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Quem paga
o pato dos
ruídos na comunicação?
O competente e premiado publicitário paulistano
Ruy Marum enviou-me interessante texto, de autoria,
creio, desconhecida, que revela insólito
diálogo de um homônimo seu, o antológico
Barbosa, e um ladrão que tentava furtar patos
no quintal da casa do emérito brasileiro.
Na história, provavelmente uma ficção,
Rui Barbosa surpreendeu o gatuno e lhe disse: "Oh,
bucéfalo anácrono! Não o interpelo
pelo valor intrínseco dos bípedes
palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro
de profanares o recôndito da minha habitação,
levando meus ovíparos à sorrelfa e
à socapa. Se fazes isso
por necessidade, transijo; mas se é para
zombares da minha elevada
prosopopéia de cidadão digno e honrado,
dar-te-ei com minha bengala
fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e
o farei com tal ímpeto que te
reduzirei à qüinquagésima potência
que o vulgo denomina nada". O ladrão,
confuso, apenas perguntou: "Dotô, eu
levo ou deixo os pato?"
Bom humor à parte, a divertida narrativa
ilustra muito bem o quanto os ruídos na comunicação
podem ser nocivos. Ao lê-la, foi inevitável
estabelecer analogia com as recentes acusações
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à
mídia e aos brasileiros, aos quais imputou
culpa, respectivamente, pela divulgação
apenas de más notícias e por macular
o nome do País no exterior.
Sem entrar no mérito da liberdade de pensamento
e expressão, que garante à imprensa
e aos cidadãos a plena e legítima
prerrogativa de externar seus sentimentos e percepção
da conjuntura política e socioeconômica,
um fato é incontestável: com todo
o respeito que merece por sua trajetória
como líder sindical, fundador de um partido
político, parlamentar e presidente da República,
incluindo ações positivas em sua administração,
Lula deixou de considerar algo fundamental nas críticas
à mídia e aos brasileiros que viajam
a outros países: seu governo não tem
uma política pública de comunicação.
E esta, numa era em que informação
é o bem mais precioso da humanidade, é
tão importante quanto a economia, a saúde
e o ensino.
Quantas coletivas de imprensa fez o presidente
desde o início de seu primeiro mandato? Como
se relacionam os setores de turismo, a diplomacia
econômica e o próprio governo com os
veículos de comunicação e os
formadores de opinião internacionais? Nem
a sistematização de press releases,
a mais banal ação de assessoria de
imprensa, se faz (a quem interessar possa, alguns
países do Caribe, menores do que a Ilha de
Marajó, têm sofisticadas políticas
de comunicação. Assim, não
é mera coincidência que recebam mais
turistas estrangeiros do que os oito milhões
de quilômetros quadrados que compõem
nosso território).
Qual a estratégia de relacionamento do Governo
Lula com os correspondentes estrangeiros acreditados
no Brasil? Por que não se realiza com os
interlocutores do governo um programa de Media Training,
que até pequenas empresas recebem de suas
agências de comunicação. Esse
treinamento evitaria que ocupantes de cargos do
primeiro escalão expusessem suas divergências
e trocassem farpas pela imprensa e que ministros
e ministras tivessem surtos de incontinência
verbal perante câmeras e microfones. Definitivamente,
o brasileiro não conseguirá relaxar
e tampouco gozar as prerrogativas da livre e correta
informação sem que se respondam todas
essas perguntas.
Afinal, quando são muitos os ruídos
na comunicação governamental, quem
paga o pato é a sociedade, que fica tão
desnorteada quanto o ladrão da casa de Rui
Barbosa. E por falar neste grande brasileiro, é
oportuno resgatar uma de suas primorosas frases,
esta verdadeira e emblemática:
"A palavra é o instrumento irresistível
da conquista da liberdade".
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