| CONHECENDO
OS EUA ATRAVÉS DOS FILMES
Carlos
Chiesa - 16/08/2006
Gosto muito de cinema e penso que podemos aprender muito sobre os países onde
os filmes são feitos, como exemplos de suas histórias e culturas. Como os Estados
Unidos, através de Hollywood, tem uma produção com características incomparáveis,
torna-se fácil coletar dados sobre sua história, independente do objetivo do filme.
Vamos começar com O Álamo, sobre momento marcante na história dos Estados
Unidos. Tem uma famosa versão da década de 50, ou início da de 60, produzida e
dirigida por John Wayne, que não tem muito rigor histórico, algumas cenas foram
criadas somente para gerar empatia com o público americano. Segundo um documentário
sobre o assunto, John Wayne bancou toda a produção e arriscou-se a ir à falência,
caso o filme não desse retorno.
Recentemente foi feita uma versão mais
fiel à história, com o excelente ator Dennis Quaid no papel de Sam Houston, bem
como esse documentário que aponta as distorções históricas de John Wayne. O resumo,
depreendido dos dois filmes, é o seguinte: Sam Houston, o chefe máximo das tropas
americanas/texanas, deliberadamente deixou os ocupantes do Álamo à sua sorte,
um punhado de homens, mulheres e crianças cercados por um exército. Sant'Anna
esperou até onde pode a vinda de Houston, porque seu objetivo principal era derrotá-lo,
confiante na superioridade de seu exército regular.
Deixou deliberadamente
áreas livres no cerco que permitiriam a chegada de reforços, liberou quem quisesse
para sair - mulheres e crianças foram embora - e depois atacou o Álamo, matando
todos os ocupantes. Por que Houston não socorreu aquele punhado de vidas americanas?
A razão mais visível era que ele sabia que seu exército - irregular, insuficientemente
armado e treinado - não seria páreo para o mexicano num embate frontal. No entanto,
não eram poucos os subordinados que clamavam por socorrer os sitiados, a começar
pelo Capitão Seguín, mexicano anti-Sant'Anna, cujo papel a história do Texas nem
sempre recorda, segundo o documentário.
Espertamente, Houston fugiu desse
combate mano-a-mano até que Sant'Anna, excessivamente auto-confiante, cheio de
desprezo por aquele "fujão", caiu na armadilha. Com apenas 700 soldados à sua
volta, o grosso do exército longe, foi apanhado de surpresa e, para salvar a vida,
entregou o Texas. As tropas americanas, insufladas pelo grito "Remember the Alamo",
se impuseram frente às tropas mexicanas acampadas.
Claro, nesse momento,
todos os americanos sabiam que os resistentes do Alamo tinham sido massacrados.
Agora vem o mais interessante: o sacrifício dessas vidas americanas (estou usando
sempre esse termo porque ele é recorrente até hoje) foi totalmente atribuido a
um supostamente desalmado chefe mexicano, e o Alamo tornou-se um símbolo de como
os americanos podem ser vítimas de estrangeiros e como têm o direito de se vingar.
Fica sempre em segundo plano que os resistentes tiveram a opção de ir
embora em paz, e que suas mulheres e crianças puderam sair sem serem molestadas.
Ninguém comenta que os ocupantes do Álamo esperavam ajuda e não tiveram; foram
abandonados à própria sorte por seus compatriotas. Nem se comenta que Sant'Anna
não podia mais recuar, já que tinha cercado o local e esperado por um bom tempo
(não estou discutindo o modo de fazer, nem o heroísmo dos ocupantes do Alamo,
que fique claro).
Se ele não atacasse, suas tropas começariam a duvidar
de sua valentia, de sua competência. Corte para qualquer filme de faroeste que
você goste. Notou como vingança é um tema recorrente? É sempre alguém que teve
a mulher, o filho ou o velho parceiro assassinado, ou alguém que foi preso injustamente
etc. etc.. Variantes sobre o mesmo tema. Mude para filmes policiais e vai encontrar
sempre o policial que massacra os assassinos de seu colega no final do filme.
Mesmo que tenha que infringir a lei.
Lembra daquela série "Desejo de matar",
com Charles Bronson no papel de um homem contemporâneo, arquiteto, que se transforma
em justiceiro nas horas vagas? Agora vamos assistir a Pearl Harbor. O Dia da Infâmia.
Aqueles traiçoeiros japoneses atacam sem aviso (a declaração de guerra foi entregue
com atraso, devido ao lento trabalho de decodificação) e os americanos foram pegos
totalmente de surpresa. Totalmente?
