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 Paulo Saab, graduado em Direito pelo Largo de São Francisco(USP), jornalista especializado em rádio  e TV, colunista e editorialista do Diário do Comércio e professor universitário. Atua profissionalmente  como executivo e participa de entidades como voluntário na causa da educação e da cidadania.  Membro de conselhos, associações e organizações empresariais, educativas, nacionais e  internacionais. Palestrante, escritor.

As contradições entre o discurso e a prática

Paulo Saab - Diário do Comércio - 14/01/2008

 

Tenho desenvolvido um exercício diário, mental,claro, de tentar encontrar um meio de acreditar nas declarações que ouço de membros do governo,notadamente o federal . O contraste, a contradição existente entre o discurso dos integrantes do primeiro escalão e aquilo que de fato ocorre na prática , ainda bloqueiam minha tentativa otimista de querer crer que não estão sendo maliciosos em suas palavras e atitudes.
Sou um eterno otimista. Sempre acredito no melhor das pessoas.
Uma coisa me intriga.
Vou me limitar a um único e recente exemplo. São tantos e freqüentes que um só basta.
Vejam o caso das declarações do presidente da República,logo após a rejeição da prorrogação da CPMF, argumentando com ênfase que não haveria aumento da carga tributária. Alguns dias depois,entrando em 2008 , o seu governo majorou impostos (ainda se discute a legalidade da medida). Como complemento, o ministro da Fazenda,veio a público defender o presidente e profere uma pérola de descaso com a inteligência alheia, ao alegar que o presidente havia dito que não haveria aumento de impostos em 2007 e já estávamos em 2008.
Vesti meu chapéu de cone, como o burro das charges, e me sentei no banquinho, virado para a parede.
Afinal, se é assim que nos consideram ,vamos assumir o papel porque assim agimos.
A passividade da mídia e sua tolerância com essas contradições que , fossemos mais sérios e civilizados, colocaria em situação delicada a autoridade que as comete, me intriga também.
Nossos meios de comunicação são intransigentes com escalões médios de qualquer poder público ou corporação da iniciativa privada. Quando se trata do primeiro escalão, todavia, o tratamento é mais do que de tolerância, com raras exceções,claro.
No meio do festival de populismo e demagogia que se espraia na vida brasileira (e também em outros países da chamada América Latina) tento manter vivo minha capacidade de discernimento sobre o certo e o errado. Confesso que às vezes vacilo. Diante de ações demagógicas,mentirosas,contraditórias,explícitas, somente eu as enxergo? O resto da mídia brasileira e ,mesmo da população, não vê? Sou o único soldado do batalhão com o passo errado no desfile da tropa?
Eu e mais alguns ,certamente, para não ser presunçoso ou injusto.
Continuo acreditando na boa vontade das autoridades em fazer o melhor.Mas esse melhor, por seus critérios subjetivos e eleitoreiros, gera desconfiança.
Estou lendo um livreto, "Como me tornei um estúpido", que aliás me foi indicado pelo deputado federal do PT, José Eduardo Cardoso, numa viagem de volta de Brasília para São Paulo, buscando inspiração.
Para poder perder a tormenta da dúvida sobre se ainda estou lúcido o suficiente para entender o que se passa em volta, melhor,talvez, aderir e me tornar um alienado estúpido que sorri a toa e por tudo.
O que me segura,ainda, é o "talvez" da frase acima , e o exercício diário ,mental,claro, de tentar entender e acreditar.