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O poder efêmero
Paulo Saab - Diário
do Comércio - 23/04/2008
Paulo Saab
Casamento da filha de Dilma tem Lula e 15 ministros e governadores .
Comecei minha vida como profissional de imprensa em 1971. São 37 anos de militância diária, ininterrupta, ativa, em veículos de comunicação como a Jovem Pan, Record, Tupi, Capital, Bandeirantes, Folha de S.Paulo e Diário do Comércio. Acompanho, portanto, há quase quatro décadas a vida política do País. Atravessei em início de carreira os anos difíceis de censura à cobertura política, às atividades políticas e participei do processo de abertura e de todas as fases deste período da vida nacional.
Além de amolar o leitor, fiz esse preâmbulo porque diante da manchete que reproduzi acima me vieram à lembrança dezenas de situações em que os governantes, nomeados, impostos ou eleitos, sentados nos cargos importantes, cercaram-se de pompa, circunstância e muitos, muitos, muitos amigos e admiradores. Sem falar nas demais autoridades que gravitam em torno de si mesmas e de quem mais está no poder.
O poder deslumbra. Fascina. Faz quem o detém flutuar alguns centímetros (ou metros) acima do chão e, geralmente, acima também do bom senso.
Quando se casa alguém ligado a alguma autoridade pública (no setor privado vez ou outra isso acontece também) há um deslumbramento e uma badalação que tende a levar os envolvidos a acreditar que se trata de prestígio pessoal. Não conseguem entender que é o interesse na posição, na função, até no prestígio do cargo, que move as pessoas.
Vi de perto um secretário-todo-poderoso de governo que já lá se foi, não ter uma cadeira para sentar-se num jantar (e ninguém se mexeu para tal) apenas um mês depois de deixar o cargo. Era preciso no mínimo um outro mês para conseguir ser atendido pelo mesmo, tamanha era a agitação de sua agenda/cargo.
Sofre quem recebeu as graças do prestígio de um cargo importante ao deixá-lo se não entender que o poder é efêmero, e tudo que gira em torno dele é o mero interesse.
A badalação que existe em torno de governantes os faz se sentirem poderosos. Semi-deuses.
Foi por isso que Jânio Quadros criou fama de apreciador de um bom vinho do Porto. Era consolo por estar ausente do quadro político que o havia consagrado. E o consagrou novamente ao se eleger, anos depois, prefeito de São Paulo. Ele se renovou. O poder também rejuvenesce.
Admirar tamanho prestígio, como fez a manchete acima, é desconhecer, ou ignorar, ou fingir não saber, que o ser humano é interesseiro e se aproveita das vaidades dos poderosos de plantão para buscar levar vantagens.
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