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As contradições
entre o discurso e a prática
Paulo Saab - Diário
do Comércio - 14/01/2008
Tenho desenvolvido um exercício diário,
mental,claro, de tentar encontrar um meio
de acreditar nas declarações
que ouço de membros do governo,notadamente
o federal . O contraste, a contradição
existente entre o discurso dos integrantes
do primeiro escalão e aquilo que de
fato ocorre na prática , ainda bloqueiam
minha tentativa otimista de querer crer que
não estão sendo maliciosos em
suas palavras e atitudes.
Sou um eterno otimista. Sempre acredito no
melhor das pessoas.
Uma coisa me intriga.
Vou me limitar a um único e recente
exemplo. São tantos e freqüentes
que um só basta.
Vejam o caso das declarações
do presidente da República,logo após
a rejeição da prorrogação
da CPMF, argumentando com ênfase que
não haveria aumento da carga tributária.
Alguns dias depois,entrando em 2008 , o seu
governo majorou impostos (ainda se discute
a legalidade da medida). Como complemento,
o ministro da Fazenda,veio a público
defender o presidente e profere uma pérola
de descaso com a inteligência alheia,
ao alegar que o presidente havia dito que
não haveria aumento de impostos em
2007 e já estávamos em 2008.
Vesti meu chapéu de cone, como o burro
das charges, e me sentei no banquinho, virado
para a parede.
Afinal, se é assim que nos consideram
,vamos assumir o papel porque assim agimos.
A passividade da mídia e sua tolerância
com essas contradições que ,
fossemos mais sérios e civilizados,
colocaria em situação delicada
a autoridade que as comete, me intriga também.
Nossos meios de comunicação
são intransigentes com escalões
médios de qualquer poder público
ou corporação da iniciativa
privada. Quando se trata do primeiro escalão,
todavia, o tratamento é mais do que
de tolerância, com raras exceções,claro.
No meio do festival de populismo e demagogia
que se espraia na vida brasileira (e também
em outros países da chamada América
Latina) tento manter vivo minha capacidade
de discernimento sobre o certo e o errado.
Confesso que às vezes vacilo. Diante
de ações demagógicas,mentirosas,contraditórias,explícitas,
somente eu as enxergo? O resto da mídia
brasileira e ,mesmo da população,
não vê? Sou o único soldado
do batalhão com o passo errado no desfile
da tropa?
Eu e mais alguns ,certamente, para não
ser presunçoso ou injusto.
Continuo acreditando na boa vontade das autoridades
em fazer o melhor.Mas esse melhor, por seus
critérios subjetivos e eleitoreiros,
gera desconfiança.
Estou lendo um livreto, "Como me tornei
um estúpido", que aliás
me foi indicado pelo deputado federal do PT,
José Eduardo Cardoso, numa viagem de
volta de Brasília para São Paulo,
buscando inspiração.
Para poder perder a tormenta da dúvida
sobre se ainda estou lúcido o suficiente
para entender o que se passa em volta, melhor,talvez,
aderir e me tornar um alienado estúpido
que sorri a toa e por tudo.
O que me segura,ainda, é o "talvez"
da frase acima , e o exercício diário
,mental,claro, de tentar entender e acreditar.
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