| COMO
O FUTEBOL EXPLICA O MUNDO
Luiz
Alberto Machado - 11/10/2006
Quem leu meu último artigo deve, com razão, estar estranhando este título. Afinal,
não haveria contradição maior do que se posicionar contra a alienação dos fanáticos
por futebol numa semana e, na seguinte, dar um título desse a um artigo.
Mas
não se trata disso. Minha loucura ainda não chegou a tanto. Este é o título de
um livro publicado em 2005, cujo subtítulo é "um olhar inesperado sobre a globalização"
(Jorge Zahar Editor, 223 páginas). Foi escrito por Franklin Foer, um jornalista
político norte-americano da revista New Republic que foi gostar de futebol num
país onde o interesse por ele sempre foi reduzido, razão pela qual raramente tinha
acesso aos grandes jogos, ao vivo ou pela TV.
O que esperar de um livro
sobre futebol em que o autor inicia o Prólogo afirmando que "No futebol, sou um
perna de pau."?
É interessante conhecer o final desse início de Prólogo
antes de seguir adiante:
| | Quando
era garoto, meus pais ficavam de costas para o campo a fim de evitarem me ver
jogar. Não os culpo. Só consegui dominar os fundamentos do jogo lentamente, depois
de passar muitas temporadas correndo na direção oposta à da bola. |
Crescendo num país onde as atenções estão muito mais voltadas para o futebol americano,
o basquete, o basebol e o hóquei sobre patins, Foer não tinha muita chance de
se espelhar nos maiores jogadores do mundo, como o faziam crianças de sua idade
em boa parte do mundo. Primeiro porque não havia bons jogadores nos Estados Unidos;
segundo porque, com exceção das Copas do Mundo, não havia transmissão dos jogos
dos campeonatos da Europa ou da América do Sul. Assim, é mais do que compreensível
que Foer afirme na continuação de seu Prólogo:
| | Apesar
desses traumas, ou talvez em razão deles, meu amor pelo futebol transformou-se
mais tarde numa coisa muito maluca. Eu tentava desesperadamente dominar o jogo
que tinha sido fonte de tanta vergonha na minha infância. Como jamais conseguiria
ganhar habilidade no esporte em si, só podia investir na segunda opção, que era
tentar compreendê-lo em profundidade. Para um norte-americano, não era fácil.
Durante minha infância, a TV pública reprisava irregularmente jogos da Alemanha
e da Itália no horário dos televangelistas nas manhãs de domingo. Essas míseras
reprises eram tudo de que se dispunha nos quatro anos que separavam as Copas do
Mundo. E olhe lá. |
Tendo
crescido nessa situação, Foer viu com bons olhos a chegada da globalização, ou,
pelo menos, de uma de suas conseqüências: a internacionalização das transmissões
esportivas tanto pelos canais abertos, como, principalmente, pelos canais a cabo.
Assim, a parte seguinte da declaração do autor no Prólogo de seu livro é:
| | Mas
lentamente a tecnologia foi preenchendo as brechas. Primeiro, graças a Deus, veio
a Internet, onde podia ler as páginas esportivas inglesas e seguir atentamente
os jogadores que tinha conhecido na Copa do Mundo. Depois Rupert Murdoch, abençoado
seja, criou um canal a cabo chamado Fox Sports, quase totalmente voltado ao futebol
europeu e latino-americano. Agora, uma antena parabólica traz para a minha sala
de estar o canal a cabo do Real Madrid, assim como jogos do Paraguai, Honduras,
Holanda e França, sem falar em Brasil, Argentina e Inglaterra. |
À medida que a tecnologia e a globalização ganhavam espaço - a rigor, a terceira
revolução tecnológica, ligada à busca, processamento, difusão e transmissão de
informações, à inteligência artificial e à engenharia genética é, a meu ver, um
dos elementos constitutivos mais fortes da própria globalização - o tempo dedicado
por Foer ao futebol também aumentava consideravelmente. Ao perceber que esses
dois fenômenos estavam interligados e que poderiam ser tema de uma pesquisa de
grande interesse e de um livro "que alguém precisava escrever", resolveu tirar
uma folga de oito meses de seu emprego na revista New Republic e saiu viajando
pelo mundo, assistindo a jogos, comparecendo a treinamentos, entrevistando seus
heróis e tentando compreender as razões do fanatismo de torcedores de locais tão
distantes e diferentes como Irã, Bósnia, Brasil ou Israel.
Em 2001, quando
começou a trabalhar no livro, Foer já havia constatado que a interdependência
dos mercados físicos e financeiros em escala planetária, outro dos elementos constitutivos
da globalização, estava muito longe de se constituir em motivo de entusiasmo,
nem entre as populações dos países desenvolvidos, nem, em especial, entre as dos
subdesenvolvidos ou em desenvolvimento. De possível salvação do mundo, a globalização
passou a ser vista como vilã, responsável por uma série de problemas que, se não
criou, também não foi capaz de resolver. O livro "tenta usar a metáfora do futebol
na abordagem de algumas questões incômodas relacionadas com esse fracasso: por
que algumas nações permaneceram pobres, embora tenham sido alvo de tanto investimento
estrangeiro? Que perigo representam as corporações multinacionais que tanto atraem
a ira da esquerda?"
Depois de quase um ano viajando, convivendo diuturnamente
com torcedores, treinadores, jogadores e estratégias do futebol, Foer produziu
um livro instigante, que põe em xeque diversos mitos, "ao verificar que, em vez
de destruir as culturas locais, como preconizava a esquerda, a globalização deu
nova vida ao tribalismo, e que, longe de promover o triunfo do capitalismo apregoado
pela direita, fortaleceu a corrupção".
Como o futebol explica o mundo
está dividido em três partes: na primeira, centrada no fanatismo de torcedores,
onde um capítulo sobre um hooligan sentimental é o maior destaque, Foer explica
o fracasso da globalização em reduzir ódios antigos ainda presentes nas grandes
rivalidades em torno do esporte; na segunda, em que faz uma incursão deliciosa
pelos meandros da corrupção praticada por muitos cartolas brasileiros, o autor
usa o futebol para abordar aspectos econômicos da globalização, tais como as migrações,
a corrupção e a ascensão de novos oligarcas poderosos como a do empresário Silvio
Berlusconi que, de presidente do Milan, chegou a primeiro-ministro da Itália;
na terceira e última, perpassando sobre exemplos do separatismo catalão da região
de Barcelona e das questões religiosas do Islã, Foer mostra como o futebol atua
como válvula de defesa das virtudes do velho nacionalismo contra focos de retorno
ao tribalismo.
Por todos esses motivos, recomendo vivamente a leitura
deste livro, com a certeza de que o mesmo agradará não apenas aos amantes do futebol,
mas também a todos aqueles que se interessam pelas grandes questões mundiais e
que se cansaram das desgastadas e ideologizadas - à esquerda e à direita - análises
deste fenômeno que provocou extraordinárias mudanças que foi o da globalização.
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