Marco Antônio Eid é jornalista e executivo da área de comunicação. Diretor de Operações da Ricardo Viveiros & Associados - Oficina de Comunicação, é palestrante e ministra curso na Aberje (Associação Brasileira de Comunicação Empresarial). É autor do livro "Entre o poder e a mídia" (Editora M. Books). Foi diretor de Redação da Coordenadoria de Imprensa do Governo do Estado de São Paulo e editor nas rádios Bandeirantes e Record, bem como de revistas técnicas e de economia.












  



Lições do corrupião

 

Mais um fim de semana de violência de torcidas, desta feita envolvendo a do Palmeiras, sábado, 9 de junho, no jogo contra o Botafogo carioca. Recorro à linguagem literária da crônica para externar o repúdio a tal comportamento e reforçar o conceito de que o futebol também deve ser exemplo de exercício do civismo e da boa convivência entre as pessoas. Era uma vez....

...Há cerca de um ano, aquela vizinhança na Vila Madalena, em São Paulo, acorda ao som do Hino do Palmeiras. O inusitado é que o intérprete não é um dos antigos oriundis do bairro, da estirpe que desce a Pompéia, a pé, em direção ao "Palestra Itália", para assistir aos fraldinhas, aos juniores e até à saga dos profissionais na segunda divisão (pano, rápido...). O cantor é um corrupião, passarinho bonito, bom pulmão, bico afiado e coração verde, como o do dono, o velho Conazeta, em cuja nova pátria, o Jardim Suspenso de Parque Antárctica, acalenta a saudade da infância napolitana, "inclusive nos dias em que alguns atletas torturam o balão com suas canelas duras".

É um relógio o pássaro cantor. Às dez pra seis da madrugada, sem falha, com chuva, calor, frio ou derrota no domingo, "surge o Alviverde imponente" na atmosfera boêmia da Vila. Só a melodia, porque a letra ele ainda não aprendeu. Aliás, isto não é demérito algum, pois acontece com nove entre dez palmeirenses, dada a complexidade métrica, semântica, gramatical e épica daquele magnífico poema.

Remanescentes das noites nos bares e baladas param para ouvir. Formam-se até grupos de torcedores. De um lado, palestrinos, alegros, ma non tropo, gritam o tradicional "dá-lhe, porco". Corintianos, santistas e são-paulinos, numa estranha reação química etílico-clubística, retrucam: "Timinho, timinho". E todos comemoram a alegria que o encanto do futebol consegue proporcionar aos espíritos serenos. Os vizinhos palmeirenses, claro, amam o corrupião. Os aficionados de outros times até gostam dele, embora não admitam.

Nesta segunda-feira, perdi hora. O Hino do Verdão não enfeitou a madrugada. Acordei preocupado. Minha doce filha quase não entra na escola. E tinha prova de matemática na primeira aula! Na saída para o trabalho, não resisti. Fui à casa vizinha, onde vivia o passarinho, que jamais conheceu gaiola. Ao contrário do assum preto do antológico Luiz Gonzaga, cantava porque era livre, feliz e palmeirense. O ambiente, porém, era tristeza só. O cantor fora sumariamente apenado, depenado e devorado. Como tantos neste país, pagou caro por suas convicções.

O autor do crime foi um gato que acabara de chegar a uma loja de animais do bairro. Nem um dia ficou na vitrina. Foi comprado rapidamente por um dos vizinhos, um tipo que nem de futebol gosta, não tem namorada, mulher, filhos, bons amigos e time e, na hora de jogo da seleção, assiste àqueles documentários sobre o hábito noturno dos répteis do período jurássico. Os palmeirenses, corintianos, santistas e são-paulinos, unidos na indignação, não têm dúvidas de que foi intenção premeditada, não do felino, mas de seu proprietário.

O corrupião virou saudade, mas sua história e inglória despedida são legados plenos de lições. Primeira: jamais nos deixemos usar, como ocorreu com o gato, por criaturas mal-intencionadas; segunda: as distinções de time, religião, partido, raça, cor, gênero e ideologia nunca devem separar as pessoas de boa vontade, pois o mal não está nas diferenças.

E a terceira - e mais importante - é a de que podemos ser felizes!


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