Há controvérsias. Existe ao menos
um documentário na TV por assinatura, que investiga a possibilidade de o presidente
Franklin Delano Roosevelt ter sabido com antecedência e ficado na moita. Claro
que há historiadores, autoridades, com depoimentos contra e a favor. Fatos: os
porta-aviões americanos (o alvo principal) não estavam em Pearl Harbor; os americanos
já tinham decifrado o código naval japonês (ao menos boa parte dele); os aviões
japoneses apareceram na tela do radar; as sanções econômicas que os americanos
impuseram ao Japão, para limitar seu crescimento na região, equivaliam praticamente
a uma declaração de guerra; FDR já vinha ajudando a Inglaterra como podia, tomando
um partido não oficial contra o Eixo, formado por Alemanha, Itália e Japão.
Ou
seja, novamente ocorreu um Alamo. Vidas americanas foram perdidas por um ataque
de estrangeiros. Por causa desse Alamo, a opinião pública americana mudou de idéia
e apoiou a entrada para valer na 2a. Guerra, não só como financiadores, provedores
de material bélico, mas com armas, soldados e bagagens.
Agora vamos a
documentários, visíveis na TV por assinatura, que cobrem o período intermediário
entre esses dois Alamos. Você ouviu falar da guerra hispano-americana? Curiosamente,
nunca vi um filme de longa-metragem abordando o assunto. Mas, assista a O vento
e o leão, com Sean Connery e Candice Bergen, e você tomará conhecimento da personalidade
agressiva do presidente Theodore Roosevelt, o homem que, num arroubo, disse "-
Eu tomei o Panamá". Estava explicando como tinha construido o canal do mesmo nome.
Até onde se sabe, mediante acordo pacífico.
O símbolo de seu governo era
um urso em pé, em posição de ataque. Bem, segundo o documentário sobre o afundamento
do Maine, um navio de guerra americano, havia um clima de belicosidade entre Espanha
e Estados Unidos, anos antes da Primeira Guerra. Contrariando a opinião do serviço
diplomático americano, Teddy Roosevelt decidiu enviar o Maine em visita de cortesia
a Cuba, então uma colônia espanhola.
Estranhamente, o navio explode e
afunda, mesmo estando atracado ao porto, sob vigilância da tripulação. Imediatamente
o governo americano acusa o governo espanhol, atribuindo o afundamento ao emprego
de minas. Um ataque traiçoeiro. Um perito naval americano é convocado ao local
e, após exame técnico, afirma que nenhuma mina poderia ter causado esse estrago.
Consta que o perito foi chamado às pressas de volta e o governo americano continuou
insistindo na tese das minas, até que a guerra foi declarada. Desconheço os detalhes,
mas pelo que entendi, não só Cuba passou para a esfera de influência americana,
como Porto Rico e as Filipinas também, como indenização, já que a Espanha militarmente
não era páreo para os Estados Unidos e perdeu. Sabe por que os Estados Unidos
entraram na Primeira Guerra, ao lado da Inglaterra? Porque um submarino alemão
afundou um navio de passageiros chamado Lusitania, com perda de vidas americanas.
Novamente, assistindo a documentário, fico sabendo que os alemães tinham informacões
de que os Estados Unidos estavam enviando - clandestinamente - armas e munições
para a Inglaterra nos porões de navios de passageiros. Logicamente, o almirantado
alemão tinha que tomar providências para que sua rival britânica não se fortalecesse,
driblando as leis da guerra (sim, na época elas tinham valor, tais como as palavras
honra, cavalheirismo etc.).
Então enviou aviso pelos canais diplomáticos,
informando que a partir da data tal, na zona compreendida entre tais e tais latitudes
e longitudes, seus submarinos iriam afundar qualquer navio, incluindo os de passageiros.
E o que ocorre com o Lusitania? Entrando nessa área, ele recebe ordem para diminuir
a velocidade. Até hoje não foi comprovado se foi de propósito, mas o fato é que
as fotos dos destroços que foram dar na praia insuflaram a opinião pública, o
ataque foi classificado como traiçoeiro, e os Estados Unidos entraram na guerra
ao lado de Inglaterra e França.
Vou repetir aqui que não sou jornalista,
nem historiador, apenas uma pessoa que se interessa por cinema e história. Mas,
quando ouço falar de árabes perpetrando ataques terroristas, sem que provas conclusivas
sejam apresentadas; quando ouço falar que o Iraque tem armas químicas que ameaçam
os Estados Unidos, sem que estas sejam apresentadas, fico com um grande ponto
de interrogação dominando meus pensamentos.
Ou será que esses traços-de-união
que aparecem nos filmes foram coincidências?
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