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 Paulo Saab, graduado em Direito pelo Largo de São Francisco(USP), jornalista especializado em rádio  e TV, colunista e editorialista do Diário do Comércio e professor universitário. Atua profissionalmente  como executivo e participa de entidades como voluntário na causa da educação e da cidadania.  Membro de conselhos, associações e organizações empresariais, educativas, nacionais e  internacionais. Palestrante, escritor.



Crônica das restrições argentinas

às exportações brasileiras

 

Tenho observado nos ultimo dias a noticiário econômico internacional que diz respeito ao enorme barulho que setores econômicos da argentina estão fazendo em razão de medidas restritivas de entrada de produtos daquele país no mercado brasileiro.

Como sempre passionais “los hermanos" reclamam de algo que vinham fazendo com o Brasil sem nenhum constrangimento, ao menos, que acompanhei de perto, nesta primeira década do século XXI.

Em 2004 participei de muitas, que perdi a conta, reuniões em Buenos Aires com colegas empresários argentinos, do mesmo setor em que eu atuava juntamente com representantes dos governos daquele país e aqui do nosso patropi.

Foram impostas medidas restritivas que impediam a entrada de produtos fabricados no Brasil, e criadas cotas de limitação de importações para outros. A Argentina alegava, sob a complacência omissa do governo brasileiro, que o Brasil tinha vantagens competitivas sobre a indústria local o que tornava nossa presença em seu mercado um condenação à morte da indústria argentina. Na verdade, o Brasil vinha investindo há anos no desenvolvimento de sua indústria (quando falo Brasil leia-se iniciativa privada) enquanto a Argentina, na produção, havia parado no tempo, no espaço e nas crises políticas e econômicas.

A difusão de que a restrição aos produtos brasileiros era uma forma de estimular a produção local, endossada pelo Itamaraty na época, era uma falácia. O espaço que a indústria brasileira perdeu, gerando aqui desemprego e fechamento de fábricas, foi ocupado pela importação argentina de produtos da China e Itália, entre outros.

As reuniões em Buenos Aires foram cansativas e infrutíferas. Os representantes dos empresários argentinos, em tom de gozação, nos contavam antes das reuniões começarem qual seria o resultado final. Ficavam sabendo por conta das autoridades argentinas, que apoiavam e protegiam seus empresários. Os brasileiros para saber algo tinham que correr atrás de nossas autoridades no banheiro para ver se conseguiam saber algo.

No final dava mesmo o que os argentinos previram. E o Brasil saia sempre prejudicado para ajudar los hermanos. Um altíssimo dirigente do Itamaraty, recentemente aposentado do cargo, mas em outra alta função pública, numa fantasiosa rodada de conversação realizada em solo brasileiro, na FIESP, me disse textualmente que o governo brasileiro estava preocupado em ajudar os países vizinhos e que nós (o setor que eu representava) deveríamos dar nossa cota de sacrifício aceitando as imposições vindas dos lados da Bamboneira.

Agora que, finalmente, o Brasil acordou após tantos prejuízos para nossas indústrias, e impõe, não sei porque, restrições semelhantes aos hermanos, estes chiam como se estivessem sendo vítimas e não os espertos que nos limitaram em seu mercado por quase uma década.

Gosto muito da Argentina. Respeito e admiro sua cultura, cozinha, natureza. Gosto de seu futebol, ainda mais quando o Brasil vence.
Mas conheci muito de perto o estilo de negociação. De conversação. De milonga nas reuniões, postergações, cansaços e falácias transformadas em verdade universal. Fora serem vítimas sempre de complôs.

Atuando em outro setor econômico hoje, como executivo, fico me perguntando o que terá levado o governo brasileiro a impor, finalmente, restrições às exportações argentinas.

Sou da paz e a favor do diálogo.

Mas não há quem possa me impedir, como brasileiro, de ficar olhando a situação que está aí, nas páginas econômicas dos jornais, sobre a questão das barreiras e limitações de licenças automáticas, na via inversa, de como era antes só de lá para cá.. e me sentir ,ao menos, aliviado por uma injustiça histórica de alguns anos, estar sendo reparada. “Duela a quien duela...”