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Mudar a capital?
Paulo Saab - Diário
do Comércio - 25/03/2008
Recebi de amigos leitores, em diferentes oportunidades, considerações a respeito do estágio de gigantismo e problemas a que São Paulo chegou, defendendo, como forma de amenizar o problema, a transferência da capital do Estado para uma região do interior.
O tema é altamente polêmico.
Sempre que veio à tona provocou imensas discussões e reações diferentes.
Em meio ao caos que a cidade vive, especialmente nos congestionamentos monstruosos e irritantes de trânsito, pergunto ao leitor: não vale a pena reabrir essa discussão, abordando-a por um prisma racional e não emocional?
A paixão tende a tomar conta dos argumentos e os interesses de cada um, especialmente de quem tem todos os seus interesses e modo de vida enraizados na capital. Em princípio, eu sou um deles, mas estou mesmo disposto a conhecer os argumentos favoráveis e contrários para subsidiar uma polêmica saudável e que vise melhorar a qualidade de vida da população da cidade, na qual igualmente me incluo.
Alegam os defensores da mudança que o interior paulista hoje é dotado de uma infra-estrutura econômica, de malha rodoviária, de cidades e regiões capacitadas a receber o peso do que significa ser a capital do mais pujante Estado do País.
Argumentam que com a mudança sairiam da cidade de São Paulo, como quando a capital federal foi para Brasília, as repartições públicas, os Poderes, todos os servidores vinculados, os interessados e circunstantes, além de se desviar da atual capital bandeirante todo o tráfego de quem vem de fora em função de seus interesses nas repartições governamentais do Estado.
Isso aliviaria toda a pressão que São Paulo, a cidade, hoje recebe e se refletiria na diminuição do trânsito de veículos, aumentando, certamente, de forma incalculável, o da região para onde viesse a se deslocar a capital.
Há os que enxergam nisso uma utopia em face do tamanho do aparato público, o que exigiria investimentos nessa mudança que onerariam de tal forma os cofres públicos que haveria endividamento, aumento da inflação.
Citam os defensores da medida, ao menos os que me escreveram, numa comparação imaginária, que a cidade de São Paulo poderia ficar semelhante ao que acontece nos grandes feriados, quando entre dois e três milhões de habitantes (e cerca de um milhão e meio de veículos) deixam a capital, dando uma desafogada na circulação interna. É só alegoria, porque não se mediu ainda, se houvesse essa mudança, quantas pessoas e respectivos veículos seriam afetados e teriam que se mudar também. Sem falar na acomodação de todo esse contingente.
Enfim, são apenas alguns dados, talvez nem os mais importantes, numa hipótese que quando aventada costuma despender horas, resmas de papel, e discursos inflamados, de discussão quase sempre estéril.
Se a memória não falha, nos arquivos implacáveis não encontrei registros, no governo Paulo Maluf, se um projeto a respeito chegou a ser posto em debate público. Foi atropelado, além do mérito em si, pela polêmica natural que qualquer ato ou atitude do então governador, eleito de forma indireta, despertava.
Como dizem que da discussão nasce a luz, e os tempos são outros, e, mais, o congestionamento na capital (de todos os tipos) chegou a níveis exasperantes, penso que vale a pena falar-se novamente no assunto.
Paulo Saab é jornalista e membro do Instituto Cidadania Brasil
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