| Fanáticos
e alienados
Luiz
Alberto Machado - 05/10/2006
Ao chegar à FAAP, na segunda-feira pela manhã, ainda envolvido pelo clima de expectativa
por conta do acompanhamento do noticiário sobre o resultado das eleições realizadas
na véspera, acabei presenciando um interessante diálogo entre dois alunos.
Devidamente
trajados com as camisas de seus times, os dois reclamavam da interrupção do Campeonato
Brasileiro por causa do "saco" da política. Este fato me levou a refletir sobre
o assunto e a compartilhar essa reflexão com os amigos internautas. De fato, o
último domingo, em razão das eleições gerais, deve ter sido frustrante para os
torcedores mais fanáticos, especialmente os "loucos por futebol", já que o Campeonato
Brasileiro não teve jogos marcados para esse dia.
E, para fanáticos como
esses, não importa se Schumacher deu mais um show ao conquistar sua 91ª vitória
no GP da China; ou se Alexandre Barros fez as pazes com a vitória correndo numa
nova categoria de motos; ou ainda se os campeões olímpicos Ricardo e Emanuel sagraram-se
campeões do mundo de vôlei de praia, mesmo conseguindo apenas o 4º lugar na etapa
de Vitória; ou mesmo se Rodrigo Pessoa conquistou o GP da Bélgica, um dos mais
importantes do circuito internacional, montando um cavalo diferente da sua montaria
tradicional, Baloubet du Rouet; também não importa se vários brasileiros deixaram
suas marcas nas redes do mundo todo, atuando por alguns dos mais importantes times
do "planeta futebol".
Para estes, o que conta é o desempenho do seu time
no campeonato do momento, que, diga-se de passagem, está chegando em sua fase
decisiva, na qual poucos disputam o título, muitos fazem contas para escapar do
rebaixamento, enquanto alguns apenas cumprem tabela, sem aspirar a muita coisa,
mas também sem correr riscos maiores.
Curioso é que para muitos desses
torcedores, pouco importa o que ocorre no cenário político. Tanto faz se a eleição
foi ou não um belo exercício democrático e se os resultados foram divulgados em
poucas horas após o fim da votação, num exemplo que causou admiração - positiva,
desta vez - no mundo todo. Uma pena, pois a falta de conscientização política
e, conseqüentemente, de ativa participação cidadã, é que explica - pelo menos
em parte - a recondução à Câmara e ao Senado de maus políticos, indivíduos que
vêm, há muito, denegrindo nossa imagem, rebaixando-nos perante os estrangeiros
e nos deixando, muitas vezes, com vergonha de ser brasileiros.
Obviamente,
esse tipo de alienação não é privilégio dessa camada da população, a dos "fanáticos
por futebol". Até porque, muitos - e eu me permito incluir nesse "muitos" - conciliam
as duas coisas, nutrindo simultaneamente interesse pelo futebol (e pelo esporte,
de forma geral) e pela situação política do País, procurando se informar da melhor
maneira possível para escolher representantes que não venham, depois, a provocar
profundo desgosto.
Este episódio me fez viajar no tempo, voltando aos
meus tempos de menino. Lembro-me que já gostava muito de futebol e colecionava
a Gazeta Esportiva Ilustrada, a maior revista de esportes da época. Muitos dos
meus ídolos de então, ao serem entrevistados, costumavam responder quando perguntados
sobre política da seguinte forma: "Política: não gosto e também não gosto de quem
gosta".
Eu achava isso o máximo. Afinal, meu mundo era uma bola e, como
muita criança, eu sonhava com o dia em que ia ser um craque e, ao ser entrevistado,
poderia responder daquela mesma forma. O tempo passou, tive oportunidade de estudar,
viajar, aprender e amadurecer. Vi como era infantil e limitada aquela visão. Tornei-me
um educador, que procura cada vez mais cumprir adequadamente o seu papel.
E
dentro desse papel, espaço fundamental cabe exatamente a essa formação das pessoas
para a cidadania. Fico imaginando como seria bom se esses torcedores tão fanáticos
pelos seus times mostrassem o mesmo interesse pela política...
Nossa,
estou viajando e fazendo uma generalização que não tem sentido algum! Afinal,
nos dias de hoje é preciso separar muito bem quem é torcedor, aquele indivíduo
que tem o hábito sadio de torcer por um determinado clube, e quem é bandido travestido
de torcedor, que usa o futebol como pretexto para cometer atos de violência, chegando
até tirar a vida de outras pessoas em brigas e batalhas previamente planejadas.
Não é esse tipo de gente que fez parte da minha reflexão, e sim a de milhares
de meninos e jovens que, tal como acontecia comigo na infância, acreditam que
o futebol é a coisa mais importante do mundo. Quanto a esses pseudotorcedores,
parte considerável dos quais faz parte de torcidas uniformizadas, considero-os
muito mais bandidos do que torcedores.
E, em minha opinião, assim como
alguns políticos comprovadamente envolvidos em corrupção, haveria um lugar muito
mais apropriado para eles do que as arquibancadas dos nossos estádios ou o plenário
do Congresso Nacional.
Tenho certeza de que o amigo internauta sabe que
lugar é esse!
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