Tenho 51 anos, sou economista pela Universidade Mackenzie (1977), com especialização em Desenvolvimento Latino Americano pela Boston University, em Criatividade pela Creative Education Foundation, em Aprendizagem Acelerada pela International Alliance for Learning e em Tecnologia Educacional pela FAAP.

Sou vice-diretor da Faculdade de Economia da FAAP e coordenador dos cursos in company da FAAP Pós-Graduação.

Sou também membro do Conselho do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial e do Conselho Superior da Ordem dos Economistas.

O que poucos sabem é que me tornei intelectual porque "esqueci de crescer", uma vez que até os 18 anos de idade, joguei basquete nas principais equipes de São Paulo, como Pinheiros, Sírio e Palmeiras, tendo integrado as seleções paulista e brasileira em diversas categorias menores.

Posteriormente, continuei jogando nas equipes principais do Pinheiros e do Paulistano. Atualmente, disputo campeonatos de veteranos pela equipe do Pinheiros, participando também de campeonatos brasileiros, pan-americanos e mundiais pelas seleções paulista e brasileira.

Apaixonado por esportes, é essa faceta que mostrarei nesta coluna, escrevendo sobre este assunto, mesclando comentários sobre as competições e seus bastidores, esclarecimentos sobre as diversas modalidades, resenhas dos livros que versam sobre o tema e procurando compartilhar lições aprendidas nas quadras esportivas que me têm sido extremamente úteis na vida profissional.














O ANTAGONISMO ENTRE O ESPORTE E A DEMOCRACIA


Luiz Alberto Machado - 03/11/2006


Terminei meu último artigo fazendo rápida referência aos prejuízos causados sistematicamente às diversas modalidades por maus dirigentes esportivos. Prometi voltar ao tema e é o que passo a fazer a partir de agora.

No Roda Viva (tradicional programa de entrevistas levado ao ar pela TV Cultura) desta semana, quem esteve no centro da roda não foi um empresário, um artista, um professor ou um político, como costuma acontecer. O entrevistado foi Rogério Ceni, goleiro do São Paulo que em pouco tempo atingiu duas marcas expressivas na carreira: tornou-se o maior goleiro-artilheiro de todos os tempos e completou 700 jogos com a camisa tricolor.

Com inteligência privilegiada e raciocínio rápido, muito superiores aos da média de seus colegas de profissão, Rogério Ceni saiu-se muito bem na entrevista. Respondeu objetivamente a maior parte das perguntas que lhe foram formuladas e soube esquivar-se com categoria das que poderiam lhe trazer algum tipo de dor de cabeça.

Dentre as deste segundo grupo, vale citar a que pedia sua avaliação sobre o presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Depois de dizer que não o conhecia suficientemente para emitir qualquer opinião mais abalizada, Rogério Ceni lamentou o fato de Ricardo Teixeira permanecer por tanto tempo à frente da mais importante confederação esportiva do Brasil. É exatamente sobre esse aspecto que eu gostaria de concentrar o foco de minha análise. Num país em que o presidente da República, os governadores dos estados e os prefeitos municipais têm prazo limitado para permanecer no poder ininterruptamente, não vejo por quê o mesmo não deveria ocorrer com presidentes de confederações esportivas. Um argumento que poderia ser levantado por aqueles que discordam da minha posição seria o de que as confederações são entidades de direito privado, que reúnem as federações estaduais das diversas modalidades.

Aos adeptos desse argumento, reajo com um dado fundamental: todas essas confederações recebem aportes consideráveis de recursos públicos, quer sejam verbas da loteria esportiva, quer sejam patrocínios de empresas governamentais. Nesse sentido, há um vínculo estreito dessas entidades com os recursos públicos e, nesse sentido, nada mais justo do que seus dirigentes estejam sujeitos às mesmas limitações a que estão submetidos os principais mandatários da nação. Como se trata de uma questão de princípio, não admito sequer a hipótese de que a continuidade seria justificável quando os bons resultados fossem a tônica da gestão de um determinado dirigente.

