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 Paulo Saab, graduado em Direito pelo Largo de São Francisco(USP), jornalista especializado em rádio  e TV, colunista e editorialista do Diário do Comércio e professor universitário. Atua profissionalmente  como executivo e participa de entidades como voluntário na causa da educação e da cidadania.  Membro de conselhos, associações e organizações empresariais, educativas, nacionais e  internacionais. Palestrante, escritor.

 

Inversão de valores

 

Entre outras oportunidades, chamei a atenção em editorial publicado aqui no DC em outubro de 2007 (Indecência Generalizada) a respeito do desvirtuamento dos valores que reduz a ação cidadã dos integrantes da chamada vida pública a uma defesa de seus interesses próprios, fornecendo maus exemplos para a sociedade em geral. A partir desse tipo de comportamento comum dos que exercem cargos relevantes, perdeu-se também na própria sociedade o constrangimento para qualquer tipo de infração que vise o ganho fácil, rápido, sem risco. Ou melhor, com risco somente para o erário.

No Brasil contemporâneo espalhou-se de tal forma o conceito de que tudo é permitido que as pessoas que trabalham e levam a vida cumprindo suas obrigações, mesmo quando seus direitos são tolhidos de forma truculenta, acomodam-se no conformismo de achar que “é assim mesmo”.

Sempre combati o “jeitinho brasileiro”. Tenho dito enfaticamente que essa questão de nos orgulharmos de sermos capazes de “levar vantagem” é um tiro no pé. Se alguém leva vantagem, alguém perdeu um direito ou uma possibilidade.

 A essência da construção de um país mais justo, mais equilibrado, passa pela igualdade de todos perante a lei e pela igualdade de oportunidades.

Não deve haver diferenciação. Todo ser humano é igual e recorro à nossa Lei Maior lembrando o mencionado na abertura de que não deve haver preconceito de qualquer natureza.

Nossos governantes são os primeiros a violar essa regra básica ao instituir a discriminação, criando categorias raciais com cotas e pré-condições numa distinção de cor que desiguala os brasileiros.
Em vez de oferecer a propalada igualdade de oportunidade para todos, opta de forma eleitoralmente demagógica por criar segmentos apartados carimbando-lhes uma desigualdade de natureza que a Constituição nacional proíbe.

Não há um dia sequer que termine sem que deixe de ser noticiada uma “novidade” no campo da ousadia criminosa. O que há com o Brasil, afinal, onde não existe mais constrangimento, pudor ou ética?

O comportamento de nossa elite dirigente, ainda que parte ponderável dela possa ser de origem humilde, é a de enxergar na massa, especialmente a votante, um contingente de apoio que será perene quanto mais depender dos favores do poder público, especialmente, de programas de governo que garantem a subsistência miserável, tornando permanente o estado de dependência e pobreza.

Faço essas observações baseado em mais de trinta anos de jornalismo e contato com governantes, políticos, membros de organizações e entidades sejam de que natureza for. Na teoria todos são favoráveis à educação, mas na prática, a prioridade que se atribui ao tema é a de manutenção da situação para fins de não engajamento nem questionamento eleitoral.

Enquanto a maioria silenciosa da classe média em suas ramificações econômicas, pasma, assiste e paga a conta, sem perceber, o seu nível de discernimento, de indignação, vai se esvaindo, porquanto a repetição infinda de atos desabonadores no seu cotidiano a faz acreditar que aquilo é o normal, é o certo, para sobreviver.

Que inversão perversa de valores.