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 Paulo Saab, graduado em Direito pelo Largo de São Francisco(USP), jornalista especializado em rádio  e TV, colunista e editorialista do Diário do Comércio e professor universitário. Atua profissionalmente  como executivo e participa de entidades como voluntário na causa da educação e da cidadania.  Membro de conselhos, associações e organizações empresariais, educativas, nacionais e  internacionais. Palestrante, escritor.

 

É muito bom ser de esquerda no Brasil

Estamos envolvidos até a raiz dos cabelos nos escândalos diários   reveladores das práticas irregulares,quando não criminosas, de nossos governantes (dos três poderes) e representantes políticos. Outro dia vi e ouvi um deles, sem aparente rubor, aplaudir a tentativa de se minimizar a verdadeira festa das passagens aéreas, alegando que estavam acabando com uma prática de mais de 50 anos. Errar lá atrás justifica a continuidade e o açodamento do erro. É assim que eles pensam e agem.

De todo modo, os tentáculos da malversação dos recursos públicos parecem ser inesgotáveis em suas ramificações.  Meio sem destaque saiu outro dia na Folha uma manchete de página interna que dizia assim: “Fim da farra aérea restringe ação de partidos”. Como subtítulo: ”Prática de pagar locomoção de líderes de movimentos socais deverá ser assumida pelas legendas ou pelas próprias organizações”.

Entendeu leitor? Sei que sim.  Veja o que dizia o “lead” da mesma matéria: “A exposição da farra das passagens aéreas no Congresso e a decisão de por fim à emissão de bilhetes de cotas de congressistas para terceiros arruínam o esquema de mobilização dos principais partidos de esquerda. A prática comum de pagar a locomoção de líderes de movimentos sociais à Brasília ou outras cidades terá de ser assumida pelos partidos ou movimentos, dizem parlamentares”.

É uma festa. Você, inteligente, mas ingênuo leitor jamais imaginou que todas as “nossas lideranças” de movimentos sociais e partidos de esquerda, de tanto destaque na mídia e onipresentes nos atos mais destacados da vida política do país, estavam ali na base da boquinha livre, tudo pago por você mesmo, leitor. Que delícia.

É muito bom ser de esquerda no Brasil.

Rende status político, uma espécie de aura de Che moderno, mesmo com visual arcaico ; abre espaço na mídia, e, ainda, faz da pseudo defesa de interesses sociais um tremendo de um meio de vida de elevada qualidade material.  Esquerdista de movimento social no Brasil adora o conforto material que o alimento do capitalismo, o vil metal, proporciona, ainda mais vindo dos cofres públicos e na base da mordomia.

Marx, Lênin, devem revirar nos mausoléus (sim, esquerda não tem túmulo, tem mausoléu).

Claro que não vou estender a crítica do gosto pela matéria (Land Rover, num exemplo; chácaras monumentais em outro) a todos que militam como viúvas do socialismo em movimentos que chamam de sociais. Certamente há os que, não ingenuamente, acreditam que o Estado é a solução. Talvez porque seja para eles, de onde tiram o gostoso conforto. Mas acreditam na causa.

Agora sabemos de onde saia (vai seguir saindo?) parte dos recursos que financiam a extraordinária mobilidade das “lideranças” de movimentos no combalido patropi.  Sai do seu bolso, leitor. Você (e eu) paga (mos) tudo que eles usufruem ,consomem, gastam, desviam incluindo aí também os próprios parlamentares.

E ainda posam de importantes e nos esnobam achando que não devem satisfações. Pensam que são pessoas de qualidade superior porque enfiam a mão no nosso bolso. Culpa nossa que ainda aplaudimos. Que não vaiamos, que não apuramos melhor nosso voto.

Eu, aqui do meu canto, vou ficar muito triste de ver notórios freqüentadores de bocas livres chamadas movimentos ou atos por isso e aquilo, na medida em que a passagem aérea não vai mais cair do céu, fora da mídia.

Devem estar se perguntando o que fizeram para que a exposição pública os desmascare. Todos os que se beneficiam de forma sanguessuga do esforço, do trabalho, de quem de fato trabalha. Estão se achando injustiçados.

Um dia o povo brasileiro vai acordar. Mas não espontaneamente. É preciso que a parcela que pensa da população, que discerne e vê, invista na educação de forma maciça para dar luzes a quem é massa de manobra.

Já tem muita gente, mas muita gente, cansada de tudo isso de errado que é feito com dinheiro público. Pena que pelo cansaço se calem.