|
Três
pesos, duas medidas...
Marco
Antônio Eid - 13.08.07
Guillermo Rigondeaux, peso-galo, bicampeão
olímpico de boxe; Erislandy Lara, peso-welter,
campeão do mundo de boxe; Juan Carlos Ramirez
Abadia, peso-pesado do crime organizado, um dos
"campeões" do tráfico internacional
de drogas. Como se vê, nada há em comum
entre os dois atletas cubanos e o bandido colombiano,
a não ser o fato de os três estarem
detidos. Os dois primeiros, numa "casa especial",
em Cuba, onde o comandante Fidel Castro já
decretou sua sentença sumária: não
irão mais lutar boxe, mas terão emprego
digno; o segundo, numa cadeia de segurança
máxima no Brasil, ao custo de cinco mil reais
mensais para os contribuintes.
Ah, sim, existe mais uma congruência na história
dessas três vidas: seu destino próximo
teve total interferência da polícia
brasileira. Conforme divulgou amplamente a mídia,
os dois boxeadores foram presos na Região
dos Lagos, no Estado do Rio de Janeiro, após
desaparecerem da Vila Pan-americana, onde não
se apresentaram par as competições;
o marginal foi detido em sua casa de luxo em Aldeia
da Serra, na Grande São Paulo.
As coincidências terminam aí, pois
a deportação (ou "repatriação",
segundo o Ministério das Relações
Exteriores) dos cubanos, decidida de modo abrupto
e estranho, contrariou normas internacionais relativas
ao processo de asilo político e as tradições
da diplomacia brasileira, que nem mesmo os militares
de 64 ousaram infringir; para o traficante, as prerrogativas
da lei. Ficará no Brasil, sob a proteção
de nossas forças de segurança e legislação,
aguardando o rigoroso cumprimento de todos os ritos
jurídicos rotineiros nesses casos.
Está corretíssima a postura quanto
ao megatraficante, pois nem mesmo bandidos devem
ser ignorados pelas normas da Justiça. Porém,
está absolutamente errada a atitude das autoridades
brasileiras com relação aos boxeadores
cubanos. Este é um caso muito nebuloso e
mal explicado. É inadmissível que
um país com democracia consolidada e signatário
dos principais tratados e acordos internacionais
aja de modo tão primariamente truculento
como ocorreu nesse episódio da prisão
e "retorno" dos cubanos à sua pátria.
Por enquanto, é uma ofensa à inteligência
dos cidadãos, daqui e de todo o mundo, a
admissão dos atletas de que não queriam
desertar ou de terem se arrependido da atitude.
Da mesma forma, é incompreensível,
pois fere a lógica e até mesmo a hierarquia
das instituições, que a Polícia
Federal tenha decidido com autonomia mandar os estrangeiros
embora, sem consultar o Ministério da Justiça
e sem que este envolvesse o Ministério das
Relações Exteriores no caso.
Teria um delegado federal tantos poderes, a ponto
de decidir uma deportação/repatriação
e negociar com autoridades cubanas o transporte
em avião fretado (quem pagou?), ao léu
dos tratados internacionais e à revelia do
governo, da lei e da tradição diplomática
nacional? Claro que não! Ou seja, a sociedade
aguarda explicações e a assunção
de responsabilidades por quem de direito.
A questão é muito grave. Em toda
a história de nossa República, a atitude
com relação aos atletas cubanos parece
encontrar similaridade apenas na covarde entrega
de Olga Benário Prestes aos carrascos nazistas,
pela ditadura Vargas. Resta-nos, como cidadãos,
exigir esclarecimentos e o monitoramento perene
de como será a vida de Guillermo Rigondeaux
e Erislandy Lara em Cuba, pois somos responsáveis
por eles!
Mais do que um direito, é o mínimo
que precisamos, acima de ideologias, para manter
a crença no Estado definido por Aristóteles
como a forma mais bem elaborada de associação
humana, à medida que vise ao bem-estar e
à organização ética
da sociedade.
Talvez, nem mesmo o velho Marx entendesse a atrapalhada
atitude das autoridades brasileiras, às quais
bem caberia, neste momento, aquela sua primorosa
frase: "A relação entre a liberdade
subjetiva do indivíduo e a universalidade
do Estado não é conflituosa".
Políticos de meu país, se os camaradas
soviéticos e cubanos traíram os versos
de Jose Marti, a coragem de tantas Olgas e os ideais
de nossa juventude, por favor, não suscitem
na nossa maturidade quaisquer dúvidas sobre
a pertinência da democracia!
|