Tenho 51 anos, sou economista pela Universidade Mackenzie (1977), com especialização em Desenvolvimento Latino Americano pela Boston University, em Criatividade pela Creative Education Foundation, em Aprendizagem Acelerada pela International Alliance for Learning e em Tecnologia Educacional pela FAAP.

Sou vice-diretor da Faculdade de Economia da FAAP e coordenador dos cursos in company da FAAP Pós-Graduação.

Sou também membro do Conselho do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial e do Conselho Superior da Ordem dos Economistas.

O que poucos sabem é que me tornei intelectual porque "esqueci de crescer", uma vez que até os 18 anos de idade, joguei basquete nas principais equipes de São Paulo, como Pinheiros, Sírio e Palmeiras, tendo integrado as seleções paulista e brasileira em diversas categorias menores.

Posteriormente, continuei jogando nas equipes principais do Pinheiros e do Paulistano. Atualmente, disputo campeonatos de veteranos pela equipe do Pinheiros, participando também de campeonatos brasileiros, pan-americanos e mundiais pelas seleções paulista e brasileira.

Apaixonado por esportes, é essa faceta que mostrarei nesta coluna, escrevendo sobre este assunto, mesclando comentários sobre as competições e seus bastidores, esclarecimentos sobre as diversas modalidades, resenhas dos livros que versam sobre o tema e procurando compartilhar lições aprendidas nas quadras esportivas que me têm sido extremamente úteis na vida profissional.














COMO O FUTEBOL EXPLICA O MUNDO


Luiz Alberto Machado - 11/10/2006

Quem leu meu último artigo deve, com razão, estar estranhando este título. Afinal, não haveria contradição maior do que se posicionar contra a alienação dos fanáticos por futebol numa semana e, na seguinte, dar um título desse a um artigo.

Mas não se trata disso. Minha loucura ainda não chegou a tanto. Este é o título de um livro publicado em 2005, cujo subtítulo é "um olhar inesperado sobre a globalização" (Jorge Zahar Editor, 223 páginas). Foi escrito por Franklin Foer, um jornalista político norte-americano da revista New Republic que foi gostar de futebol num país onde o interesse por ele sempre foi reduzido, razão pela qual raramente tinha acesso aos grandes jogos, ao vivo ou pela TV.

O que esperar de um livro sobre futebol em que o autor inicia o Prólogo afirmando que "No futebol, sou um perna de pau."?

É interessante conhecer o final desse início de Prólogo antes de seguir adiante:

 

Quando era garoto, meus pais ficavam de costas para o campo a fim de evitarem me ver jogar. Não os culpo. Só consegui dominar os fundamentos do jogo lentamente, depois de passar muitas temporadas correndo na direção oposta à da bola.

Crescendo num país onde as atenções estão muito mais voltadas para o futebol americano, o basquete, o basebol e o hóquei sobre patins, Foer não tinha muita chance de se espelhar nos maiores jogadores do mundo, como o faziam crianças de sua idade em boa parte do mundo. Primeiro porque não havia bons jogadores nos Estados Unidos; segundo porque, com exceção das Copas do Mundo, não havia transmissão dos jogos dos campeonatos da Europa ou da América do Sul. Assim, é mais do que compreensível que Foer afirme na continuação de seu Prólogo:

 

Apesar desses traumas, ou talvez em razão deles, meu amor pelo futebol transformou-se mais tarde numa coisa muito maluca. Eu tentava desesperadamente dominar o jogo que tinha sido fonte de tanta vergonha na minha infância. Como jamais conseguiria ganhar habilidade no esporte em si, só podia investir na segunda opção, que era tentar compreendê-lo em profundidade. Para um norte-americano, não era fácil. Durante minha infância, a TV pública reprisava irregularmente jogos da Alemanha e da Itália no horário dos televangelistas nas manhãs de domingo. Essas míseras reprises eram tudo de que se dispunha nos quatro anos que separavam as Copas do Mundo. E olhe lá.

