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 Paulo Saab, graduado em Direito pelo Largo de São Francisco(USP), jornalista especializado em rádio  e TV, colunista e editorialista do Diário do Comércio e professor universitário. Atua profissionalmente  como executivo e participa de entidades como voluntário na causa da educação e da cidadania.  Membro de conselhos, associações e organizações empresariais, educativas, nacionais e  internacionais. Palestrante, escritor.

30/11/2009



Até no futebol?

De vez em quando cometo desatinos. Um deles é escrever sobre futebol neste espaço. Sempre é o tema que mais gera polêmica e opiniões controversas.

Vou cometer mais um e opinar sobre o que está acontecendo no futebol brasileiro, reflexo, certamente, da situação de inversão de valores que prevalece hoje em solo pátrio, com o exemplo vindo de cima e servindo de referência e justificativa para um padrão de comportamento anormal, transformado em normal pelos detentores atuais do poder.

Não estou me referindo aos resultados dos jogos. O leitor já sabe, neste momento que me lê os resultados dos jogos do domingo, especialmente entre São Paulo e Goiás e Corinthians e Flamengo, determinantes para a definição do campeão brasileiro de 2009.
Meu leitor de já quase 28 anos sabe também que sou torcedor entusiasmado do São Paulo Futebol Clube. Já menciono isto porque estou tratando de algo acima da paixão esportiva. Está acima do resultado da competição e deveria se situar na esfera da disputa sadia, da competição leal e construtiva.

O que se vê no futebol hoje é o acirramento, a incitação ao ódio, partindo de dirigentes que, supostamente, deveriam ser responsáveis, gestores e não torcedores apaixonados. Não falo especificamente do comportamento verbal e físico do presidente do Palmeiras, que se rebaixou à condição de torcedor de meio fio, nem do presidente do Corinthians que estimula também o ardor mais fervoroso de seus adeptos contra os adversários. Não  falo especificamente do presidente do São Paulo que quando –quando- se manifesta, não fala, faz declaração, num assomo desproporcional à condição de competidor esportivo. Não  menciono ninguém, porquanto, todos, estão deseducados e deseducando a massa, que por sua vez, quando não é cega em sua paixão, é inflamável em suas reações.Chamar de ignorante poderia ser ofensivo e não é minha intenção.

Também não vou citar como exemplo o lamentável desentendimento em campo entre os tricolores André Dias e Hugo, ou os alviverdes Obina e Mauricio. Brigas, xingamento, tapas, socos, entre jogadores do mesmo time.

A meu leigo ver, isso tudo é conseqüência da inversão de valores que prevalece no país e à qual tenho me referido com freqüência, por tratar-se de um exemplo perfeito e acabado de como a atuação política, a administração e a relação entre governantes, políticos e adjacentes, tem se infiltrado no comportamento de outros segmentos da sociedade brasileira.

Vale tudo. Pode tudo. Nada é irregular. O errado é certo. O certo é errado. Os fins justificam os meios. Vire-se como puder ou souber e o assunto está encerrado de cima para baixo.

Juízes de tribunais esportivos manifestam de público seu lado torcedor contra os demais competidores. Arbitragens comprometedoras. Tentativas de suborno, branco ou preto, junto aos atletas de times que podem favorecer ou prejudicar a mudança da classificação.
Apelidos e tratamentos jocosos buscando denegrir o competidor adversário.
Hoje, no futebol, de fato, vale tudo.

O coitado do torcedor que sofre de verdade por amor ao seu time, mal sabe se valeu a pena seu ardor em função de tudo que cerca um jogo e ninguém vê ,ouve ou sabe, mas influi de forma direta no resultado.

Certamente isto tudo sempre existiu porque é inerente ao ser humano. Não haveria de ser no esporte mais popular do país que deixaria de haver.

Reitero, entretanto, como tudo que tem acontecido de ruim em relação a valores e verdades no Brasil, o que é vendido como bom, na verdade é ruim. Desvincula-se a atitude, a palavra, da ação correta. É fácil falar uma besteira, mentir, exagerar e depois dizer que houve má interpretação.

Para quem é de má-fé (não vou dizer malandro porque ficaria muito forte, mesmo podendo ser verdade) declarações, ações, quanto mais se traduzirem em maus exemplos, mais exaltadas serão como se fossem bom exemplos.

O mesmo nojo que tem acometido muito brasileiro de estomago mais sensível na chamada vida pública, tem alcançado o contingente de torcedores de futebol que ainda imagina que seu esporte favorito vive na ingenuidade, onde o que importava era competir, buscar ser melhor e ganhar . Valia a beleza do espetáculo e a competição sadia, mesmo que gozativa, entre as torcidas.

Como tudo que se distorceu no país nos últimos anos, o futebol foi alcançado e se tornou uma forma a mais de acirramento da divisão de classes, cores, econômica e social, em nome justamente do contrário. E, claro, de poder e força para quem em vez de servir ao esporte e aos seus times, deles se servem já desavergonhadamente, como em tudo. Repito,outra vez.