Carlos Chiesa é formado em Direito pela Universidade Mackenzie e em Publicidade pela ESPM.

Atua como sócio e diretor de criação na 440V, empresa de comunicação que opera com um modelo absolutamente inovador.

Foi Presidente do Clube de Criação de S. Paulo, Vice-Presidente Executivo em agências como Leo Burnett e Publicis Salles, diretor de criação na W/Brasil.

É Conselheiro do Conar. Foi jurado em todos os festivais internacionais de prestígio e ganhou inúmeros prêmios em todos eles.

Palestrante ocasional, também tem um livro infantil publicado.

Além deste site, colabora com outro especializado em automobilismo.









O PAÍS DO SUPERFICIAL


Carlos Chiesa - 30/08/2006


Você também está achando morna a campanha presidencial? Tem toda razão. Mas a culpa é, em parte, sua. Não está havendo nenhum debate digno desse nome, em torno de idéias, de projetos. Tudo depende do carisma dos candidatos e de sua capacidade de fazer demagogia com políticas assistenciais. Têm que posar com criancinhas, têm que comer buchada de bode e prometer mundos e fundos ao eleitorado nordestino, o fiel da balança.

Fica a impressão de que reciclamos Vargas. Que, justiça seja feita, teve o mérito de criar a legislação trabalhista brasileira e dar início à nossa revolução industrial particular (ainda que tardia). Então concluimos que nossos governos federais (praticamente qualquer um deles, desde a época de Juscelino) passam raspando pelos grandes problemas nacionais - reformas política, tributária, judicial - mantendo tudo do que jeito que sempre foi.

Os eleitores não podem reclamar: não está sendo cobrado dos candidatos nenhum aprofundamento em suas propostas, em seus projetos. Ninguém está perguntando a eles se vão fazer essas reformas e, caso positivo, como pretenderiam fazer. Ficamos satisfeitos com o festival de acusações light de corrupção e nas promessas (eternas) de resolver os problemas do momento, como a segurança pública.

Tudo superficial, tudo será esquecido após a eleição. Se nós não cobramos nada mais aprofundado, porque eles deveriam se dar ao trabalho? Acertadamente, há uma campanha que pergunta o nome do deputado em quem você votou na eleição passada. Claro que está baseada em pesquisas, que demonstram o quanto nós analisamos superficialmente os candidatos que, TEORICAMENTE, deverão representar nossa vontade na condução da nação. Como não se faz a reforma política, não conseguimos desenvolver canais de pressão sobre os candidatos escolhidos e acabamos elegendo/reelegendo pessoas que não nos representam nem se sentem obrigadas a isso.

Eles fingem que nos representam, na época da eleição, e nós fingimos que acreditamos. O resultado é mensalão, sanguessuga, na categoria MÁ FÉ, e nomes de rua homenageando ilustres desconhecidos, na categoria INCOMPETÊNCIA. Junte má fé, incompetência e tolerância e encontrará as maiores doenças que assolam este país. E não é só na política. Vamos ao futebol, a única coisa em que o brasileiro é - relativamente - exigente.

Até o Papa deve saber que as diretorias da maioria dos clubes brasileiros são formadas por pessoas que querem ganhar dinheiro às custas do time do seu coração. Jogadores são comprados e vendidos pelas cifras mais estranhas que se pode imaginar e critérios idem. Má fé e/ou incompetência.

A torcida ataca a diretoria? Xinga? Apedreja? Não, isto exigiria uma análise mais profunda. Por isso são tolerados. Podem fazer o que bem entendem, até deixar estrangeiros assumirem o controle efetivo do clube. Para a torcida, é mais fácil descontar a raiva no jogador que perdeu o pênalti, mesmo que isso seja uma falha de trabalho com outra qualquer.

Ataca-se Roberto Carlos e seu meião, mas ninguém fala da falta de estratégia e táticas para enfrentar a França. Na minha modestíssima opinião, Parreira, supostamente um estudioso do futebol, simplesmente esperava, nesta copa, que os talentos do time resolvessem os problemas por si sós. Quando se tem os jogadores certos, experientes, e se conhece o modo de jogar desses talentos, a solução está em montar um esquema para anulá-los. Sabemos disso desde a época em que Pelé era caçado por todo o campo.

Por que o vôlei brasileiro ganha? Porque analisa em profundidade, porque treina para valer, porque deixa o mínimo possível ao acaso. Porque tira o máximo que pode de todos os talentos à sua disposição. Porque vai fundo. Por que Paulo Coelho faz sucesso? Porque escreve simples, de modo acessível, ao alcance de qualquer pessoa que tenha uma cultura meramente superficial.

Por que a Coréia do Sul, minúscula em comparação com nossa extensão territorial, saiu da rabeira e nos ultrapassou com muitos corpos de vantagem na corrida do crescimento? Porque analisou a fundo a competição, num mundo cada vez mais globalizado, formulou um plano de ação e vem tratando de cumpri-lo.

Estamos em 2006, China e Índia, países com problemas estruturais ainda maiores do que os nossos disparam à nossa frente na corrida do crescimento, ainda que potencialmente sejamos mais competitivos. Do jeito que está indo a eleição, vamos dar a eles mais 4 anos de vantagem. E já tivemos, reconhecidamente, uma década perdida.

Vamos continuar enredados nessa politiquinha nacional, e no plano internacional, com a fabulosa possibilidade de ter o nosso líder reconhecido como o estadista que fala pela América do Sul. Mas ninguém se importa, o que interessa é que a seleção - de futebol, o resto não interessa - vença a próxima Copa.

E assim vamos emparelhando com o Haiti.


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