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 Paulo Saab, graduado em Direito pelo Largo de São Francisco(USP), jornalista especializado em rádio  e TV, colunista e editorialista do Diário do Comércio e professor universitário. Atua profissionalmente  como executivo e participa de entidades como voluntário na causa da educação e da cidadania.  Membro de conselhos, associações e organizações empresariais, educativas, nacionais e  internacionais. Palestrante, escritor.

 

 

Culpa da IMPRENSA !

 

O recurso é tão antigo como o caráter do ser humano é volátil.
Detentor de cargo público (ou mesmo particular) quando é denunciado fazendo alguma coisa com recursos do erário ou privados, que não deveria, apela imediatamente para a desculpa de que se trata de campanha difamatória da imprensa.

Se for no âmbito político, é campanha para desestabilização de gestão ou de candidatura.

Não falha. Quando não se tem justificativa ou desculpa, o ato do denunciado, muito próximo de algum desfecho, é o de se acusar um ou diversos veículos de comunicação de perseguição ou algo semelhante.

Não é novidade, portanto, que o senador José Sarney, cujas relações de caráter duvidoso com os escaninhos do poder, abrangendo familiares e correligionários, têm alimentado notícias escandalosas aparentemente sem fim, acuado, apele para Sêneca como forma de justificar silêncio e acuse principalmente o Estadão, de campanha conta ele.

Na década de 70 do século passado (é possível que algum leitor meu se lembre do episódio) eu cobria para a Folha de São Paulo e para a Jovem Pan as atividades da Assembléia Legislativa de São Paulo. Na época, difícil para os brasileiros, mas de forma acentuada para os jornalistas, pela vigência do AI-5, existiam apenas dois partidos consentidos, a Arena, do governo, e o MDB, dito de oposição. (Jânio Quadros dizia na intimidade: Arena e MDB são farinha do mesmo saco. Só que o MDB chegou um pouco atrasado).

Ainda tenho comigo as notas taquigráficas de sessão plenária da Assembléia onde um deputado da Arena me acusava de estar ali a serviço da oposição, de fazer matérias contrárias aos interesses do governo.

Ainda tenho comigo as notas taquigráficas de sessão plenária  da Assembléia onde um deputado do MDB me acusava de estar ali a serviço do governo, de fazer matérias contrárias aos interesses da oposição.

Obviamente eu estava ali a serviço da informação correta, do interesse do leitor, da sociedade e das regras democráticas, como é o papel do jornalista e dos jornais independentes. Como é também o caso deste Diário do Comércio.

O senador José Sarney, inclusive, como bem lembra Clovis Rossi, em seu espaço na Folha, tem uma coluna semanal bem ao lado da dele, na página de opinião daquele jornal, mas jamais a utilizou para prestar informações, esclarecimentos, sobre tudo de que é acusado. Sarney é escritor, além de exercitar o jornalismo. É membro da Academia Brasileira de Letras. Sempre fez questão de exibir de público um lado poético, sentimental. Consagrou a expressão “liturgia do cargo”, referindo-se ao protocolo, cerimônia, procedimentos, de um presidente da República, o que já foi também.

No momento em que está sob acusações que envolvem privilégios e benefícios à sombra do Estado , que alcançam, repita-se, familiares e apaniguados, prefere dizer que é campanha da imprensa contra ele. Busca ratear a crise com a instituição Senado – o que em parte é verdade- mas são os homens (e mulheres) que fazem o Senado.

É defendido pelo presidente da República que também defende Collor, agora. Provavelmente é culpa da imprensa também que está publicando tudo que o presidente atual dizia de
Sarney e de Collor, quando estavam em trincheiras opostas.
Vai ver foi a imprensa que inventou tudo.

Na política brasileira, o que se disse ontem ou se fez não vale para hoje e muito menos para amanhã. O adversário, ou mesmo inimigo, de ontem, é o aliado de hoje e o companheiro de amanhã.

Tudo culpa da imprensa que fica revelando essas coisas.
Fico imaginando se não houvesse a imprensa...

Aliás, já perceberam como Chaves (o da Venezuela e não o do Chapolim) não gosta da imprensa?