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 Paulo Saab, graduado em Direito pelo Largo de São Francisco(USP), jornalista especializado em rádio  e TV, colunista e editorialista do Diário do Comércio e professor universitário. Atua profissionalmente  como executivo e participa de entidades como voluntário na causa da educação e da cidadania.  Membro de conselhos, associações e organizações empresariais, educativas, nacionais e  internacionais. Palestrante, escritor.

Espelho, apito, cor da pele e respeito
Por Paulo Saab

Quando Cabral aqui aportou, na tarde de 22 de abril de 1500, a terra hoje chamada Brasil já era povoada pelo que se convencionou chamar de "índios", embora a Índia, já secularmente conhecida na época, estivesse a milhares de milhas náuticas. O mesmo se deu na América do Norte, onde os "índios", após o início da colonização, foram sendo aos poucos dizimados pela famosa Sétima Cavalaria - e outras que compunham o exército na época.

No Brasil, os índios não foram propriamente dizimados. Foram sendo aculturados, embora também tenham sido aprisionados, escravizados e em muitos casos contaminados pelas doenças do chamado homem branco, para ficarmos nos chavões. Sempre se tratou a questão indigenista com certa indigência ou superioridade.

À exceção de momentos de nossa história, quando Anchieta catequizava, quando Rondon demarcava suas terras , quando os irmãos Villas Bôas os estudavam e os aproximavam da civilização, para ficar em alguns poucos exemplos, índio sempre foi objeto de piada e menção desabonadora. A imagem folclórica dos espelhos, apitos e outras bobagens presenteadas ou trocadas com os nativos, é ícone na nossa imaginação, geração após geração de brasileiros (e lá em cima, no norte da América, também).

Sempre houve e haverá quem defenda políticas indigenistas. Há órgãos governamentais, como a Funai, e pessoas especializadas nessa missão. Sempre houve e haverá quem não dê importância a isso e pragmaticamente busque condições econômicas, políticas, sociais, sem levar em conta o direito das populações aqui instaladas quando se ouviu o "Terra à vista ". Tudo isso é mais do que sabido e conhecido.

Para as pessoas de boa vontade, que respeitam o ser humano, independentemente de raça, cultura, cor, religião, sexo, a questão da preservação da cultura indígena e da própria raça é algo tão natural como quando aplicada a cada um de nós, habitantes do mesmo país. O problema é quando entram em cena os malandros, os mal intencionados, os espertos (e como os há!), que buscam sempre levar vantagem em qualquer situação. Na questão dos índios, assistimos isso mais uma vez. Agora, com base em resolução da ONU assinada pelo governo brasileiro (mas ainda não ratificada pelo Congresso), busca-se demarcar terras para que esses índios remanescentes venham a se tornar cidadãos de nações independentes. Outros territórios gigantescos já estão demarcados e pertencem a outras tribos, senhores de generosos nacos de terra.

Estaria tudo bem se escondido não estivesse o interesse econômico da exploração das riquezas dessas terras por terceiros, sejam eles brasileiros ou estrangeiros. Por trás de suas ações humanitárias está a exploração da riqueza, hoje fora do controle do Estado. O mesmo ocorre com o discurso demagógico de preservação da Amazônia. Todos os gananciosos estão atrás de recursos abundantes e não da salvação ambiental do planeta. Aplica-se, também, essa questão da exploração econômica maldosa em nome de outras causas, aparentemente justas, como a dos quilombolas .

Fazer justiça histórica é algo complicado. Em episódios mais recentes - como o do período do regime militar e a ação terrorista que o confrontou -isso aparece. Há muita gente hoje em dia beneficiando-se de generosas pensões a título de compensar uma perseguição ou mesmo a ação do então governo autoritário. A questão é mais política do que de Justiça. E comete grandes injustiças, como estas são cometidas com os índios, os negros e outras minorias: apoiar toda essa ação preservacionista com os impostos pagos pela classe média silenciosa. Esta injustiça ninguém enfrenta!

Voltando aos apitos e espelhos. Devemos todos ser a favor da causa indígena. Só não podemos ser tolos, ingênuos, idiotas, de entregarmos nosso território a quem será manipulado por bandidos mal intencionados, sejam eles "anjos de candura" brasileiros ou lideranças internacionais. Lula acertou ao falar do dedo sujo de carvão e óleo de quem fala mal do etanol brasileiro. Como os índios e outros povos nativos foram liqüidados nos processos de colonização por todo o mundo. Vamos cuidar com mais atenção do que é nosso.