| GESTÃO
LULA: E SE TIVESSE SIDO O CONTRÁRIO?
Carlos
Chiesa - 02/10/2006
Pergunta do Perguntador-geral da República, na ressaca da eleição: Como os institutos
de pesquisa explicam os resultados que não condiziam com seus números? Peço no
mínimo que justifiquem como o candidato Afif chegou tão perto do franco favorito
Suplicy ao Senado.
Vamos recapitular tudo que ocorreu na área policial
envolvendo o governo Lula e o PT:
1. O assassinato do Prefeito Celso Daniel
e, sucessivamente, diversas testemunhas, o que torna ilógica a versão de crime
comum;
2. O assassinato do Prefeito Toninho do PT;
3. O envolvimento
do capitão do time, José Dirceu, e outras estrelas vermelhas de primeira grandeza
no chamado escândalo do mensalão;
4. Os tais dólares na cueca;
5.
A dívida lulista paga por Okamoto-san do seu próprio bolso;
6. Os folhetos
pagos por Gushiken-san, na qualidade de autoridade governamental, mas distribuidos
pelo PT, os quais ainda não se sabe se de fato existiram;
7. Enriquecimento
vertiginoso do filho do Presidente, em função para a qual não se suspeitava tivesse
habilitação;
8. Escândalo das ambulâncias;
9. Escândalo "dossiêgate".
Adicionemos a isso mais três ações - no mínimo polêmicas - cujos propósitos até
hoje não foram suficientemente esclarecidos:
1. Tentativa de estabelecer
regras e direcionamentos à imprensa;
2. Tentativa de desarmamento da população,
sob a desculpa de diminuir a violência (e instaurar a paz), razão que ficou tecnicamente
esvaziada;
3. Viagem do ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu à
Bolívia, para conferenciar com o recém-eleito Presidente Evo Morales, em jato
particular, às vésperas deste tomar as instalações da Petrobrás e do empresário
brasileiro Eike Batista.
Agora mais uma pergunta:
O que
o PT faria se isso tivesse ocorrido com um governo do PSDB?
Leio editorialistas,
colunistas, articulistas da grande imprensa analisarem o resultado destas eleições.
Alguns verbalizam que o Presidente Lula é de esquerda e o ex-governador Alckmin
é de direita. Logicamente, as pessoas que se acreditam sinceramente de esquerda
(exceto os do PSOL) tenderão a votar e fazer campanha para a reeleição, por mera
rejeição ao candidato oposicionista.
Todos soubemos de declarações do
Ministro-cantor-compositor Gil, do compositor- cantor-escritor Chico Buarque,
do compositor-músico Wagner Tiso e do ator Paulo Betti a respeito desses problemas
policiais, na defesa de um projeto supostamente de esquerda capitaneado por Lula.
Francamente, não penso que a massa de eleitores que colocou Alckmin no segundo
turno pense tão politizadamente assim.
Depois que Olavo Setúbal disse
que, entre Lula e Alckmin, para ele tanto fazia (e os crescentes lucros de seu
setor fornecem lógica), me parece bastante difícil acreditar que o governo Lula
teve e terá um projeto de esquerda. Toda essa política assistencialista cuja bandeira-mór
é o Bolsa-família, me parece reciclagem de métodos vargasianos ou peronistas.
Variantes da entrega de panos vermelhos e espelhos que os portugueses
fizeram aos índios. Ou, numa versão mais bíblica, forneceram o peixe, esquecendo-se
de ensinar e estimular a pescar. Não posso concordar que se ignorem, que se relevem,
que se desculpem, que se justifiquem crimes e atitudes nefastas como os relacionados
acima, em prol de uma causa como essa, que deixa os banqueiros mais ricos e os
pobres artificialmente um tostão menos pobres.
Para fazer isso, aliaram-se
até a adversários históricos e anteriormente abominados, como Newton Cardoso.
Onde ficaram os valores defendidos tão arduamente pelo PT? Os valores que atrairam
e motivaram, tantas vezes, uma invejável militância? Onde fica a bandeira de único
partido composto por políticos que jamais fariam concessões? Que, de tão puros,
jamais se meteriam em falcatruas fisiológicas? Numa palavra: qual é o projeto
do PT hoje, depois de ter finalmente conquistado o direito de usar a faca, o queijo,
o vinho, a mesa, a toalha xadrez, por quatro anos, e se comportado tão ao contrário
do que se esperava? Penso que sumiu, assim como a cor vermelha da campanha presidencial.
Coisa impensável, quatro anos atrás.
Do meu ponto de vista pessoal, nenhuma
causa se sobrepõe à lei. Se o contrário prevalecer, a lógica de que tudo pode
ser perdoado desde que esteja a serviço de uma causa política, especialmente se
essa causa for a das pessoas que estão no poder, será melhor instaurar o bangue-bangue
de uma vez. Cada um que carregue sua arma na cintura e atire primeiro para perguntar
depois: se estiver a serviço "da causa", será perdoado.
Duvido e muito
de que essa massa de eleitores estivesse pensando no aspecto político, quando
se mexeu e colocou um oponente a Lula no segundo turno. Penso que ela estava sendo
coerente com princípios e valores ainda respeitados pela classe média (a que pagou
o pato nestes 4 anos), como honestidade, respeito à palavra e à inteligência.
Aceitar, pura e simplesmente, a palavra do Presidente como verdade absoluta, quando
é óbvio que ele seria o maior beneficiado desses atos ilícitos ou escusos, é dar
a ele um cheque em branco, um aval que nenhum ser humano merece.
Penso
que esse é o recado que precisa ser entendido: como poderemos encarar nossos filhos
e netos, se votarmos no Lula e depois ficar comprovado que ele sabia, sim? Como
poderemos dizer a eles que valem a pena todos os sacrifícios para ser honesto,
íntegro, respeitador da lei e da ética?
Neste país?
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