A responsabilidade social na (e da) imprensa


Giovanna Picillo - 18/09/2006


O processo de democratização do País foi acompanhado, nas duas últimas décadas, por dois movimentos bastante relevantes: a consolidação da imprensa como uma das mais importantes instituições do País e a conquista dos direitos do cidadão. A imprensa passou a exercer, com mais vigor, seu papel de contribuir para a formação e construção da cidadania, de atuar em prol dos interesses concretos do cidadão, de realizar denúncias e responder às preocupações do público na difusão dos direitos civis, políticos e sociais.

A manifestação do pensamento – que é parte dos direitos civis fundamentais à liberdade e ao exercício da cidadania – passou a ser praticada a partir de uma postura mais comprometida com as causas dos cidadãos. Este movimento desembocou no conceito do jornalismo cidadão.

Em suas diversas formas, trata-se da luta por justiça, a defesa dos interesses e direitos dos cidadãos -- através dos serviços de utilidade pública --, ou a criação de espaços específicos na mídia para abordar o tema da responsabilidade social e cidadania. Grandes emissoras de televisão, por exemplo, passaram a veicular o chamado merchandising social, com o objetivo de atuar na educação e conscientização da população sobre temas relevantes como o combate às drogas, ao alcoolismo, à discriminação, entre outros.

Diversas publicações abriram espaços específicos para falar sobre as ações cidadãs e os programas de responsabilidade social. Novo, participativo e atuante, o jornalismo cidadão também ganhou força na internet com a revolução digital.

O ineditismo aconteceu com a inclusão de novas ferramentas de edição que propiciaram a criação dos blogs e deram asas à formação dos repórteres independentes, aqueles que atuam sem vínculo com o veículo, participando do dia a dia de sua comunidade full time, on line. O fato corrente é que o desenvolvimento tecnológico possibilitou democratizar ainda mais a informação. Atores de seus próprios destinos os cidadãos em suas comunidades passaram a exercer o direito de pensar, agir e divulgar o cotidiano da vida em rede.

A revolução aconteceu de dentro para fora. Dos guetos para a vida nacional. Da internet para o fluxo global de informação. Dos repórteres vinculados às redações ao jornalismo engajado e independente. A partir daí nasceu uma nova filosofia jornalística desenvolvida para a cidadania. Líquida e certa, e muito atuante. Ao mesmo tempo em que esse jornalismo cidadão evoluiu, por outro lado uma boa parte da cobertura jornalística das ações de responsabilidade social – destacadamente da grande mídia impressa - ficou muito focada na atuação das grandes corporações.

Esse foco nas ações das grandes empresas e respectivas fundações pode ser entendido pelo fato de que foram elas a assumir parte do papel que cabia ao Estado, ao promoverem, patrocinarem e, inclusive, desenvolverem programas de responsabilidade social para os diversos segmentos da população carente. E a mídia, naturalmente, buscou retratar essa tendência, adicionando-se a isso que, mesmo com o reconhecimento da importância da responsabilidade social, a cobertura da mídia impressa ainda se destaca pelos veículos de foco econômico.

Acresça-se a isso que esse movimento também veio acompanhado de uma visão crítica sobre as ações de filantropia pura e simples, em contraponto aos programas estruturados de longo prazo, com objetivos e metas definidas, implementados por essas grandes corporações.

Esta situação criou uma dualidade, na qual as grandes empresas e fundações com seus investimentos e potencial de mercado conseguem espaço maior de centimetragem e divulgação nos veículos do que as pequenas instituições. É claro que há que se ressalvar o fato de que pequenas instituições carecem, muitas vezes, de estruturação e profissionalização, e que, em boa parte, suas ações também estão ancoradas na filantropia, em seu conceito mais básico.

Seja como for trata-se de uma situação que merece reflexão, no sentido de se pensar que a cobertura jornalística não deve estar restrita a um único foco, ou seja, a das ações das grandes corporações, principalmente porque se trata aqui da responsabilidade social. E esta deve ser abordada em todas as suas formas. Vale lembrar que as ações de cidadania dependerão ad eternum desse caráter de igualdade e, assim, de novas atitudes e comportamentos com fundamentos importantes para o desenvolvimento do bem comum.

Afinal, esse é o objetivo fim de toda ação cidadã.