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ANTAGONISMO ENTRE O ESPORTE E A DEMOCRACIA
Luiz
Alberto Machado - 03/11/2006
Terminei meu último artigo fazendo rápida referência aos prejuízos causados sistematicamente
às diversas modalidades por maus dirigentes esportivos. Prometi voltar ao tema
e é o que passo a fazer a partir de agora.
No Roda Viva (tradicional programa
de entrevistas levado ao ar pela TV Cultura) desta semana, quem esteve no centro
da roda não foi um empresário, um artista, um professor ou um político, como costuma
acontecer. O entrevistado foi Rogério Ceni, goleiro do São Paulo que em pouco
tempo atingiu duas marcas expressivas na carreira: tornou-se o maior goleiro-artilheiro
de todos os tempos e completou 700 jogos com a camisa tricolor.
Com inteligência
privilegiada e raciocínio rápido, muito superiores aos da média de seus colegas
de profissão, Rogério Ceni saiu-se muito bem na entrevista. Respondeu objetivamente
a maior parte das perguntas que lhe foram formuladas e soube esquivar-se com categoria
das que poderiam lhe trazer algum tipo de dor de cabeça.
Dentre as deste
segundo grupo, vale citar a que pedia sua avaliação sobre o presidente da CBF,
Ricardo Teixeira. Depois de dizer que não o conhecia suficientemente para emitir
qualquer opinião mais abalizada, Rogério Ceni lamentou o fato de Ricardo Teixeira
permanecer por tanto tempo à frente da mais importante confederação esportiva
do Brasil. É exatamente sobre esse aspecto que eu gostaria de concentrar o foco
de minha análise. Num país em que o presidente da República, os governadores dos
estados e os prefeitos municipais têm prazo limitado para permanecer no poder
ininterruptamente, não vejo por quê o mesmo não deveria ocorrer com presidentes
de confederações esportivas. Um argumento que poderia ser levantado por aqueles
que discordam da minha posição seria o de que as confederações são entidades de
direito privado, que reúnem as federações estaduais das diversas modalidades.
Aos adeptos desse argumento, reajo com um dado fundamental: todas essas confederações
recebem aportes consideráveis de recursos públicos, quer sejam verbas da loteria
esportiva, quer sejam patrocínios de empresas governamentais. Nesse sentido, há
um vínculo estreito dessas entidades com os recursos públicos e, nesse sentido,
nada mais justo do que seus dirigentes estejam sujeitos às mesmas limitações a
que estão submetidos os principais mandatários da nação. Como se trata de uma
questão de princípio, não admito sequer a hipótese de que a continuidade seria
justificável quando os bons resultados fossem a tônica da gestão de um determinado
dirigente.
É o caso, por exemplo, do voleibol brasileiro, que vem colecionando
títulos e mais títulos, tanto no masculino como no feminino, nas quadras e na
praia, estando a Confederação desde 1997 sendo presidida por Ary Graça Filho.
Àqueles que defendem a tese de que "em time que está ganhando não se mexe", respondo
que o sucesso deve ser conseqüência de um trabalho de equipe e, sendo assim, é
mais do que natural imaginar que no caso de sucessão, algum membro da mesma equipe
pudesse dar continuidade ao sucesso do trabalho. Foi o que aconteceu, aliás, no
próprio voleibol, onde Ary Graça Filho foi o continuador do estupendo trabalho
iniciado por Carlos Arthur Nuzman, que se manteve na presidência da CBV de 1975
a 1997, saindo para assumir a presidência do Comitê Olímpico Brasileiro.
Além
disso, se o dirigente for tão bom assim, nada impede que ele retorne após um período
afastado da presidência. O êxito do voleibol, no entanto, é uma exceção, uma vez
que o mais comum tem sido o caso de maus dirigentes que provocam sérios prejuízos
à modalidade que dirigem. Sem fazer muito esforço, é fácil lembrar de alguns exemplos
recentes e igualmente lamentáveis. No judô, modalidade em que o Brasil tradicionalmente
conquista resultados expressivos em competições internacionais, a família Mamede,
que permaneceu por longo tempo no poder, cometeu uma série de desmandos que fizeram
com que alguns dos principais atletas do País, entre os quais o medalhista de
ouro em Barcelona, Aurélio Miguel, fossem afastados da seleção, tirando boa parte
de seu potencial.
O mesmo ocorreu no tênis, modalidade em que os jogadores
mais importantes, com destaque para Gustavo Kuerten, se recusassem a defender
a equipe brasileira na Taça Davis, maior competição mundial por equipes, o que
provocou a queda do Brasil para a terceira divisão, depois de quase uma década
permanecendo no grupo de elite. A razão da recusa foi uma reação aos desmandos
cometidos pelo presidente da CBT, Nelson Nastas. Agora mesmo, duas modalidades
sofrem da longa permanência no poder de maus dirigentes, o tiro e o basquete.
No primeiro, existe a ameaça de que nossos melhores atiradores fiquem
fora dos Jogos Pan-Americanos que serão realizados no ano que vem no Rio de Janeiro
em função das arbitrariedades cometidas por Durval Guimarães, um antigo ídolo
da modalidade, que conseguiu enlamear sua memória graças a uma sucessão de medidas
inaceitáveis adotadas, em grande parte, com o objetivo de se perpetuar no poder.
No segundo, o Brasil despencou da condição de uma das principais seleções do mundo
para uma posição pra lá de secundária. Além das péssimas classificações obtidas
nos mais recentes campeonatos mundiais, a seleção brasileira não conseguiu se
classificar para as duas últimas edições dos Jogos Olímpicos, situação que, ao
que tudo indica, deverá se repetir na Olimpíada de Pequim.
No feminino,
em que os resultados mantiveram-se satisfatórios, a incompetência do presidente
Gerasime Nicolas Bosikis, conhecido como Grego, foi escancarada para todo o País
através das declarações da pivô Alessandra, e das lágrimas da grande Janeth, depois
da heróica conquista do quarto lugar no Mundial disputado em São Paulo, apesar
de toda a confusão e falta de estrutura que caracterizaram a história recente
da modalidade.
Enfim, a democracia e o esporte no Brasil seguem por trajetórias
muito diferentes, cada um numa direção. E por que a democracia deveria prevalecer
no esporte, afinal de contas?
A essa pergunta, respondo, de forma nada
original, lançando mão de uma citação de um dos maiores estadistas do século XX,
o primeiro-ministro da Inglaterra, Winston Churchill: "A democracia é o pior de
todos os regimes, com exceção de todos os outros que foram tentados de tempos
em tempos".
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