminem o governo de Obama, as lideranças das nações e toda a humanidade, pois as mulheres e homens de boa vontade ainda têm um sonho, o sonho inacabado do inesquecível pastor.
*Marco Antônio Eid, jornalista e escritor, é diretor de Operações da Ricardo Viveiros & Associados — Oficina de Comunicação.
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