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 Paulo Saab, graduado em Direito pelo Largo de São Francisco(USP), jornalista especializado em rádio  e TV, colunista e editorialista do Diário do Comércio e professor universitário. Atua profissionalmente  como executivo e participa de entidades como voluntário na causa da educação e da cidadania.  Membro de conselhos, associações e organizações empresariais, educativas, nacionais e  internacionais. Palestrante, escritor.

 

Tributo a Ennio Pesce

 

Num mundo cada vez mais conturbado, de valores invertidos, celebridades instantâneas descartáveis e falta de referências, passamos por cima, diariamente, de fatos, notícias, registros, que deveriam merecer reverência, ou, ao menos, reflexão.

Neste sábado li no obituário da Folha o registro respeitoso da morte do jornalista Ennio Pesce, de infarto, aos 76 anos de idade, no último dia 12, em São Paulo.

A velocidade dos dias de hoje não é mais importante do que dar conhecimento a toda uma geração de leitores que não conheceram, não conviveram, não leram e não viram nem ouviram na televisão o talentoso Ennio Pesce.

O leitor certamente há de entender a homenagem, aquém do que a contribuição do jornalista deu à cobertura política e à ética jornalística, que ora se faz. Mas, certamente, merecida.

Meu convívio com Pesce foi quase que exclusivamente profissional. O conheci na cobertura do cotidiano político quando pela Folha de São Paulo e pela Jovem Pan dava meus primeiros passos na vida profissional num período ainda conturbado onde o Brasil apenas começava a sair do período de ausência de liberdade. Ennio já era colunista política consagrado, respeitado, nas páginas do Jornal da Tarde.

A geração ,digamos, com mais experiência de vida, deve lembrar-se de sua figura “mastroiânica”, como mencionou a Folha, pelo porte elegante, pela bela figura que lhe rendeu o apelido de “Cineasta”. Além dos jornais, Ennio foi por muitos anos comentarista político da Rede Globo, em São Paulo.

Em 1982 foi dele o prefácio de meu primeiro livro, “Contagem Regressiva”, narrando os últimos seis meses da campanha eleitoral de 1982, as primeiras livres e diretas após duas décadas de regime fechado. O reconhecido “Papa” de então do jornalismo político valorizou o trabalho do ainda iniciante repórter que ousou registrar em livro suas crônicas sobre aquela eleição.

Ennio Pesce fez parte de uma geração de jornalistas que merece respeito, não só pelo período em que esteve na ativa e nem porque hoje não existam também profissionais de peso. Mas, porque o cotidiano do mundo contemporâneo, a instantaneidade da comunicação na era da internet, e o suceder infindável dos fatos e das manchetes, impedem o refinamento, a atitude elegante, ética, destacada, que marcou sua forma de atuar, sem jamais ter aberto mão da qualidade do texto e da correta atuação profissional.

Ennio Pesce fez parte de uma geração de jornalistas de encher de orgulho quem teve o privilégio de com ela conviver e aprender. Além dele, correndo o risco de ser injusto com algum nome de relevo, cito Ricardo Sergio Mendes, Octavio Julio Silva Junior, Geraldo Campos de Oliveira, José Roberto, Roland Marinho Sierra, Jorge Henrique Reina Filho, todos de quem este colunista foi aprendiz, e ainda, o hoje desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, na flor de sua qualidade como jornalista e juiz, Aloísio de Toledo Cesar, o Paraná, ou melhor, Dr. Paraná, com todo respeito.

Ennio Pesce, como profissional, como amigo no dia a dia do trabalho, como referência de jornalismo apurado, sério e bem escrito, foi mais do que dele se pode relatar, repito, ainda mais agora, comparando, numa época em que os valores, a moralidade pública e a má qualidade da formação intelectual prevalecente, são a tônica da vida do país.