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A
república dos cabisbaixos
Marco
Antônio Eid - 27.09.07
É constrangedora e descabida a teimosa permanência
de Renan Calheiros na presidência do Senado.
A observação não pretende julgar
e condenar sumariamente o senador, responsabilidades
inerentes aos ritos legais da Casa para episódios
dessa natureza. Trata-se, simplesmente, de um alerta
quanto ao risco de se manter a mesa diretora de
uma das mais importantes instituições
da República sob a condução
de uma pessoa sob suspeita de atos que, comprovados,
justificariam a cassação de seu mandato.
Guardadas as devidas proporções,
a continuidade de Calheiros no cargo é análoga
à impensável situação
de se entregar ao réu, em um processo na
justiça comum, a presidência do júri.
Culpado ou inocente das acusações
que lhe fazem, o senador confronta a ética
e coloca sob suspeição a imparcialidade
do julgamento, como ocorreu na votação
em plenário do primeiro processo (referente
ao pagamento das pensões alimentícias).
É natural o unânime ceticismo dos brasileiros
quanto à lisura do resultado.
Esse desconfortável episódio
para o Senado, o Congresso Nacional, o governo e
a Nação reacende e mantêm
vivas as memórias, recentes e mais antigas,
da impunidade no País. Mais uma vez, parece
encaminhar-se para o status de arquivado
um caso que, confirmada a culpa, afrontará
a dignidade da população e desrespeitará
o suor honesto dos que trabalham e pagam impostos.
Anões do orçamento, mensaleiros, pasta
cor-de-rosa, sanguessugas, vampiros dos bancos de
sangue, personagens da Operação Navalha...
este é o triste amálgama da improbidade
no setor público, causadora de tanto mal.
Cabisbaixos ante a realidade, sequer podemos defender
a Pátria das acusações que
lhe fazem no plano externo, como o ranking anual
sobre corrupção elaborado pela ong
Transparência Internacional, divulgado em
26 de setembro. Numa escala de zero a cinco, o Brasil
ficou com a nota 3,5, ou seja, incluído entre
as nações onde a corrupção
é um problema grave e em pior situação
do que outros latino-americanos, como Chile, Uruguai
e Costa Rica. Interessante estudo do economista
chefe do Departamento de Economia da Fundação
Getúlio Vargas, Marcos Fernandes, dimensiona
o problema em números: O País
perde anualmente R$ 3,5 bilhões em produtividade.
Para cada R$ 10 arrecadados em impostos, dois reais
são perdidos em desvio de dinheiro público.
A credibilidade das instituições
fica abalada diante da renitência da corrupção,
cujo principal caldo de cultura é a impunidade.
O Brasil não conseguirá avançar
rumo ao desenvolvimento se não mitigar essa
praga que contamina a política e o Estado
e envergonha os cidadãos de bem.
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