| |  |  | Paulo
Saab, graduado em Direito pelo Largo de São Francisco(USP), jornalista especializado
em rádio e TV, colunista e editorialista do Diário do Comércio e professor
universitário. Atua profissionalmente como executivo e participa de entidades
como voluntário na causa da educação e da cidadania. Membro de conselhos,
associações e organizações empresariais, educativas, nacionais e internacionais.
Palestrante, escritor. | 
GREVISTAS MALDIRECIONADOS
Os estudantes universitários de hoje merecem todo respeito. Dou aulas à eles, embora em instituição particular, e de certo modo entendo suas angústias ansiedades e desejos.
Convivo com quem estuda na USP, inclusive, na Cidade Universitária.
Os estudantes de hoje em dia, por mais boa vontade que tenham e têm, de fazer o melhor pelo Brasil, perto do que foi minha geração - sim, estudei na USP entre 1971 e 1975, portanto sob o AI-5 e o Decreto 477- não sabem nada. Não possuem bandeiras.
Vendo as fotos nas primeiras páginas de jornal, dos “estudantes, professores e funcionários” da USP, desfilando na Avenida Paulista, o que consegui ler de slogans nos cartazes era “fora reitora”, “fora PM” e “pela reintegração do Brandão”.
Querem os grevistas a retirada da PM do campus universitário, a saída da reitora da USP, Suely Vilela e a reintegração do funcionário Brandão, demitido do sindicato dos profissionais da universidade após processo de indisciplina.
É mais um retrato das deformações que vive o Brasil nesse período de consolidação de sua democracia. São grevistas sem causa.
O pedido de retirada da PM de dentro da USP aparece como se a policia militar tivesse lá ingressado a seu bel prazer e não em cumprimento de mandado judicial. O que aliás também no Brasil de hoje parece nada valer.
O pedido de saída da reitora surgiu após o início da greve manipulada por uma minoria ativista, como mostrou reportagem do Estadão semana passada (a ampla maioria dos estudantes é contra). A reitora ao não ceder às pressões dos militantes que querem o companheiro de volta ao cargo público passou a ser alvo da ira dos manifestantes.
Sobre a “causa” pública da readmissão do sindicalista ativista, reproduzo frase de estudante insatisfeito com a greve: meus estudos não têm nada a ver com isso! .
Sem ser saudosista e entendendo que parte da juventude estudantil (entre os militantes não são tão jovens assim porque parcela é de estudantes “profissionais”) sempre foi e será rebelde à procura de causa, é natural que se comparem as motivações políticas de ontem e de hoje. Felizmente as de hoje são superficiais, pontuais, deslocadas. Deus nos livre voltarmos um dia a ter que lutar, aí sim, numa causa em defesa do interesse público, pela liberdade de que desfrutam hoje os próprios grevistas.
Procurar semelhança entre a ação militar da década de 70 do século passado e a presença da policia militar no campus nos dias de hoje é ignorância da história, má fé, ou simplesmente repetição mecânica de chavões e palavras de ordem que morreram na queda do Muro de Berlim. As viúvas do socialismo, estas sim, são saudosistas, paradas no tempo.
Pelo que converso e observo os jovens de hoje querem estudar, criar um futuro profissional e pessoal para si, as famílias que vão construir e pensam muito mais em coletivo, proteção ambiental e outras causas do país e da humanidade, do que os jovens de ontem que tiveram que lutar para conseguir ter o direito de se manifestar, como esses de hoje fazem, sem causa efetiva. Mas, faz parte do processo e isso deve ser entendido, mesmo que soe quase sempre fora de tom.
Não são palavras de insensibilidade para com quem possa estar sendo injustiçado ou acredite de fato que defende uma causa correta. Falta perspectiva histórica a quem brada palavras de ordem de ontem na –felizmente- ampla liberdade que dispõem hoje.. Ao contrário de milhares e milhares de jovens, entre os quais eu me encontrava ,sem liberdade e oprimidos de verdade, que tinham como causa um Brasil livre como é hoje. Portanto, não usem esse tipo de argumento nos protestos vazios da atualidade.
Mesmo com toda sujeira que contaminou nossa política, é melhor corrigir em liberdade do que ser sufocado sem saber da sujeira.
Por que os grevistas não levantam como bandeira a moralidade da vida pública e a educação dos eleitores para a vida política?
A truculência verbal e as passeatas e iras, estão mal direcionadas.
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