Marco Antônio Eid é jornalista e executivo da área de comunicação. Diretor de Operações da Ricardo Viveiros & Associados - Oficina de Comunicação, é palestrante e ministra curso na Aberje (Associação Brasileira de Comunicação Empresarial). É autor do livro "Entre o poder e a mídia" (Editora M. Books). Foi diretor de Redação da Coordenadoria de Imprensa do Governo do Estado de São Paulo e editor nas rádios Bandeirantes e Record, bem como de revistas técnicas e de economia.












  


 

A república dos cabisbaixos

Marco Antônio Eid - 27.09.07


É constrangedora e descabida a teimosa permanência de Renan Calheiros na presidência do Senado. A observação não pretende julgar e condenar sumariamente o senador, responsabilidades inerentes aos ritos legais da Casa para episódios dessa natureza. Trata-se, simplesmente, de um alerta quanto ao risco de se manter a mesa diretora de uma das mais importantes instituições da República sob a condução de uma pessoa sob suspeita de atos que, comprovados, justificariam a cassação de seu mandato.

Guardadas as devidas proporções, a continuidade de Calheiros no cargo é análoga à impensável situação de se entregar ao réu, em um processo na justiça comum, a presidência do júri. Culpado ou inocente das acusações que lhe fazem, o senador confronta a ética e coloca sob suspeição a imparcialidade do julgamento, como ocorreu na votação em plenário do primeiro processo (referente ao pagamento das pensões alimentícias). É natural o unânime ceticismo dos brasileiros quanto à lisura do resultado.

Esse desconfortável episódio — para o Senado, o Congresso Nacional, o governo e a Nação — reacende e mantêm vivas as memórias, recentes e mais antigas, da impunidade no País. Mais uma vez, parece encaminhar-se para o status de “arquivado” um caso que, confirmada a culpa, afrontará a dignidade da população e desrespeitará o suor honesto dos que trabalham e pagam impostos. Anões do orçamento, mensaleiros, pasta cor-de-rosa, sanguessugas, vampiros dos bancos de sangue, personagens da Operação Navalha... este é o triste amálgama da improbidade no setor público, causadora de tanto mal.

Cabisbaixos ante a realidade, sequer podemos defender a Pátria das acusações que lhe fazem no plano externo, como o ranking anual sobre corrupção elaborado pela ong Transparência Internacional, divulgado em 26 de setembro. Numa escala de zero a cinco, o Brasil ficou com a nota 3,5, ou seja, incluído entre as nações “onde a corrupção é um problema grave” e em pior situação do que outros latino-americanos, como Chile, Uruguai e Costa Rica. Interessante estudo do economista chefe do Departamento de Economia da Fundação Getúlio Vargas, Marcos Fernandes, dimensiona o problema em números: “O País perde anualmente R$ 3,5 bilhões em produtividade. Para cada R$ 10 arrecadados em impostos, dois reais são perdidos em desvio de dinheiro público”.

A credibilidade das instituições fica abalada diante da renitência da corrupção, cujo principal caldo de cultura é a impunidade. O Brasil não conseguirá avançar rumo ao desenvolvimento se não mitigar essa praga que contamina a política e o Estado e envergonha os cidadãos de bem.

 

 

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