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LIÇÕES DAS ELEIÇÕES: QUE TIPO DE POVO SOMOS?
Carlos
Chiesa - 25/10/2006
Vamos supor que as pesquisas que apontam o Presidente-candidato muito à frente
de seu adversário estejam corretas e ele efetivamente ganhe este segundo turno.
Vai-se revelar então uma tomografia computadorizada (a eleição é computadorizada,
não?) do povo brasileiro em 29.10.06. O que podemos concluir, antecipadamente,
através desse, digamos, exame preliminar? Indo diretamente para uma questão prática,
que lição você tira disso para passar para seus filhos?
1. A maioria
da população acha que honestidade é um valor ultrapassado. Não se preocupe
mais em transmitir esse valor a seus filhos. Eles serão classificados como otários
pelos colegas. Qualquer prejuízo que eles tiverem nos negócios, será culpa exclusivamente
deles, pois já foram avisados. O governo deu o exemplo. Sabe aquele adesivo "NÃO
ROUBE. O GOVERNO DETESTA CONCORRÊNCIA."? Sob essa ótica, se quer que seus filhos
se dêem bem neste país, sugira a eles entrar para a política, onde tudo que fizerem
de errado poderá ser perdoado, desde que olhem bem na cara dos interlocutores
e afirmem, com convicção, que não sabiam de nada. Na época de César, não bastava
ser honesto; era preciso parecer honesto. Hoje basta DIZER que é honesto, sem
ficar vermelho.
2. A palavra do Presidente Lula se sobrepõe à lei.
Você pensava que tinhamos nos livrado definitivamente do estilo caudilho sulamericano?
Do antiquado "pai da pátria"? Pois Lula sucedeu Brizola, o que parecia ser o último
caudilho brasileiro, sem copiar o estilo, mas pondo em prática um charme absolutamente
irresistível para as camadas menos esclarecidas da população. Basta ele dizer
que fez mais para os pobres do que qualquer outro governo que esta camada imediatamente
desvia o foco da quantidade de dinheiro que seus assessores mais próximos malversaram
e do que poderia ter sido feito para eles com essa verba. Ficam magnetizados pela
oportunidade de ver um deles no posto mais alto da República, mesmo com um patrimônio
declarado maior do que o do seu adversário. Parece que ninguém se lembrou de perguntar
como ele conseguiu amealhar cerca de R$ 800.000,00 (se não falha a memória), sendo,
sucessivamente torneiro mecânico, dirigente sindical, dirigente partidário, deputado
federal por um único mandato e Presidente da República.
3. Que profissão
sugerir a seu filho? Se você tem um filho que nasceu no Nordeste mas agora
vive em S. Paulo, as chances são maiores. Ele conseguirá se mostrar nordestino
para a população de lá, e ser agradecido a S. Paulo por todas as oportunidades
que irão surgir, podendo ficar de bem com os dois colégios eleitorais. Faça sua
inscrição o quanto antes no PT, que tenderá a ser o partido dominante e o estimule
a se candidatar a alguma coisa o mais cedo possível. Quem sabe consegue ser Presidente?
4. Por que optar pelo PT? Primeiro porque seu filho terá chance
de ser perdoado de qualquer coisa se estiver próximo à cupula. Poderá até se tornar
um aloprado por algum tempo, cumprindo o papel de fusível do supremo mandatário,
mas depois que a memória curta (curtíssima, eventualmente) do povo esquecer, poderá
se candidatar a deputado, com grande chance de ser eleito. Só não pode virar prefeito
de Diadema, a menos que goste de viver perigosamente e deixe um bom seguro de
vida.
5. Por que não se inscrever em algum partido da oposição?
Porque eles não sabem fazer oposição. Nesta eleição, tiveram a faca, o queijo,
o vinho, a toalha xadrez, o pão na mão e jogaram fora. Alckmin é um candidato
sem carisma? Está bem, mas ele é diferente. Parece diferente. Lembram-se do Lada?
Era um carro diferente e foi anunciado como um carro diferente. Milhares de brasileiros
compraram. Não estou de forma alguma comparando qualidades e defeitos do ex-governador
com as qualidades e defeitos dessa marca de carros mas simplesmente provando que
um produto diferente tem sempre chance de ser bem sucedido, ao menos por algum
tempo, se for exposto seu melhor ângulo.
Lula tem empatia com as camadas
menos esclarecidas e informadas porque fala como o vizinho de mesa de boteco.
E é assim que ele aparece sempre. Alckmin parece o melhor aluno da classe fazendo
exame oral para o professor mais exigente do curso.
Francamente, o primeiro
aluno da classe é exatamente aquele que amamos odiar.
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