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Ser ou não ser
Paulo Saab - Diário
do Comércio -11/04/2008
Ser ou não ser?
Desde que Sheakspeare imortalizou o “to be or note to be?”, a pergunta corre o mundo em diferentes situações.
Adaptada à realidade política do Brasil de hoje cabe como luva se acrescentada a frase “ético na política”.
Ficamos, então, com a pergunta direta: “ser ou não ético na política brasileira”.
Houve nos últimos anos um avanço despudorado do uso da chamada máquina de governo, dos recursos do erário, do patrimônio público, em favor de posições políticas, visivelmente de conotação eleitoral, por parte dos detentores do poder.
Causa estranheza que essa prática tenha sido estimulada e usada de maneira incalculável em sua grandeza pelos integrantes do PT (e seus aliados) que chegaram ao poder após trajetória política de combate à situações como estas. Dos aliados não há muito a falar porque tinha restado ao petismo o último resquício de defensor da moralidade pública. Resquício que se diluiu no festival de escândalos e denúncias que marcam a gestão atual desde seu primeiro momento após a posse em 2003.
Nos áureos tempos do PT em combativa oposição não havia autoridade em cargo público no Executivo ou Legislativo que pudesse imaginar, por exemplo, fazer proselitismo partidário, usando o cargo, sem levar pedrada dolorida do PT de então.
Na atualidade, daí a pergunta acima, é algo aparentemente transformado em natural, em outro exemplo, o presidente da República servir-se de todo o aparato e conforto que o cargo propicia, para, sem nenhum pudor, fazer campanha eleitoral Brasil afora consumindo dinheiro público em favor de causa partidária própria.
Fosse o mesmo PT da oposição, estivessem os atuais oposicionistas agindo como agem os petistas no poder, e o país estaria pegando fogo com a vociferação dos filiados e militantes da agremiação de Lula.
Os partidos hoje na oposição parecem ter aceito que a forma faceira como o presidente da República desfila em campanha eleitoral permanente país afora é natural. Normal.
O Legislativo totalmente comprometido (em sua maioria) com os interesses do Executivo ainda pega carona nesse desfile partidário que se faz a título de prestar contas ou inaugurar obras, quase sempre em início ou inacabadas.
O Judiciário imita o Hino Nacional, deitado eternamente em berço esplêndido e do alto de sua litúrgica toga não desce à planície. Quando uma voz isolada no Poder o faz, é intimidade pela reação intempestiva do próprio presidente da República. Viola o titular atual do Planalto (parece querer ser para sempre) o princípio constitucional da harmonia entre os poderes e fica tudo por isso mesmo.
Caminhamos para banir de vez a ética na vida pública?
A lei do salve-se quem puder se instalada de cima para baixo no país, levará ao caos institucional. A divisão de classes já está sendo estimulada.
Só não vê quem não quer. Talvez seja exagero dizer que isto facilita a formação de nuvens negras no horizonte. A médio e longo prazos o país está formando gerações de dependentes do favor público. Matando a capacidade de empreender, o desejo de progredir. A conta ficará cada vez mais alta e a parcela capaz de prover os recursos para essa política de concessões eleitorais, cada vez mais pobre.
E a pergunta permanece no ar...
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