É o caso, por exemplo, do voleibol brasileiro, que vem colecionando títulos e mais títulos, tanto no masculino como no feminino, nas quadras e na praia, estando a Confederação desde 1997 sendo presidida por Ary Graça Filho. Àqueles que defendem a tese de que "em time que está ganhando não se mexe", respondo que o sucesso deve ser conseqüência de um trabalho de equipe e, sendo assim, é mais do que natural imaginar que no caso de sucessão, algum membro da mesma equipe pudesse dar continuidade ao sucesso do trabalho. Foi o que aconteceu, aliás, no próprio voleibol, onde Ary Graça Filho foi o continuador do estupendo trabalho iniciado por Carlos Arthur Nuzman, que se manteve na presidência da CBV de 1975 a 1997, saindo para assumir a presidência do Comitê Olímpico Brasileiro.

Além disso, se o dirigente for tão bom assim, nada impede que ele retorne após um período afastado da presidência. O êxito do voleibol, no entanto, é uma exceção, uma vez que o mais comum tem sido o caso de maus dirigentes que provocam sérios prejuízos à modalidade que dirigem. Sem fazer muito esforço, é fácil lembrar de alguns exemplos recentes e igualmente lamentáveis. No judô, modalidade em que o Brasil tradicionalmente conquista resultados expressivos em competições internacionais, a família Mamede, que permaneceu por longo tempo no poder, cometeu uma série de desmandos que fizeram com que alguns dos principais atletas do País, entre os quais o medalhista de ouro em Barcelona, Aurélio Miguel, fossem afastados da seleção, tirando boa parte de seu potencial.

O mesmo ocorreu no tênis, modalidade em que os jogadores mais importantes, com destaque para Gustavo Kuerten, se recusassem a defender a equipe brasileira na Taça Davis, maior competição mundial por equipes, o que provocou a queda do Brasil para a terceira divisão, depois de quase uma década permanecendo no grupo de elite. A razão da recusa foi uma reação aos desmandos cometidos pelo presidente da CBT, Nelson Nastas. Agora mesmo, duas modalidades sofrem da longa permanência no poder de maus dirigentes, o tiro e o basquete.

No primeiro, existe a ameaça de que nossos melhores atiradores fiquem fora dos Jogos Pan-Americanos que serão realizados no ano que vem no Rio de Janeiro em função das arbitrariedades cometidas por Durval Guimarães, um antigo ídolo da modalidade, que conseguiu enlamear sua memória graças a uma sucessão de medidas inaceitáveis adotadas, em grande parte, com o objetivo de se perpetuar no poder. No segundo, o Brasil despencou da condição de uma das principais seleções do mundo para uma posição pra lá de secundária. Além das péssimas classificações obtidas nos mais recentes campeonatos mundiais, a seleção brasileira não conseguiu se classificar para as duas últimas edições dos Jogos Olímpicos, situação que, ao que tudo indica, deverá se repetir na Olimpíada de Pequim.

No feminino, em que os resultados mantiveram-se satisfatórios, a incompetência do presidente Gerasime Nicolas Bosikis, conhecido como Grego, foi escancarada para todo o País através das declarações da pivô Alessandra, e das lágrimas da grande Janeth, depois da heróica conquista do quarto lugar no Mundial disputado em São Paulo, apesar de toda a confusão e falta de estrutura que caracterizaram a história recente da modalidade.

Enfim, a democracia e o esporte no Brasil seguem por trajetórias muito diferentes, cada um numa direção. E por que a democracia deveria prevalecer no esporte, afinal de contas?

A essa pergunta, respondo, de forma nada original, lançando mão de uma citação de um dos maiores estadistas do século XX, o primeiro-ministro da Inglaterra, Winston Churchill: "A democracia é o pior de todos os regimes, com exceção de todos os outros que foram tentados de tempos em tempos".

 



 
 

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