| O
sucesso não ocorre por acaso
Luiz
Alberto Machado - 12/01/2007
O título deste artigo é o mesmo do de um dos maiores best-sellers do Dr. Lair
Ribeiro, um do mais bem sucedidos autores brasileiros dos últimos tempos. Mas
não é a esse livro que vou tratar no artigo, e sim ao extraordinário sucesso alcançado
pelo voleibol brasileiro a partir da década de 90 e, principalmente nos primeiros
anos da primeira década deste novo século. Quer na quadra, quer na praia, tanto
no masculino como no feminino, o vôlei brasileiro transformou-se num verdadeiro
papão dos principais títulos disputados, incluindo campeonatos mundiais, ligas
mundiais e jogos olímpicos.
Evidentemente, um fator que contribuiu bastante
para isso foi a excepcional qualidade de algumas safras de jogadores e jogadoras,
bem como de técnicos extremamente competentes, cujos nomes mais conhecidos são
os de Bernardinho e José Roberto Guimarães.
A ótima qualidade de atletas
e técnicos, porém, não seria suficiente para que atingíssemos o patamar em que
nos encontramos se não houvesse, por trás, uma sólida base representada por um
árduo e contínuo trabalho levado a cabo pelos responsáveis pela organização do
nosso voleibol. Esse trabalho, iniciado em 1975, quando Carlos Arthur Nuzman assumiu
a presidência da Confederação Brasileira de Voleibol - CBV, e que teve continuidade
com o atual presidente Ary Graça Filho, que assumiu a presidência em 1996, está
muito bem descrito no livro Estratégia Empresarial, que tem por
subtítulo Modelo de gestão vitorioso e inovador da Confederação Brasileira
de Voleibol. (São Paulo: M. Books do Brasil Editora, 2006)
Escrito
em parceria por um professor da FGV-RJ, Istvan Karoly Kasznar, e pelo atual presidente
da Confederação Brasileira de Voleibol - CBV, Ary S. Graça Fº, o livro revela
que as conquistas que se tornaram rotina de uns anos para cá e que levaram o técnico
da seleção polonesa derrotada na final do último Campeonato Mundial, o argentino
Raul Lozano, a declarar que aquele era "o melhor time que o mundo já viu", estão
muito longe de serem obtidas por acaso ou por uma feliz confluência dos astros. O
amigo internauta que se interessar pela leitura do livro deve estar ciente, antes
de tudo, que vai se deparar com um texto sobre estratégia gerencial e não com
um relato das fantásticas jogadas de Giba, Ricardinho, Giovane, Gustavo e companhia.
Tanto é verdade que o livro é encontrado, nas livrarias, na seção de administração
e negócios, e não na de esportes. Portanto, quem se animar a ler o referido livro,
coisa que recomendo enfaticamente, verá que o trabalho desenvolvido na CBV tem
por base alguns dos mais sólidos fundamentos teóricos buscados nas ciências administrativas
e econômicas. Ao longo do texto, o leitor irá se defrontar, alternadamente, com
filósofos destacados como Kant, Mandeville, Descartes e Ortega y Gasset, com nomes
de grandes gurus, que estão - ou estiveram - entre os mais requisitados conferencistas
de todo o mundo para congressos de gestão empresarial, entre os quais Michael
Porter, W. E. Deming e Kenneth Arrow, bem como com conceitos consagrados, tais
como zero defeito, qualidade total, balanced scorecard (BSC), team-building
e outros.
O mais interessante, em minha opinião, é que esses conceitos
gerais foram adaptados à nossa realidade, dando origem a uma série de planos estratégicos
que possuem denominação, metodologia e formas de execução próprias. O voleibol
brasileiro vem sendo objeto de uma gestão estratégica comandada pelo presidente
da entidade a partir de métodos e princípios claramente definidos e seu gerenciamento
está subdividido em cinco unidades estratégicas de negócio (UEN): UCN - Unidade
de Competições Nacionais; USE - Unidade de Seleções; UEV - Unidade de Eventos;
UVP - Unidade Vôlei de Praia; e UVV - Unidade VivaVôlei.
Com isso, cada
pessoa componente da estrutura tem noção exata de suas atribuições e responsabilidades
e sabe perfeitamente da importância de sua contribuição para o êxito do trabalho
como um todo. Tendo chegado ao topo, principalmente no masculino, o grande desafio
agora é o de permanecer no ponto mais alto. E isso não será fácil. Afinal, todos
os adversários querem tirar uma casquinha quando jogam com a nossa seleção. Como
está escrito num dos boletins da CBV, "são todos conta o Brasil". Tal dificuldade,
porém, está prevista na estratégia definida tempos atrás pela CBV (bem antes,
portanto, de termos chegado aonde chegamos). Tal tecnologia diretiva e estratégica,
que pode ser assemelhada e compartilhada com o mundo empresarial, "foi pensada,
moldada, modelada, testada e posta a serviço, podendo ser aplicada em todas as
empresas que ambicionem a Arquiexcelência". (p. 87)
| | | Este
termo, Arquiexcelência, foi cunhado para designar um estágio tão avançado de excelência,
de supremacia e de avanço tecnológico em seu setor, que além de referência para
todos, é referência para si mesmo. Contudo, olhando-se e respeitando-se os concorrentes.
A distância que separa o melhor do segundo posicionado é tão grande que o melhor
é dominante e está isolado, sem ver sequer ameaças em quem possa competir com
ele.
A Arquiexcelência é uma suprameta, que pode e deve ser almejada e
alcançada por todos os que queiram estabelecer o máximo bem estar para si, uma
empresa, uma comunidade ou a favor da humanidade.
Enfatiza-se, contudo,
que assim como é fácil cair do topo, também, quanto mais alto é o pico da montanha
maior é a queda potencial. Então, é de bom alvitre estabelecer objetivos factíveis
e realizáveis, calibrando os interesses e as capacitações de todos os agentes,
antes que sejam dados saltos que impliquem em movimentos de alto risco, com efeitos
danosos e não desejáveis.
Ademais, ao atingir-se a Arquiexcelência, por
ser a empresa ou o projeto vencedor único em seu setor e no mundo, surgem potenciais
problemas de ego que merecem ser bem controlados e monitorados. Nesta altura,
pelas suas superações, a empresa é referência (benchmark) para si mesma.
Logo, ela passa a beber da própria fonte. E, ao ver refletida na água a sua imagem,
pode achá-la bela e insuplantável. Aí reside o maior perigo da evolução, que já
afogou Narciso, com sua vaidade e orgulho de se achar belo demais. (pp. 87 - 88) |
Depois dessa reprodução de apenas um dos elementos constitutivos da vitoriosa
estratégia do nosso vôlei, só me resta concluir o presente artigo lamentando que
o exemplo do voleibol não seja seguido nas outras modalidades esportivas, cuja
gestão, na esmagadora maioria, revela uma incompetência pura e simplesmente assustadora.
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