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Nova escravidão
Por Paulo Saab
Sempre me abominou a idéia de que um ser humano possa se sentir superior a outro. Enquanto cada ser humano tiver as mesmas necessidades fisiológicas do outro, será pura estupidez imaginar-se que alguém ou alguma raça possa ser superior à outra.
São conceitos que desde cedo me acompanham. No início da adolescência já tinha isso arraigado em mim. Por isso era admirador –e ainda sou - incondicional de Castro Alves e cheguei a saber de cor Navio Negreiro , Espumas Flutuantes , nos tempos em que a memória ainda era um enorme e curioso arquivo aberto. De tal forma sua arte e conteúdo em favor da abolição da escravatura me influenciaram que fui estudar Direito nos bancos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, para pisar onde Castro Alves e outros ilustres brasileiros estiveram.
A escravidão, qualquer tipo dela, sempre foi e será algo horroroso, injustificável. A escravidão a que os negros foram submetidos por séculos foi uma infâmia. A escravidão que Hitler impôs aos judeus foi uma infâmia. A exploração do ser humano pelo ser humano é uma infâmia, qualquer que seja sua forma de ser praticada.
O controle da vida dos cidadãos pelo Estado, no comunismo ou mesmo no socialismo, onde a vontade individual é sobrepujada pela de meia dúzia de "iluminados" dirigentes, é algo para mim aviltante. Como aviltante também é a exploração total da capacidade do ser humano para, dentro do chamado capitalismo selvagem , esgotar suas forças e depois descartá-lo. Nunca me sensibilizou a arenga comunista. De outro lado, foi impossível deixar de me sensibilizar quando o personagem de A Morte do Caixeiro Viajante , interpretado por Paulo Autran, comparou-se a uma laranja cujo líqüido foi extraído e o bagaço estava sendo jogado fora.
Talvez, de forma simples isso tudo explique porque me tornei um liberal. Nada de radicalismos. Para mim, todo ser humano é rigorosamente igual. Nem sexo, nem cor, nem religião, nem ideologia, nada, nada, torna um melhor do que o outro. Ao menos até o dia em que eu conhecer alguém que dispense a ida ao chamado sanitário.
Estou, neste contexto, descobrindo um novo tipo de escravidão, o da incapacidade cotidiana de exercer os direitos universais e constitucionais - como, por exemplo, o de ir e vir. Passo mais tempo parado no trânsito (e quem está nos coletivos também) do que circulando. Fico mais tempo em filas (de bancos, de cinemas, de restaurantes, de repartições públicas) do que andando. E na hora de andar, o risco de ser atropelado e/ou assaltado é enorme.
No dia comemorativo da Abolição da Escravatura no Brasil, além de nos rejubilarmos por abolir essa afronta de nossa pátria, devemos refletir sobre as novas formas de escravidão. Chaplin, em 1935, com sua genialidade, já havia identificado este momento em Tempos Modernos .
PS : nesta terça-feira, o Senado Federal realiza sessão solene, requerida pelos senadores Cristovam Buarque, Paulo Paim e Aloísio Mercadante, em homenagem à Abolição da Escravatura . Nela, o senador Cristóvam Buarque vai anunciar a segunda edição do meu livro Moura Louca , prefaciado por ele, como parte dessa comemoração. No dizer de Cristóvam Buarque, o livro é especial porque a literatura brasileira é carente de personagens escravos e Moura Louca é um desses raros personagens.
Paulo Saab é jornalista psaab@uol.com.br
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