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Aberta
a temporada anual das despedidas
Luiz
Alberto Machado - 15/02/2008
Como decorrência do ciclo
natural da vida, os amantes do esporte são
obrigados, anualmente, a conviver com a circunstância
do encerramento da carreira de grandes ídolos,
atletas que se transformam em verdadeiras lendas.
São “monstros” que deixam de
estar presentes às quadras, campos, piscinas,
pistas e tatames, deixando para sempre seus nomes
gravados na memória de milhões de
fãs espalhados pelos quatro cantos do mundo.
Em menos de duas semanas, nós, brasileiros,
tivemos oportunidade de presenciar o encerramento
da carreira de dois dos mais bem-sucedidos de
nossos atletas dos últimos anos, Adriana
Behar e Gustavo Kuerten.
Adriana Behar despediu-se das competições
de vôlei de praia numa partida festiva em
que atuou, na companhia de Shelda, sua tradicional
parceira, contra duas das outras maiores duplas
da modalidade, Jaqueline e Sandra Pires, e Adriana
Samuel e Mônica, respectivamente campeãs
e vice-campeãs olímpicas em Atenas,
primeira vez em que a modalidade fez parte dos
Jogos Olímpicos. Por ser um jogo festivo,
a partida foi dividida em duas partes: inicialmente,
Adriana Behar e Shelda atuaram contra Mônica
e Adriana, vencendo-as por 07 a 05. Na seqüência,
as convidadas foram substituídas por Jaqueline
e Sandra, que não conseguiram virar o resultado
no restante da partida e acabaram perdendo por
15 a 12.
A carreira da dupla Adriana Behar e Shelda é
extraordinária. Iniciada em outubro de
1995, a parceria rendeu mais de 1.100 vitórias
e 114 títulos, além de duas medalhas
de prata olímpicas em Sidney e Atenas.
Foram heptacampeãs brasileiras (1996/1997/1999/2000/2001/2002/2003),
pentacampeãs do circuito mundial (1997/1998/1999/2000/2001),
medalha de ouro no Goodwill Games de Nova York
em 1998 e nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg
em 1999. Individualmente, Adriana Behar foi por
três vezes (1995/1996/1999) a Rainha da
Praia, além de ter sido considerada a melhor
jogadora do Campeonato Mundial de 2002, no Rio
de Janeiro.
A decisão de encerrar a carreira, aos
38 anos, após uma temporada em que teve
que enfrentar diversas lesões, impede que
Adriana Behar tente pela terceira vez, ao lado
de Shelda, a tão sonhada medalha de ouro
olímpica. Espero, no entanto, como torcedor
fanático pelas cores do Brasil, que nossas
duplas presentes em Pequim possam manter a tradição
das últimas edições dos Jogos
Olímpicos, em que sempre houve pelo menos
uma dupla brasileira disputando a final feminina
do vôlei de praia.
Já o encerramento de carreira de Gustavo
Kuerten, o nosso Guga, será feito por etapas,
mas iniciou-se com sua participação
no torneio da Costa do Sauípe, por ele
conquistado em duas oportunidades, em 2002 e 2004,
para delírio da torcida brasileira.
Lembro-me perfeitamente da primeira vez que tive
oportunidade de estar presente, pessoalmente,
a um jogo de Guga. Foi no carnaval de 1997, por
ocasião da disputa da Copa Davis, quando
o Brasil enfrentou a equipe dos Estados Unidos,
em Ribeirão Preto. Lembro-me que Guga,
ainda no início de sua carreira, perdeu
suas duas partidas, contra Malivai Washington
e Jim Courier, até então um dos
maiores tenistas do mundo, tendo ocupado por bom
tempo o primeiro lugar do ranking da Associação
dos Tenistas Profissionais - ATP. Embora derrotado,
Guga mostrou enorme potencial, aliando esmerada
técnica com notável garra. Impressionado,
comentei com minha mulher e meu filho: esse “menino”
vai longe e seguramente estará em pouco
tempo entre os melhores do mundo.
Minha profecia não demorou a se confirmar,
uma vez que já em maio daquele ano, surpreendendo
a todos os analistas especializados, Guga venceu
pela primeira vez o Aberto da França em
Roland Garros, um dos quatro torneios mais importantes
do circuito, integrante do chamado Grand Slam.
Derrotando por inapeláveis 3 a 0 o espanhol
Sergi Bruguera, considerado na época o
maior tenista em quadras de saibro, Guga consagrou-se
internacionalmente, impulsionando definitivamente
sua brilhante carreira.
Daí em diante, Guga transformou-se num
dos grandes ídolos do esporte brasileiro
e mundial, pois a legião de seus admiradores
vai muito além das fronteiras nacionais,
o que se deve sem dúvida alguma a seu enorme
carisma, sua simpatia e sua simplicidade.
Para se ter uma noção de quão
fantástica foi sua carreira, basta dar
uma olhada na coleção de títulos
conquistados por Guga: 20 torneios do circuito
da ATP em simples, incluindo o tricampeonato em
Roland Garros (1997/2000/2001) e o Master Cup
em Lisboa (2000), após memorável
vitória na final sobre Andre Agassi; 8
títulos em duplas. Fora isso, permaneceu
por 43 semanas na liderança do ranking
de entradas, sendo o 11° tenista da história,
que mais tempo liderou a listagem, ficando à
frente de nomes como Boris Becker, Mats Wilander,
Ilie Nastase, entre outros. Se não bastasse,
liderou a equipe brasileira em inesquecíveis
vitórias na Copa Davis, a principal delas
sobre a poderosa equipe espanhola, de Carlos Moya
e Alex Corretja em quadras daquele país.
Também foi eleito o melhor atleta do Brasil
em 1999, 2000 e 2001.
Com essa brilhante carreira, Guga tornou-se o
maior nome do tênis brasileiro, colocando-se
ao lado da legendária Maria Esther Bueno,
ainda hoje celebrada como uma das maiores jogadoras
de todos os tempos.
Ainda que Guga tenha intenção de
participar de alguns outros torneios (que ele
considera especiais) na atual temporada como parte
de sua despedida do circuito, foi na Costa do
Sauípe que se pôde constatar o carinho
que os brasileiros têm por ele e vice-versa.
Com a arquibancada lotada, Guga, mesmo jogando
sua melhor partida nos últimos anos, foi
derrotado pelo argentino Carlos Berlocq por 2
a 0, com parciais de 7/5 e 6/1.
O resultado, porém, foi o que menos importou
para todos os que puderam acompanhar a partida,
no local ou pela TV. Só quem é de
pedra deve ter permanecido inalterado, sem se
emocionar com as palavras de Guga – ele
mesmo super emocionado – que agradeceu o
carinho do público e o apoio da família,
da namorada e do seu técnico e amigo Larri
Passos. Depois de falar sobre a alegria que o
tênis lhe proporcionou – “esporte
que vivi intensamente tanto nos momentos das grandes
vitórias como nos momentos difíceis
em que tentava me recuperar de duas cirurgias
nos quadris” –, Guga encerrou seu
discurso dizendo: “Não é que
eu não queira mais jogar; é que
eu não consigo”.
Uma pena, Guga. Você será eternamente
lembrado como um grande campeão!
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