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Lições
do corrupião
Mais um fim de semana de violência de torcidas,
desta feita envolvendo a do Palmeiras, sábado,
9 de junho, no jogo contra o Botafogo carioca. Recorro
à linguagem literária da crônica
para externar o repúdio a tal comportamento
e reforçar o conceito de que o futebol também
deve ser exemplo de exercício do civismo
e da boa convivência entre as pessoas. Era
uma vez....
...Há cerca de um ano, aquela vizinhança
na Vila Madalena, em São Paulo, acorda ao
som do Hino do Palmeiras. O inusitado é que
o intérprete não é um dos antigos
oriundis do bairro, da estirpe que desce a Pompéia,
a pé, em direção ao "Palestra
Itália", para assistir aos fraldinhas,
aos juniores e até à saga dos profissionais
na segunda divisão (pano, rápido...).
O cantor é um corrupião, passarinho
bonito, bom pulmão, bico afiado e coração
verde, como o do dono, o velho Conazeta, em cuja
nova pátria, o Jardim Suspenso de Parque
Antárctica, acalenta a saudade da infância
napolitana, "inclusive nos dias em que alguns
atletas torturam o balão com suas canelas
duras".
É um relógio o pássaro cantor.
Às dez pra seis da madrugada, sem falha,
com chuva, calor, frio ou derrota no domingo, "surge
o Alviverde imponente" na atmosfera boêmia
da Vila. Só a melodia, porque a letra ele
ainda não aprendeu. Aliás, isto não
é demérito algum, pois acontece com
nove entre dez palmeirenses, dada a complexidade
métrica, semântica, gramatical e épica
daquele magnífico poema.
Remanescentes das noites nos bares e baladas param
para ouvir. Formam-se até grupos de torcedores.
De um lado, palestrinos, alegros, ma non tropo,
gritam o tradicional "dá-lhe, porco".
Corintianos, santistas e são-paulinos, numa
estranha reação química etílico-clubística,
retrucam: "Timinho, timinho". E todos
comemoram a alegria que o encanto do futebol consegue
proporcionar aos espíritos serenos. Os vizinhos
palmeirenses, claro, amam o corrupião. Os
aficionados de outros times até gostam dele,
embora não admitam.
Nesta segunda-feira, perdi hora. O Hino do Verdão
não enfeitou a madrugada. Acordei preocupado.
Minha doce filha quase não entra na escola.
E tinha prova de matemática na primeira aula!
Na saída para o trabalho, não resisti.
Fui à casa vizinha, onde vivia o passarinho,
que jamais conheceu gaiola. Ao contrário
do assum preto do antológico Luiz Gonzaga,
cantava porque era livre, feliz e palmeirense. O
ambiente, porém, era tristeza só.
O cantor fora sumariamente apenado, depenado e devorado.
Como tantos neste país, pagou caro por suas
convicções.
O autor do crime foi um gato que acabara de chegar
a uma loja de animais do bairro. Nem um dia ficou
na vitrina. Foi comprado rapidamente por um dos
vizinhos, um tipo que nem de futebol gosta, não
tem namorada, mulher, filhos, bons amigos e time
e, na hora de jogo da seleção, assiste
àqueles documentários sobre o hábito
noturno dos répteis do período jurássico.
Os palmeirenses, corintianos, santistas e são-paulinos,
unidos na indignação, não têm
dúvidas de que foi intenção
premeditada, não do felino, mas de seu proprietário.
O corrupião virou saudade, mas sua história
e inglória despedida são legados plenos
de lições. Primeira: jamais nos deixemos
usar, como ocorreu com o gato, por criaturas mal-intencionadas;
segunda: as distinções de time, religião,
partido, raça, cor, gênero e ideologia
nunca devem separar as pessoas de boa vontade, pois
o mal não está nas diferenças.
E a terceira - e mais importante - é a
de que podemos ser felizes!
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