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 Paulo Saab, graduado em Direito pelo Largo de São Francisco(USP), jornalista especializado em rádio  e TV, colunista e editorialista do Diário do Comércio e professor universitário. Atua profissionalmente  como executivo e participa de entidades como voluntário na causa da educação e da cidadania.  Membro de conselhos, associações e organizações empresariais, educativas, nacionais e  internacionais. Palestrante, escritor.

 

QUEM ESTÁ A SERVIÇO DE QUEM

 

Toda a estrutura do estado brasileiro está montada na dependência por ele criada da sociedade a quem deveria servir. Explicando melhor: o estado brasileiro nasceu a partir da vinda de Dom João VI para o Brasil em 1808, quando foi criado de cima para baixo na medida das necessidades de governança do reino aqui instalado fugido da invasão de Napoleão ,da França.

Assim colocado parece ser algo muito distante. Faz apenas duzentos e um anos que isto aconteceu e de lá para cá, com todas as evoluções e involuções que alcançaram o país chamado Brasil, a presença do estado tem sido preponderante sobre a sociedade a quem tutela. Tudo no Brasil depende do governo central e gira em torno da forma como a estrutura pública foi montada para atender aos interesses do próprio estado e não da sociedade.

Digo isso há tempos. Somos uma república federativa, mas o poder circula em torno de uma corte onde pontifica hoje o presidente Lula, que poderia ser chamado de Dom Lula I, ou algo assim, porque na pratica a sociedade brasileira existe para sustentar o estado e não o estado existe para gerir os interesses dessa sociedade. Essa é a perversidade que nos consome há dois séculos e somente vai se alterar quando a sociedade participar efetivamente da vida política do país, elegendo representantes parlamentares e governantes que levem para o cargo público os anseios e necessidades de quem representam de verdade. Hoje, a imensa maioria, representa a si mesmo e aos grupos econômicos que os sustentam.

Para o leitor que me acompanha não há muita novidade no que aqui sustento. Vale, todavia, pela oportunidade de artigo publicado em jornal da capital por Alberto Carlos Almeida, sociólogo e autor de livro sobre o comportamento eleitoral do brasileiro.

Discutindo a questão do financiamento público de campanhas políticas, o autor em determinada frase diz: “o governismo de nossos doadores (de campanhas eleitorais) privados mostra que a nossa sociedade está a serviço do governo e não o oposto”. Exatamente o que digo para alertar os brasileiros.

No contexto em que Almeida coloca a frase, dentro da análise da questão do dinheiro público em embates eleitorais, ela poderia parecer isolada. Mas a realidade que comporta essa assertiva é a essência dos males que afligem o país: a sociedade brasileira, insisto, existe para sustentar o estado que a tutela onera e despreza como mostra o comportamento médio dos eleitos. Na verdade, qualquer estado, ainda mais republicano e democrático, deveria existir para ser o representante gestor dos interesses e conflitos de quem o criou e sustenta.

De resto, a discussão sobre a questão que gerou o comentário, essa modalidade de financiamento, segue em aberto. Hoje em dia os estudos do próprio Almeida indicam que a contribuição privada tende a ser mais acentuada para quem já está no governo. Os investimentos são vinculados aos interesses de quem financia as candidaturas, ou via “lobbies” setorizados, organizados, ou por outros interesses, sempre distantes dos anseios da sociedade.

Por outro lado, a legislação eleitoral e a distribuição de tempo aos partidos para uso da mídia de massa estão atreladas a quem já tem bancadas formadas e quanto maiores mais recebem. Isso pouco oxigena o processo de renovação.

De algum modo entendo que muitas campanhas de governistas já são financiadas pela exposição, com dinheiro público, via propaganda, obras ou pseudo obras, fatos e ou factóides de quem tenta manipular a opinião pública para mostrar “serviço”.

Enquanto esta relação invertida de quem manda em quem, seguir como é no Brasil, ou seja, com o estado mandando na sociedade e não se inverter o papel, sendo a contribuição pública ou privada, ela estará sempre eivada de vícios e erros que mantém o Brasil semi feudal em suas relações de vassalagem com o poder.