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Lições
de Las Vegas.
Luiz Alberto Machado -
03/09/2007
Tradicionalíssima
capital do jogo, Las Vegas tornou-se famosa em todo
o mundo pela imponência de seus hotéis,
pelo clima fervilhante de seus cassinos e por ser
sede de grandes espetáculos artísticos
e esportivos, já que lá se apresentam
grandes nomes do show bizz e lá também
se realizam empolgantes noitadas de boxe, com a
disputa de alguns dos títulos mundiais de
maior repercussão.
Nas
duas últimas semanas, no entanto, Las Vegas
atraiu a atenção dos amantes do basquete,
uma vez que foi a sede do torneio pré-olímpico
das Américas, que classificou os dois primeiros
colocados, Estados Unidos e Argentina, para as Olimpíadas
de Pequim a serem realizadas no próximo ano.
A
seleção brasileira, uma vez mais,
decepcionou, frustrando seus torcedores ao deixar
escapar uma chance de ouro para começar a
recuperar sua imagem, tão desgastada nos
últimos 20 anos.
Embora
tenha comparecido quase com sua força máxima,
ao contrário daqueles que deveriam ser seus
principais concorrentes, Argentina e Canadá,
que não se apresentaram com suas principais
estrelas, a seleção brasileira acabou
o torneio num melancólico quarto lugar, em
meio a uma série de notícias lamentáveis
envolvendo brigas e discussões entre atletas
e a comissão técnica.
Ainda
que reste uma oportunidade para a conquista da vaga
no pré-olímpico mundial a ser disputado
às vésperas dos Jogos Olímpicos,
todos que acompanham o basquete de perto sabem que
a obtenção dessa vaga será
muito difícil, dada a qualidade das seleções
que deverão estar participando deste torneio.
O
mínimo que se espera em momentos de decepção
como esse que está sendo vivido pelo basquete
brasileiro é que alguma lição
seja tirada da derrota (o que vai se tornando cada
vez mais difícil de acreditar, haja vista
a sucessão de frustrações que
o basquete brasileiro viveu nas duas últimas
décadas, desde a fantástica vitória
sobre a seleção dos Estados Unidos,
na final do Pan Americano de 1987, em Indianápolis).
De
qualquer forma, creio que pelo menos 3 lições
podem - e devem - ser tiradas de Las Vegas.
A
primeira, da Argentina. Mesmo com uma seleção
B, desfalcada de sete de seus principais jogadores,
a seleção argentina mostrou um basquete
sólido, de grande disciplina tática,
o que, aliado à já conhecida garra
dos nossos vizinhos, resultou na conquista de uma
das vagas em disputa, com méritos indiscutíveis.
Derrotando por duas vezes a seleção
brasileira, os argentinos só perderam da
seleção norte-americana, motivo da
segunda grande lição deixada por Las
Vegas.
Após
algumas derrotas que chegaram a pôr em dúvida
a hegemonia de seu basquete, os Estados Unidos resolveram
fazer um trabalho sério para o Pré-Olímpico,
a fim de transformá-lo no marco inicial da
recuperação da imagem arranhada pelos
últimos fracassos e, ato contínuo,
a confirmação de sua superioridade
na modalidade. Para tanto, não apenas montaram
uma equipe com vários dos principais jogadores
da atualidade, mas também treinaram pra valer,
além de terem conscientizado a todos sobre
a importância da conquista.
O
que se viu, em decorrência disso, foi um verdadeiro
show, com exibições que encantaram
o público e deixaram clara a distância
que ainda separa o basquete norte-americano do que
é praticado no resto do mundo. A condição
atlética, a técnica apurada e a intensidade
com que se atiraram ao jogo nomes consagrados como
os de Kobe Bryant, LeBron James, Carmelo Anthony
e Jason Kidd constituíram-se em lições
inesquecíveis, daquelas que não podem
ser desperdiçadas por todos os que tiveram
o privilégio de assistir a essas magníficas
aulas de basquete.
A
terceira lição deixada por Las Vegas
foi de humildade. No basquete, o processo de tomada
de decisões é muito rápido.
A bola quase perdida pode transformar-se em pontos
decisivos. Marcar bem, roubar uma bola ou dar um
toco pode valer tanto quando fazer uma cesta. Não
se pode desistir jamais.. Lamentavelmente, ainda
prevalece entre os jogadores de basquete brasileiros
uma mentalidade que dá muito mais valor às
ações ofensivas do que às defensivas.
Em decorrência disso, nossos atletas costumam
se aplicar muito mais quando estão no ataque
do que quando estão na defesa. Este tem sido,
sem qualquer sombra de dúvida, um dos fatores
explicativos da decadência do nosso basquete
no cenário mundial verificado nas últimas
décadas, quando deixamos de figurar entre
as principais forças e de freqüentar
o pódio, como ocorria até o final
da década de 80. Em Las Vegas, os aficionados
pelo basquete tiveram uma oportunidade única
de constatar a importância da marcação.
Na partida entre as seleções do Brasil
e dos Estados Unidos, ainda na primeira fase do
torneio, Kobe Bryant, um dos maiores jogadores do
mundo, foi indicado pelo treinador de sua equipe
para fazer marcação cerrada sobre
Leandrinho, principal jogador da nossa seleção
e que também atua na NBA. Numa incrível
demonstração de perseverança
- e também de humildade - o grande ala do
Los Angeles Lakers cumpriu à risca a tarefa
que lhe fora confiada (Leandrinho fez apenas 4 pontos
naquela partida, quando sua média era superior
a 20 pontos), sem deixar de apresentar uma incrível
performance no ataque, contribuindo decisivamente
para a acachapante vitória dos norte-americanos
pelo placar de 113 a 76. Atitudes como essa definem
os verdadeiramente fora de série.
As
outras lições - a quarta, a quinta,
a sexta, a sétima etc. - ficaram por conta
dos descalabros ocorridos dentro da delegação
brasileira, numa monótona repetição
do que vem ocorrendo sistematicamente no nosso basquete.
Mas parece que nossos principais dirigentes fazem
questão de desprezar os ensinamentos que
poderiam ser extraídos dessas tristes experiências.
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