Apelo aos bons
Vivemos um momento de perplexidade na sociedade brasileira.
Neste quadro é preciso que cada cidadão, cada cidadã, de bem, voltados para o trabalho, para o cumprimento de suas obrigações, muitas vezes tendo, inclusive, seus direitos desrespeitados a partir do próprio aparato público, faça sua parte. Não esmoreça.
Se as pessoas de bem do país, contaminadas pela verdadeira farra em que se transformou a vida política, onde os poderes públicos de todos os níveis aparentam terem sido tomados de vez por pessoas absolutamente desvinculadas de qualquer compromisso com interesses que não sejam os seus, pessoais, desanimarem ou deixarem de fazer sua parte, em breve será o caos.
Sou daqueles que como São Tomé gosta de ver para crer. E o que tenho visto ao longo de trinta e oito anos de observador da cena política nacional, é que a frase atribuída a Winston Churchill continua mais presente do que nunca: o preço da liberdade é a eterna vigilância. O preço da democracia brasileira é sua sociedade vigiar permanentemente o que fazem seus políticos, governantes, magistrados, procuradores, promotores, delegados, enfim, todos os que em nome dessa sociedade detém poder para por ela trabalhar. Uma grande parte deles tem trabalhado para si mesmo, para seus grupos, longe dos verdadeiros interesses do brasileiro que os sustenta em seus salários, benefícios e garantias que a maioria da população não tem. Nem chega perto.
Constatar, neste momento, o que me leva a esse tipo de comentário; mais do que isto, de tentativa de inflar o entusiasmo do brasileiro comum, honesto, continuar a ser assim, é ocioso. As mazelas que dominam o noticiário da cena política do país são uma dose cavalar diária de desânimo, de desalento, pela desfaçatez de como os que deveriam em nome da sociedade dela tomar conta, estão destruindo suas entranhas em favor de si próprios.
Generalizar é injusto. Todavia, o silêncio dos que agem corretamente também tem contribuído para a disseminação da sensação de que todos estão com os pés na lama.
O político honesto, o governante probo, os demais membros dos poderes públicos que atuam de forma séria, dedicada, buscando atender ao interesse da população, em seu silêncio, em sua ausência de manifestação contra os que denigrem indistintamente a classe como um todo, ajudam a consolidar no brasileiro comum a constatação de que ninguém mais é sério e tudo está perdido. O que pode levá-lo também, em eventual argüição de legítima defesa, a partir para a busca de atos ilícitos, escusos.
Esta é uma chamada de resistência. Um apelo aos cidadãos para que não esmoreçam. E um desafio aos bons políticos, governantes, integrantes de qualquer escalão e nível do poder público, para que se rebelem contra os que estão conspurcando o país, desmerecendo o cargo que ocupam. Ou não existem mais os que podem ser considerados bons, de bem, do bem?
O descrédito da população é crescente. E perigoso. Pode por em risco a crença na força da democracia. Pode questionar a legitimidade da representação popular.
Caso os brasileiros (ainda) decentes se deixem contaminar e adiram ao mal geral de calhordice que assola o Brasil e, ainda, se os que estão investidos em funções públicas de relevo e agem honestamente, não se rebelarem de público contra os infratores, haverá um enfraquecimento das instituições que poderá levar, sabe-se lá como, a uma ruptura do tecido social, da normalidade institucional.
Só não vêm que está anestesiado pelo manto do poder e suas benesses.
Maria Antonieta mandou o povo comer brioches e perdeu a cabeça, literalmente, na guilhotina. Até quando as marias antonietas incrustadas no aparato público brasileiro, comendo do bom e do melhor, principalmente, o que não é seu, acham que a situação vai continuar se não a reverter drasticamente? Até quando existirão achando que os comedores de brioche, sejam de que nível for, irão seguir sustentando essa sem-vergonhice assombrosa, esse cinismo acintoso?