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Momentos
de reflexão íntima
Luiz Alberto Machado -
01/10/2007
No
sábado, dia 22 de setembro, assisti por acaso
a uma parte do programa Estrelas, conduzido pela
apresentadora Angélica. Estava zapeando para
ver se havia alguma atração de meu
interesse na TV e fui surpreendido com a entrevista
que a referida apresentadora fazia com o técnico
Bernardinho e sua esposa, a levantadora Fernanda
Venturini, no apartamento em que residem no Rio
de Janeiro.
Admirador
confesso do técnico - e também da
levantadora -, não resisti e fiquei por alguns
minutos acompanhando a agradável entrevista.
Como tive oportunidade de acompanhar a carreira
de ambos, muito do que foi revelado na entrevista
não se constituiu em novidade. Mesmo assim,
gostei de ter visto a sinceridade do técnico
quando questionado sobre sua maneira de ser. Sem
nenhum constrangimento Bernardinho confirmou tratar-se
de uma pessoa abnegada, que tem paixão pela
carreira que abraçou e que está sempre
em busca da perfeição, o que faz da
sua vida uma sucessão de novos desafios.
Indagado
por Angélica se não desliga nunca,
ele respondeu que sim: "Quando vou a um cinema
ou leio um livro. Nesses momentos eu me concentro
totalmente no que estou assistindo ou lendo. É
como se eu entrasse na história."
"E
você lê muito?", continuou a apresentadora.
"Estou
sempre lendo alguma coisa. Agora mesmo estou lendo
um livro sobre a vida de um jogador de futebol americano.
Além de muito bom, tem sido bastante útil
para mim, pois mostra como é que os atletas
vêem a relação com seus técnicos."
Não
pude deixar de associar esta revelação
ao livro que eu acabara de ler naquele mesmo dia.
Provavelmente um dos livros que menos fez sucesso
no Brasil do consagrado autor John Grisham. Intitulado
Nas arquibancadas (Editora Rocco, 2004), relata
a história de um treinador de futebol americano
da escola de uma pequena cidade dos Estados Unidos.
Com um estilo aparentemente muito próximo
ao de Bernardinho, o referido técnico permaneceu
por 34 anos como técnico dessa escola, transformando
sua equipe de futebol americano numa verdadeira
lenda, com a conquista de inúmeros títulos
estaduais e nacionais no período em que foi
seu treinador. Depois de tanto sucesso, o treinador
havia sido demitido quando um de seus atletas morreu
extenuado após um treino marcado numa manhã
de sol escaldante, como uma espécie de castigo
para seu time após o mau desempenho numa
partida na véspera daquele dia.
O
livro narra os dias que antecedem a morte do treinador,
quando muitos de seus ex-jogadores, todos já
em idade adulta e seguindo as mais diferentes profissões,
voltam para a pequena cidade para aguardar o último
suspiro e acompanhar as cerimônias fúnebres.
O protagonista da história é um de
seus ex-jogadores mais promissores, cuja carreira
só não explodiu pois teve uma grave
contusão no joelho que pôs fim ao seu
sonho ainda nos primeiros anos da universidade.
Ao voltar pela primeira vez à cidade onde
crescera e à qual jurara jamais voltar, esse
ex-jogador encontra seus ex-companheiros nas arquibancadas
do estádio do colégio para relembrar
as glórias do passado e conversar sobre o
presente de cada um. Ex-jogadores das diferentes
gerações da escola fazem a mesma coisa
e é através desses diálogos
que os leitores vão tomando conhecimento
do difícil relacionamento do treinador com
seus atletas, repleta de alternância de bons
e maus momentos, que produzem, como resultado, um
misto de amor e ódio. Essa verdadeira montanha-russa
emocional não foi percebida pela esmagadora
maioria das pessoas, escondida atrás da esteira
de sucesso que caracterizou a passagem do técnico
pelo colégio.
Embora,
como já afirmei, o livro não tenha
repetido o êxito de tantos outros best sellers
de John Grisham, tenho absoluta certeza de que será
do agrado de todos aqueles que viveram por algum
tempo o cotidiano do esporte de alto rendimento,
em que a intensidade da relação entre
jogador e técnico é muitas vezes fator
determinante para o sucesso ou o fracasso.
E
já que passei pelo livro e pela televisão,
gostaria de completar este artigo fazendo menção
a um dos filmes que mais me marcaram no cinema e
que também se refere ao esporte: o ganhador
do Oscar de melhor filme em 1981, Carruagens de
fogo. Além do brilhante roteiro que entremeia
diversos dramas particulares da equipe olímpica
inglesa de atletismo e da belíssima trilha
sonora assinada pelo tecladista grego Vangelis Papathanassiou,
o filme contém uma cena que também
chama muito a atenção de qualquer
um que tenha participado de competições
de um certo nível, independentemente de ter
sido em esportes individuais ou em esportes coletivos.
Trata-se do momento que antecede um grande jogo
ou uma grande prova, quando o atleta, sozinho consigo
mesmo, dentro do vestiário, reflete sobre
tudo o que passou para chegar àquele momento
e projeta o que virá pela frente, quando
em alguns segundos ou minutos todo o seu esforço
poderá ser coroado com uma consagradora vitória
ou desmoronar numa contundente derrota.
Momentos
como esses, assim com a "dorzinha de barriga"
ou o "suor nas mãos" que acompanham
os atletas no caminho para as competições,
são situações que só
quem viveu pode compreender em toda a sua magnitude.
Mas são tão sublimes, que faço
questão de compartilhá-las com os
amigos internautas, tenham ou não tido a
oportunidade de viver momentos como esses.
Comentários:
(...) "A relação entre a dorzinha
de barriga com a primeira aula e o esforço
que fazemos, nós professores, para inserir
os alunos no mundo real e imaginário (por
que não?). De algum modo, muitos alunos resistem
ao aprendizado por medo ou insegurança de
serem mais exigidos. Desde de uma pergunta em sala
até em suas atividades profissionais. Os
que fazem a diferença são os que não
têm medo. Estudaram, se superaram, foram além
dos limites" (...)
abraço,
Bichir
"O texto muito bem escrito, relata com grande
prescisão a grandeza, daquele limbo em que
os atletas antes de entrar em campo sentem. Uma
nostalgia me tomou as memórias. Abraços"
Marco Campagnone
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