| Enfim
o equilíbrio?
Luiz
Alberto Machado - 23/04/2007
Meu primeiro artigo para esta coluna foi uma verdadeira
declaração de amor ao esporte. Expus, com toda a sinceridade possível, minha condição
de torcedor fanático, bem do tipo daquele que é satirizado por Maria Cristina
Von Atzingen e Helena Perim Costa no delicioso livro Caçando príncipes e engolindo sapos,
no capítulo “O Esportista”. É verdade, sou daqueles que gosta de quase todas as
modalidades, a ponto de provocar, não raras vezes, a ira da minha mulher e a gozação
de alguns amigos. Mas confesso que mesmo sendo um fanático assumido, estava
ficando cada vez mais difícil varar madrugadas ou acordar bem cedo nos domingos
para ver os grandes prêmios da Fórmula 1. Nos últimos 15 anos, com raras exceções,
os campeonatos não ofereceram a menor graça, quer pela superioridade absoluta
de algum piloto, quer pela superioridade absoluta de algum carro. Ou mesmo, pela
combinação das duas coisas. Nesse sentido, depois que os brasileiros passaram a
acompanhar com vivo interesse as transmissões da Fórmula 1, no início dos anos
70, graças à participação de Emerson Fittipaldi, é possível destacar dois momentos
claramente distintos. O primeiro, que vai até o final dos anos 80, caracterizado
por acentuado equilíbrio e pela existência de diversos pilotos com reais possibilidades
de vencer as corridas e disputar os títulos de cada temporada. Mesmo que houvesse
favoritos – e sempre havia – a chance de uma surpresa era muito grande e o favoritismo
dificilmente pertencia a um só piloto ou a uma só escuderia. O segundo, que perdurou
pelos anos 90 e se estendeu pela primeira década do novo século, caracterizou-se
pelo predomínio absoluto de um piloto ou de uma única equipe, ocasiões em que
a disputa se limitava exclusivamente aos pilotos da mesma. Convenhamos, uma coisa
muito chata para se acompanhar, já que praticamente não havia competição, que
é a própria razão de ser do esporte. Tomando por base os pilotos brasileiros mais destacados,
seria possível afirmar que são exemplos do primeiro momento os campeonatos disputados
por Emerson Fittipaldi, José Carlos Pacce e Nelson Piquet.
Ayrton Senna viveu essa fase em seus primeiros anos de Fórmula 1, sendo depois
um dos maiores exemplos do segundo momento aqui focalizado. Rubens Barrichello
participou, quase sempre como coadjuvante, do segundo momento que, espero, esteja
chegando ao fim este ano. Só pra refrescar a memória, como era bom levantar cedo
e torcer para Emerson ou Piquet, sabendo que a vitória de qualquer um deles seria,
quase sempre, disputada palmo a palmo, primeiro com Jochen Rindt, Jackie Stewart, Jacky Ickx, Chris Amon, Jean Pierre Beltoise, François Cevert, Clay Regazzonni, Ronnie Peterson, Carlos Reutemann
e outros quase da mesma categoria, depois com Niky Lauda,
Keke Rosberg, Nigel Mansel, Jacques Laffite e Alain
Prost. Além da disputa dos pilotos, via-se uma acirrada concorrência entre várias
escuderias, como Lotus, BRM, Matra, Brabham, Tyrrell, Ferrari, McLaren, Williams, sem contar as disputas
de motores e pneus. A fase seguinte foi marcada pela supremacia absoluta
de escuderias e/ou pilotos, sendo possível identificar
as fases da McLaren, Williams e Ferrari, esporadicamente quebradas pela Benetton,
com Schumacher em 1994 e 1995, e pela Renault, com Fernando Alonso em 2005 e 2006.
Esses anos foram marcados pela ampla superioridade de Alain Prost, Ayrton Senna
e, mais recentemente, Michael Schumacher, detentor, disparado, de quase todos
os recordes da Fórmula 1. Por tudo isso, é muito bom ver que o campeonato deste
ano começa revelando elevado grau de competitividade. Ainda que duas equipes se
destaquem claramente em relação às demais – McLaren e Ferrari
– a BMW vem apresentando bom desempenho nas primeiras corridas e seu piloto
Nick Heidfeld, com 15 pontos,
está, depois de três corridas, a apenas dois pontos de Felipe Massa, que tem 17,
e a sete dos líderes, Fernando Alonso, Kimi Räykkönen
e Lewis Hamilton, que têm 22. Para se ter uma idéia do que isso significa, basta lembrar
que só na sua primeira temporada, em 1950, três pilotos não dividiam a primeira
colocação ao final das três primeiras corridas. Torcida pelo Massa à parte,
tomara que o equilíbrio persista por toda a temporada. Assim vai voltar a valer
a pena acordar cedo aos domingos, sem a sensação de estar assistindo a uma corrida
de autorama ou, talvez ainda pior, a uma competição da qual já se sabe, de antemão,
quem será o vencedor. |