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Altos
e baixos do Pan do Rio
Luiz
Alberto Machado - 01/08/2007
Eu,
que nunca escondi minha condição de
apaixonado por esportes e torcedor fanático,
vivi momentos de grande emoção no
último fim de semana, quando tive a oportunidade
de ir ao Rio de Janeiro, com minha mulher e meu
filho, para assistir a algumas provas finais de
atletismo na tarde de sábado e à final
do basquete na manhã do domingo.
É
muito gostosa a sensação de cantar
tantas vezes o hino nacional, mesmo na versão
abreviada utilizada nos Jogos Pan-Americanos, principalmente
porque o número de vitórias no atletismo
naquele dia superou a expectativa até dos
mais otimistas.
Feita
essa confissão inicial, gostaria de expressar
minha visão sobre os Jogos Pan-Americanos
e a participação brasileira, a partir
de duas óticas distintas: a esportiva e a
organizacional.
Na
primeira, os resultados confirmaram em boa parte
as minhas previsões. Considerando que as
competições foram realizadas em nosso
país e que em diversas modalidades os principais
competidores das maiores forças do continente
não vieram ao Rio, não chega a surpreender
o expressivo número de medalhas, inclusive
de ouro, conquistadas por nossos atletas.
O
Brasil revelou ótimo desempenho nas modalidades
coletivas e alguns destaques individuais, chegando
mesmo a ficar muito perto da possibilidade de superar
Cuba no quadro geral de medalhas. Diante disso,
a euforia tomou conta de muita gente que começa
a ver no Brasil uma potência olímpica
emergente, capaz de se transformar num papão
de medalhas em curto espaço de tempo.
A
esses, lamento dizer que estão completamente
iludidos. Salvo raras exceções, como
as seleções masculina e feminina de
vôlei, as duplas do vôlei de praia,
a equipe feminina de futebol, a de futebol de salão,
além de Rodrigo Pessoa no hipismo, Diego
Hypólito e Daiane dos Santos na ginástica,
alguns judocas, alguns iatistas e do triplista Jadel
Gregório, nossas chances numa competição
de maior peso como os Jogos Olímpicos ou
os campeonatos mundiais continuam sendo muito remotas,
numa prova incontestável de que falta muito
ainda para que o Brasil se apresente como um competidor
capaz de impor respeito na esmagadora maioria das
modalidades. Mesmo um grande destaque como o nadador
Thiago Pereira, que conquistou 8 medalhas no Pan,
sendo 6 de ouro, está longe de ser favorito
em competições que contem com a participação
dos grandes nomes da modalidade, entre os quais
o fantástico Michael Phelps.
Em
suma: o Brasil apresentou uma performance superior
à de edições anteriores dos
Jogos Pan-Americanos, mas possui ainda muitos problemas
a resolver, em especial no plano administrativo,
sem o que, dificilmente, conseguirá dar o
salto de qualidade indispensável para se
tornar uma potência esportiva.
Passando
agora à outra ótica, que diz respeito
à parte organizacional, o Pan do Rio alternou
pontos positivos e negativos.
De
positivo, vale destacar o nível magnífico
de algumas instalações criadas ou
reformadas especialmente para o evento, como o Estádio
João Havelange, a Arena Olímpica,
o Complexo Maria Lenk, o Velódromo e o próprio
ginásio do Maracanãzinho, que não
ficam nada a dever às melhores do mundo.
A ausência de problemas graves de violência
durante o transcorrer das competições,
que era um dos maiores temores dos organizadores,
é também um aspecto que merece ser
comemorado, assim como a qualidade das cerimônias
de abertura e de encerramento, cujas imagens foram
transmitidas para quase todos os países do
continente.
De
negativo, precisam ser citadas as péssimas
condições da Cidade do Rock, no Riocentro,
onde foram disputados os jogos das modalidades de
beisebol e softbol, cuja precariedade provocou vários
problemas e impediu até a realização
da final de softbol, em que a seleção
dos Estados Unidos sagrou-se campeã pelo
desempenho ao longo da competição.
Também questões relacionadas à
sujeira e à poluição das águas
foram mencionadas por nadadores que participaram
da maratona aquática e pelos atletas do iatismo,
o que é lamentável em se tratando
serem as praias um dos principais cartões
postais do Rio de Janeiro. Inadmissível,
também, os problemas ocorridos com a venda
de ingressos e, pior ainda, a mudança de
horário de jogos depois da venda dos ingressos
para atender interesses de emissoras de TV. Impensável
uma coisa dessas em qualquer torneio de grande expressão.
Suficiente até, em minha opinião,
para desqualificar qualquer candidato a sediar uma
Olimpíada.
A
se lamentar, ainda, embora nada tenha a ver com
a organização dos Jogos, a inesperada
volta antecipada de boa parte da delegação
cubana, ao que tudo indica por ordem expressa do
próprio Fidel Castro, temeroso de uma debandada
em massa de seus atletas, supostamente aliciados
por uma organização alemã.
Lamentável, mas não surpreendente,
assim como a fuga de três atletas (um de handebol
e dois boxeadores) e de um técnico durante
a realização dos jogos. Quem conhece
as condições em que vive o povo cubano
entende perfeitamente as razões que levam
atletas - bem sucedidos, diga-se de passagem - a
agirem dessa forma.
Para
concluir, não posso deixar de lamentar os
graves problemas de governança ocorridos
em torno dos Jogos Pan-Americanos. Reconheço
que atrasos em obras, estouro de orçamento,
ausência de licitações ou denúncias
de manipulação de verbas ocorrem,
vez por outra, também em outros países.
Não, porém, tudo isso ao mesmo tempo,
no volume e na variedade que ocorreram no Rio de
Janeiro.
Antes
de uma apuração completa de tudo o
que foi (e continua sendo) denunciado, reservo-me
o direito de dizer que já estou com saudade
das disputas esportivas do Pan, mas permaneço
com uma sensação de enorme inquietação
quando penso na maneira pouco ortodoxa como as coisas
são feitas aqui no Brasil. O Pan do Rio parece
ter sido apenas mais um exemplo nesse sentido. É
uma pena!
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