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 Paulo Saab, graduado em Direito pelo Largo de São Francisco(USP), jornalista especializado em rádio  e TV, colunista e editorialista do Diário do Comércio e professor universitário. Atua profissionalmente  como executivo e participa de entidades como voluntário na causa da educação e da cidadania.  Membro de conselhos, associações e organizações empresariais, educativas, nacionais e  internacionais. Palestrante, escritor.

 

Os novos velhos tempos

Enquanto a população mundial começa a ficar preocupada com a chamada gripe suína, com medo de uma pandemia (epidemia internacional), a mídia dá amplo destaque ao tema. Busca ao mesmo tempo informar, orientar sem gerar pânico.

A verdade é o que o tema se tornou obrigatório nas conversas de amenidades (small talks), apesar da gravidade de seu conteúdo. Epidemias e vírus internacionais, atingindo países distantes parece coisa de dois séculos, ou mais, para trás.  É interessante notar, todavia, que na atualidade, com a velocidade das viagens de avião, alguém contaminado pode de fato disseminar rapidamente qualquer doença em fronteiras distantes.

É algo absolutamente “old fashion” repaginado para os tempos da comunicação mundial em tempo real. Antigamente os vírus viajavam de navio e levavam meses para aportar em terras distantes.
Também em tempos mais remotos havia a figura transformada em romântica do pirata que atacava as naus, caravelas, galeões, enfim, toda sorte de embarcação que singrava os mares, para utilizar uma linguagem adaptada.

Tornou-se, subitamente, comum, em pleno Século XXI, a volta da figura do pirata a atacar navios cargueiros ou mesmo como se vê agora, de passageiros, na costa da faminta Somália. É verdade que são piratas esquálidos, sem o glamour dos barbas rubras ou corsários que fizeram história e ficaram obsoletos com o avanço da tecnologia e dos instrumentos de defesa marítimos.

No mundo global “satelitizado’ é até estranho imaginar que meia dúzia de mal vestidos, mas bem armados, abordem de canoinha ou outro tipo de pequenas embarcações, gigantescos transatlânticos, façam reféns e ameacem a vida de inocentes passageiros e tripulantes. Quase surreal.

O “Der Spiegel” noticiou com amplos detalhes. Abaixo uma síntese:
“Segundo testemunhas, dois passageiros entraram gritando no bar e contaram o que se passava ao capitão, gesticulando intensamente. Eles informaram ao capitão que uma lancha havia aparecido à popa, e vários homens armados preparavam-se para abordar o transatlântico. Um dos piratas já tentava escalar a amurada da embarcação. Vários passageiros pegavam desesperadamente mesas e cadeiras e as jogavam contra os homens que procuravam invadir o navio.”

Era o luxuoso MSC Melody, na costa africana, sofrendo tentativa de ataque de piratas dos novos tempos.

O relato é longo e cinematográfico. Vale o registro para ilustrar a tese da coluna: novos velhos tempos, onde as epidemias que assolaram o planeta nos séculos anteriores, bem como os piratas glamourizados por Hollywood dos tempos da navegação por vento ou caldeiras, estão mais presentes do que nunca, devidamente adequados (ou não, no caso dos piratas fajutos) às tecnologias hoje disponíveis.

Em janeiro passado viajei num MSC, só que na costa brasileira. Ainda assim já havia notícias de piratas na costa somaliana e foi impossível não divagar, imaginando aquela cidade flutuante num literalmente mar de solidão, sobre a fragilidade da segurança de milhares de pessoas em caso de uma abordagem criminosa.

Quanto mais se evolui na tecnologia e na busca por segurança do ser humano, mais frágil fica sua exposição à sanha dos que se dedicam ao crime. Assim como a evolução da medicina está oferecendo a longevidade, os vírus traiçoeiros se adaptam e se prevalecem dos recursos modernos de transportes para ameaçar o planeta.

Lavoisier estava certo: na natureza nada se cria nada se perde tudo se transforma.

Na era da nanotecnologia, dos genomas, células tronco e exploração intergaláctica, o ser humano, no já combalido, semi-destruído planeta Terra, ainda sofre e morre pela ação de vírus e de piratas.

Sem falar, no gigantesco país chamado Brasil, onde o ser humano também sofre e morre (de inanição, ignorância, doenças, fome e que tais) pela ação predadora da parte podre da chamada classe política/governantes/maus empresários.

Novos velhos tempos.