Tendo crescido nessa situação, Foer viu com bons olhos a chegada da globalização, ou, pelo menos, de uma de suas conseqüências: a internacionalização das transmissões esportivas tanto pelos canais abertos, como, principalmente, pelos canais a cabo. Assim, a parte seguinte da declaração do autor no Prólogo de seu livro é:

 

Mas lentamente a tecnologia foi preenchendo as brechas. Primeiro, graças a Deus, veio a Internet, onde podia ler as páginas esportivas inglesas e seguir atentamente os jogadores que tinha conhecido na Copa do Mundo. Depois Rupert Murdoch, abençoado seja, criou um canal a cabo chamado Fox Sports, quase totalmente voltado ao futebol europeu e latino-americano. Agora, uma antena parabólica traz para a minha sala de estar o canal a cabo do Real Madrid, assim como jogos do Paraguai, Honduras, Holanda e França, sem falar em Brasil, Argentina e Inglaterra.

À medida que a tecnologia e a globalização ganhavam espaço - a rigor, a terceira revolução tecnológica, ligada à busca, processamento, difusão e transmissão de informações, à inteligência artificial e à engenharia genética é, a meu ver, um dos elementos constitutivos mais fortes da própria globalização - o tempo dedicado por Foer ao futebol também aumentava consideravelmente. Ao perceber que esses dois fenômenos estavam interligados e que poderiam ser tema de uma pesquisa de grande interesse e de um livro "que alguém precisava escrever", resolveu tirar uma folga de oito meses de seu emprego na revista New Republic e saiu viajando pelo mundo, assistindo a jogos, comparecendo a treinamentos, entrevistando seus heróis e tentando compreender as razões do fanatismo de torcedores de locais tão distantes e diferentes como Irã, Bósnia, Brasil ou Israel.

Em 2001, quando começou a trabalhar no livro, Foer já havia constatado que a interdependência dos mercados físicos e financeiros em escala planetária, outro dos elementos constitutivos da globalização, estava muito longe de se constituir em motivo de entusiasmo, nem entre as populações dos países desenvolvidos, nem, em especial, entre as dos subdesenvolvidos ou em desenvolvimento. De possível salvação do mundo, a globalização passou a ser vista como vilã, responsável por uma série de problemas que, se não criou, também não foi capaz de resolver. O livro "tenta usar a metáfora do futebol na abordagem de algumas questões incômodas relacionadas com esse fracasso: por que algumas nações permaneceram pobres, embora tenham sido alvo de tanto investimento estrangeiro? Que perigo representam as corporações multinacionais que tanto atraem a ira da esquerda?"

Depois de quase um ano viajando, convivendo diuturnamente com torcedores, treinadores, jogadores e estratégias do futebol, Foer produziu um livro instigante, que põe em xeque diversos mitos, "ao verificar que, em vez de destruir as culturas locais, como preconizava a esquerda, a globalização deu nova vida ao tribalismo, e que, longe de promover o triunfo do capitalismo apregoado pela direita, fortaleceu a corrupção".

Como o futebol explica o mundo está dividido em três partes: na primeira, centrada no fanatismo de torcedores, onde um capítulo sobre um hooligan sentimental é o maior destaque, Foer explica o fracasso da globalização em reduzir ódios antigos ainda presentes nas grandes rivalidades em torno do esporte; na segunda, em que faz uma incursão deliciosa pelos meandros da corrupção praticada por muitos cartolas brasileiros, o autor usa o futebol para abordar aspectos econômicos da globalização, tais como as migrações, a corrupção e a ascensão de novos oligarcas poderosos como a do empresário Silvio Berlusconi que, de presidente do Milan, chegou a primeiro-ministro da Itália; na terceira e última, perpassando sobre exemplos do separatismo catalão da região de Barcelona e das questões religiosas do Islã, Foer mostra como o futebol atua como válvula de defesa das virtudes do velho nacionalismo contra focos de retorno ao tribalismo.

Por todos esses motivos, recomendo vivamente a leitura deste livro, com a certeza de que o mesmo agradará não apenas aos amantes do futebol, mas também a todos aqueles que se interessam pelas grandes questões mundiais e que se cansaram das desgastadas e ideologizadas - à esquerda e à direita - análises deste fenômeno que provocou extraordinárias mudanças que foi o da globalização.

 





 
 

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