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São Paulo, caso de
amor e ódio
Paulo Saab - Diário
do Comércio - 24/01/2008
Quando São Paulo completou seu quarto
centenário, eu era apenas um menino,
como tantos outros netos de imigrantes nascidos
na capital paulista que começava a
dar suas primeiras andanças,acompanhado
pelos pais, na cidade da qual todos se orgulhavam
de ser a que mais crescia no mundo. A única
lembrança que tenho daquele 25 de janeiro
de 1954 é da chuva de papel prateado
caindo dos céus no Ibirapuera. Dos
anos seguintes, quando entrei no Grupo Escolar,
comecei a me alfabetizar e a descobrir de
verdade a cidade, meu orgulho e amor por ser
paulistano cresceu de forma até ufanística.
Sem ser saudosista, mas pela passagem de mais
de meio século desde então (São
Paulo faz 554 anos) , recordo que fui passeando
e conhecendo São Paulo em aventuras
de ônibus e bondes que pegava já
sozinho para circular e descobrir as artérias
da maior cidade do Brasil. Caminhava a pé
para a escola. Fiz isto até os 18 anos,
tomando ônibus ou caminhando, por entre
ruas e avenidas sem nunca ter tido um rasgo
de medo ou de ameaça decorrente da
insegurança urbana. A Guarda Civil
estava por toda parte.
Nasci,cresci ,me formei e vivo em São
Paulo. Aqui me casei com uma paulistana também
e aqui nasceram minhas três filhas.
Ao longo dessas já cinco décadas
de vida,quase chegando na sexta, minha paixão
por São Paulo só não
é maior do que a paixão pelo
São Paulo. Sempre estiveram niveladas.
Hoje,todavia, em face de toda a deterioração
que sofreu a atual terceira maior cidade do
mundo, em muitos momentos minha relação
com a capital bandeirante chega a ser de ódio.
Não foram poucas as vezes em que me
peguei fazendo contas e projeções
imaginando-me mudar daqui.
O ônus de viver em São Paulo
hoje , ou,na linguagem empresarial, o custo
benefício,já não está
compensando . O amor que havia do paulistano
anônimo à sua cidade foi substituído
pela indiferença,pela guerra da sobrevivência
, pela disputa de espaço (literal e
figurativamente) e pelo inchaço de
gente,obras e veículos,não acompanhado
pela atenção da autoridade pública
que deixou a cidade perder suas medidas.
Hoje, o governante busca paliativamente e
diante da grandeza dos problemas,solucionar
,minimizar seria mais adequado, a gama de
necessidades que a megalópole demanda.
Falta à São Paulo de hoje o
amor que antes sobrava. O ódio pelo
trânsito,seja por veículo próprio
ou coletivo, o massacre (de todo lado) das
motos , a violência, a miséria,
a baixa qualidade dos equipamentos públicos,
o empobrecimento da qualidade da representação
legislativa, a ausência de grandeza
e comprometimento de todos, prevalecem no
que se transformou simplesmente em luta pela
sobrevivência. Pouco tempo e condições
faltam para se apreciar e amar a cidade.
De minha parte, como em todos os balanços
que faço a respeito, vou ficando por
aqui. Afinal, 57 anos depois, com muito mais
alegrias do que decepções,mesmo
que já na fase de apenas tentar sobreviver
à opressão dos problemas da
cidade, nesse balanço entre o amor
e ódio ,ainda vou ficando mais com
o amor pelo cantinho (melhor cantão)
que me deu muito. Tento ser um bom cidadão.
E ,ao menos o São Paulo, no impedimento
da São Paulo, continua dando....
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