| |  |  | Paulo
Saab, graduado em Direito pelo Largo de São Francisco(USP), jornalista especializado
em rádio e TV, colunista e editorialista do Diário do Comércio e professor
universitário. Atua profissionalmente como executivo e participa de entidades
como voluntário na causa da educação e da cidadania. Membro de conselhos,
associações e organizações empresariais, educativas, nacionais e internacionais.
Palestrante, escritor. | 
Desprezo pelo dinheiro público
É infindável o repertório de instrumentos e ações aparentemente acobertadas pela legalidade que descambam para o campo da mais absoluta imoralidade com o dinheiro público. Os políticos brasileiros, pelo menos parte bastante destacada da categoria, revela(m) um desprezo total pelo dinheiro público, para mostrar, de outro lado, amor profundo ao mesmo quando desviado do erário para suas privilegiadas contas.
Não se passa um único dia na república tupiniquim sem que se tenha conhecimento via imprensa de uma nova modalidade de ganho indevido dos parlamentares e/ou colegas de ofício público e surgimento de nomes envolvidos naquilo que um dia o então candidato Lula chamava de maracutaia e que faz parte indissociável de sua base de governo.
Suplicy, Gabeira, para ficar em dois que sempre buscaram destaque como paradigmas da moralidade, foram pegos com a mão na botija em ganhos indevidos. Sem graça pediram desculpas e fizeram promessas de devolução do dinheiro público recebido ou gasto de forma imoral.
Embora hoje devamos ter novidades, sempre as há nesse terreno constrangedor da representação política pátria, ainda fica sem sentido o caso da semana passada que envolveu o ex-presidente da República, José Sarney, e sua mesada de quase quatro mil reais por mês a título de auxílio moradia. Não deveria causar espanto. Sarney é nome substantivo no Maranhão, mas ele é senador pelo Amapá. Algo está errado aí, mas quem sou eu para apontar.
O ilustre presidente do Senado tem residência em Brasília. Própria. E ainda dispõe da residência oficial à beira do Lago, uma mansão milionária, como chefe do Legislativo federal. Ele é presidente do Congresso Nacional(e do Senado que forma o Congresso com a Câmara). Sarney vem recendo o auxílio moradia como se precisasse morar em hotel ou alugar um apartamento.
Pego também com mão na botija saiu-se inocentemente com um pedido de desculpas, aviso de devolução dos valores e uma justificativa de que desconhecia que esse dinheiro era depositado (certamente à sua revelia) todo mês pelo Senado em sua conta.
Ah. As coisas da política brasileira. Como ela é generosa, mãe gentil com seus filhos do solo. Exatos R$ 3.800,00 depositados na conta pessoal e ele nem sabia. Eu, pobre contribuinte que dedico “espontaneamente” cinco meses do que recebo no ano dando um duro danado, aos cofres públicos de onde saem os recursos para nossos políticos, estou brigando com o banco porque me cobrou uma tarifa indevida de R$ 30,00(trinta reais). Mas, eu não sou vereador, deputado estadual ou federal, senador, governador, presidente, ministro, nem pertenço ao Legislativo, Executivo ou Judiciário. Não sou ninguém pela estrutura de usufruto do poder no Brasil.
Sou da categoria paga e não chia. A mesma que você, leitor, comum cidadão produtivo como eu, pertence para sustentar os improdutivos que nos consomem a título de produzir.
Fico pensando em quantos brasileiros podem se dar ao luxo de ter depositados quase quatro mil reais todo mês e não saber disso. Quantos são não sei. Mas sei que todos têm endereço em cargos públicos.
Bem, poderia ser pior. O Chávez, por exemplo, poderia ser brasileiro.
O que é cômico no Brasil, perto dele, quase vira coisa séria.
E vamos lá, todos os sérios daqui, com guias de recolhimento nas mãos, aos bancos para sustentar quem não nos respeita.
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