Carlos Chiesa é formado em Direito pela Universidade Mackenzie e em Publicidade pela ESPM.

Atua como sócio e diretor de criação na 440V, empresa de comunicação que opera com um modelo absolutamente inovador.

Foi Presidente do Clube de Criação de S. Paulo, Vice-Presidente Executivo em agências como Leo Burnett e Publicis Salles, diretor de criação na W/Brasil.

É Conselheiro do Conar. Foi jurado em todos os festivais internacionais de prestígio e ganhou inúmeros prêmios em todos eles.

Palestrante ocasional, também tem um livro infantil publicado.

Além deste site, colabora com outro especializado em automobilismo.









GESTÃO LULA: E SE TIVESSE SIDO O CONTRÁRIO?


Carlos Chiesa - 02/10/2006


Pergunta do Perguntador-geral da República, na ressaca da eleição: Como os institutos de pesquisa explicam os resultados que não condiziam com seus números? Peço no mínimo que justifiquem como o candidato Afif chegou tão perto do franco favorito Suplicy ao Senado.

Vamos recapitular tudo que ocorreu na área policial envolvendo o governo Lula e o PT:

1. O assassinato do Prefeito Celso Daniel e, sucessivamente, diversas testemunhas, o que torna ilógica a versão de crime comum;

2. O assassinato do Prefeito Toninho do PT;

3. O envolvimento do capitão do time, José Dirceu, e outras estrelas vermelhas de primeira grandeza no chamado escândalo do mensalão;

4. Os tais dólares na cueca;

5. A dívida lulista paga por Okamoto-san do seu próprio bolso;

6. Os folhetos pagos por Gushiken-san, na qualidade de autoridade governamental, mas distribuidos pelo PT, os quais ainda não se sabe se de fato existiram;

7. Enriquecimento vertiginoso do filho do Presidente, em função para a qual não se suspeitava tivesse habilitação;

8. Escândalo das ambulâncias;

9. Escândalo "dossiêgate". Adicionemos a isso mais três ações - no mínimo polêmicas - cujos propósitos até hoje não foram suficientemente esclarecidos:

1. Tentativa de estabelecer regras e direcionamentos à imprensa;

2. Tentativa de desarmamento da população, sob a desculpa de diminuir a violência (e instaurar a paz), razão que ficou tecnicamente esvaziada;

3. Viagem do ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu à Bolívia, para conferenciar com o recém-eleito Presidente Evo Morales, em jato particular, às vésperas deste tomar as instalações da Petrobrás e do empresário brasileiro Eike Batista.

Agora mais uma pergunta:

O que o PT faria se isso tivesse ocorrido com um governo do PSDB?

Leio editorialistas, colunistas, articulistas da grande imprensa analisarem o resultado destas eleições. Alguns verbalizam que o Presidente Lula é de esquerda e o ex-governador Alckmin é de direita. Logicamente, as pessoas que se acreditam sinceramente de esquerda (exceto os do PSOL) tenderão a votar e fazer campanha para a reeleição, por mera rejeição ao candidato oposicionista.

Todos soubemos de declarações do Ministro-cantor-compositor Gil, do compositor- cantor-escritor Chico Buarque, do compositor-músico Wagner Tiso e do ator Paulo Betti a respeito desses problemas policiais, na defesa de um projeto supostamente de esquerda capitaneado por Lula. Francamente, não penso que a massa de eleitores que colocou Alckmin no segundo turno pense tão politizadamente assim.

Depois que Olavo Setúbal disse que, entre Lula e Alckmin, para ele tanto fazia (e os crescentes lucros de seu setor fornecem lógica), me parece bastante difícil acreditar que o governo Lula teve e terá um projeto de esquerda. Toda essa política assistencialista cuja bandeira-mór é o Bolsa-família, me parece reciclagem de métodos vargasianos ou peronistas.

Variantes da entrega de panos vermelhos e espelhos que os portugueses fizeram aos índios. Ou, numa versão mais bíblica, forneceram o peixe, esquecendo-se de ensinar e estimular a pescar. Não posso concordar que se ignorem, que se relevem, que se desculpem, que se justifiquem crimes e atitudes nefastas como os relacionados acima, em prol de uma causa como essa, que deixa os banqueiros mais ricos e os pobres artificialmente um tostão menos pobres.

Para fazer isso, aliaram-se até a adversários históricos e anteriormente abominados, como Newton Cardoso. Onde ficaram os valores defendidos tão arduamente pelo PT? Os valores que atrairam e motivaram, tantas vezes, uma invejável militância? Onde fica a bandeira de único partido composto por políticos que jamais fariam concessões? Que, de tão puros, jamais se meteriam em falcatruas fisiológicas? Numa palavra: qual é o projeto do PT hoje, depois de ter finalmente conquistado o direito de usar a faca, o queijo, o vinho, a mesa, a toalha xadrez, por quatro anos, e se comportado tão ao contrário do que se esperava? Penso que sumiu, assim como a cor vermelha da campanha presidencial. Coisa impensável, quatro anos atrás.

Do meu ponto de vista pessoal, nenhuma causa se sobrepõe à lei. Se o contrário prevalecer, a lógica de que tudo pode ser perdoado desde que esteja a serviço de uma causa política, especialmente se essa causa for a das pessoas que estão no poder, será melhor instaurar o bangue-bangue de uma vez. Cada um que carregue sua arma na cintura e atire primeiro para perguntar depois: se estiver a serviço "da causa", será perdoado.

Duvido e muito de que essa massa de eleitores estivesse pensando no aspecto político, quando se mexeu e colocou um oponente a Lula no segundo turno. Penso que ela estava sendo coerente com princípios e valores ainda respeitados pela classe média (a que pagou o pato nestes 4 anos), como honestidade, respeito à palavra e à inteligência. Aceitar, pura e simplesmente, a palavra do Presidente como verdade absoluta, quando é óbvio que ele seria o maior beneficiado desses atos ilícitos ou escusos, é dar a ele um cheque em branco, um aval que nenhum ser humano merece.

Penso que esse é o recado que precisa ser entendido: como poderemos encarar nossos filhos e netos, se votarmos no Lula e depois ficar comprovado que ele sabia, sim? Como poderemos dizer a eles que valem a pena todos os sacrifícios para ser honesto, íntegro, respeitador da lei e da ética?

Neste país?


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