Tenho 51 anos, sou economista pela Universidade Mackenzie (1977), com especialização em Desenvolvimento Latino Americano pela Boston University, em Criatividade pela Creative Education Foundation, em Aprendizagem Acelerada pela International Alliance for Learning e em Tecnologia Educacional pela FAAP.

Sou vice-diretor da Faculdade de Economia da FAAP e coordenador dos cursos in company da FAAP Pós-Graduação.

Sou também membro do Conselho do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial e do Conselho Superior da Ordem dos Economistas.

O que poucos sabem é que me tornei intelectual porque "esqueci de crescer", uma vez que até os 18 anos de idade, joguei basquete nas principais equipes de São Paulo, como Pinheiros, Sírio e Palmeiras, tendo integrado as seleções paulista e brasileira em diversas categorias menores.

Posteriormente, continuei jogando nas equipes principais do Pinheiros e do Paulistano. Atualmente, disputo campeonatos de veteranos pela equipe do Pinheiros, participando também de campeonatos brasileiros, pan-americanos e mundiais pelas seleções paulista e brasileira.

Apaixonado por esportes, é essa faceta que mostrarei nesta coluna, escrevendo sobre este assunto, mesclando comentários sobre as competições e seus bastidores, esclarecimentos sobre as diversas modalidades, resenhas dos livros que versam sobre o tema e procurando compartilhar lições aprendidas nas quadras esportivas que me têm sido extremamente úteis na vida profissional.













Momentos de reflexão íntima


Luiz Alberto Machado - 01/10/2007

 

No sábado, dia 22 de setembro, assisti por acaso a uma parte do programa Estrelas, conduzido pela apresentadora Angélica. Estava zapeando para ver se havia alguma atração de meu interesse na TV e fui surpreendido com a entrevista que a referida apresentadora fazia com o técnico Bernardinho e sua esposa, a levantadora Fernanda Venturini, no apartamento em que residem no Rio de Janeiro.

Admirador confesso do técnico - e também da levantadora -, não resisti e fiquei por alguns minutos acompanhando a agradável entrevista. Como tive oportunidade de acompanhar a carreira de ambos, muito do que foi revelado na entrevista não se constituiu em novidade. Mesmo assim, gostei de ter visto a sinceridade do técnico quando questionado sobre sua maneira de ser. Sem nenhum constrangimento Bernardinho confirmou tratar-se de uma pessoa abnegada, que tem paixão pela carreira que abraçou e que está sempre em busca da perfeição, o que faz da sua vida uma sucessão de novos desafios.

Indagado por Angélica se não desliga nunca, ele respondeu que sim: "Quando vou a um cinema ou leio um livro. Nesses momentos eu me concentro totalmente no que estou assistindo ou lendo. É como se eu entrasse na história."

"E você lê muito?", continuou a apresentadora.

"Estou sempre lendo alguma coisa. Agora mesmo estou lendo um livro sobre a vida de um jogador de futebol americano. Além de muito bom, tem sido bastante útil para mim, pois mostra como é que os atletas vêem a relação com seus técnicos."

Não pude deixar de associar esta revelação ao livro que eu acabara de ler naquele mesmo dia. Provavelmente um dos livros que menos fez sucesso no Brasil do consagrado autor John Grisham. Intitulado Nas arquibancadas (Editora Rocco, 2004), relata a história de um treinador de futebol americano da escola de uma pequena cidade dos Estados Unidos. Com um estilo aparentemente muito próximo ao de Bernardinho, o referido técnico permaneceu por 34 anos como técnico dessa escola, transformando sua equipe de futebol americano numa verdadeira lenda, com a conquista de inúmeros títulos estaduais e nacionais no período em que foi seu treinador. Depois de tanto sucesso, o treinador havia sido demitido quando um de seus atletas morreu extenuado após um treino marcado numa manhã de sol escaldante, como uma espécie de castigo para seu time após o mau desempenho numa partida na véspera daquele dia.

O livro narra os dias que antecedem a morte do treinador, quando muitos de seus ex-jogadores, todos já em idade adulta e seguindo as mais diferentes profissões, voltam para a pequena cidade para aguardar o último suspiro e acompanhar as cerimônias fúnebres. O protagonista da história é um de seus ex-jogadores mais promissores, cuja carreira só não explodiu pois teve uma grave contusão no joelho que pôs fim ao seu sonho ainda nos primeiros anos da universidade. Ao voltar pela primeira vez à cidade onde crescera e à qual jurara jamais voltar, esse ex-jogador encontra seus ex-companheiros nas arquibancadas do estádio do colégio para relembrar as glórias do passado e conversar sobre o presente de cada um. Ex-jogadores das diferentes gerações da escola fazem a mesma coisa e é através desses diálogos que os leitores vão tomando conhecimento do difícil relacionamento do treinador com seus atletas, repleta de alternância de bons e maus momentos, que produzem, como resultado, um misto de amor e ódio. Essa verdadeira montanha-russa emocional não foi percebida pela esmagadora maioria das pessoas, escondida atrás da esteira de sucesso que caracterizou a passagem do técnico pelo colégio.

Embora, como já afirmei, o livro não tenha repetido o êxito de tantos outros best sellers de John Grisham, tenho absoluta certeza de que será do agrado de todos aqueles que viveram por algum tempo o cotidiano do esporte de alto rendimento, em que a intensidade da relação entre jogador e técnico é muitas vezes fator determinante para o sucesso ou o fracasso.

E já que passei pelo livro e pela televisão, gostaria de completar este artigo fazendo menção a um dos filmes que mais me marcaram no cinema e que também se refere ao esporte: o ganhador do Oscar de melhor filme em 1981, Carruagens de fogo. Além do brilhante roteiro que entremeia diversos dramas particulares da equipe olímpica inglesa de atletismo e da belíssima trilha sonora assinada pelo tecladista grego Vangelis Papathanassiou, o filme contém uma cena que também chama muito a atenção de qualquer um que tenha participado de competições de um certo nível, independentemente de ter sido em esportes individuais ou em esportes coletivos. Trata-se do momento que antecede um grande jogo ou uma grande prova, quando o atleta, sozinho consigo mesmo, dentro do vestiário, reflete sobre tudo o que passou para chegar àquele momento e projeta o que virá pela frente, quando em alguns segundos ou minutos todo o seu esforço poderá ser coroado com uma consagradora vitória ou desmoronar numa contundente derrota.

Momentos como esses, assim com a "dorzinha de barriga" ou o "suor nas mãos" que acompanham os atletas no caminho para as competições, são situações que só quem viveu pode compreender em toda a sua magnitude. Mas são tão sublimes, que faço questão de compartilhá-las com os amigos internautas, tenham ou não tido a oportunidade de viver momentos como esses.


Comentários:

(...) "A relação entre a dorzinha de barriga com a primeira aula e o esforço que fazemos, nós professores, para inserir os alunos no mundo real e imaginário (por que não?). De algum modo, muitos alunos resistem ao aprendizado por medo ou insegurança de serem mais exigidos. Desde de uma pergunta em sala até em suas atividades profissionais. Os que fazem a diferença são os que não têm medo. Estudaram, se superaram, foram além dos limites" (...)

abraço,
Bichir

"O texto muito bem escrito, relata com grande prescisão a grandeza, daquele limbo em que os atletas antes de entrar em campo sentem. Uma nostalgia me tomou as memórias. Abraços"

Marco Campagnone

 



 
 

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