Tenho 51 anos, sou economista pela Universidade Mackenzie (1977), com especialização em Desenvolvimento Latino Americano pela Boston University, em Criatividade pela Creative Education Foundation, em Aprendizagem Acelerada pela International Alliance for Learning e em Tecnologia Educacional pela FAAP.

Sou vice-diretor da Faculdade de Economia da FAAP e coordenador dos cursos in company da FAAP Pós-Graduação.

Sou também membro do Conselho do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial e do Conselho Superior da Ordem dos Economistas.

O que poucos sabem é que me tornei intelectual porque "esqueci de crescer", uma vez que até os 18 anos de idade, joguei basquete nas principais equipes de São Paulo, como Pinheiros, Sírio e Palmeiras, tendo integrado as seleções paulista e brasileira em diversas categorias menores.

Posteriormente, continuei jogando nas equipes principais do Pinheiros e do Paulistano. Atualmente, disputo campeonatos de veteranos pela equipe do Pinheiros, participando também de campeonatos brasileiros, pan-americanos e mundiais pelas seleções paulista e brasileira.

Apaixonado por esportes, é essa faceta que mostrarei nesta coluna, escrevendo sobre este assunto, mesclando comentários sobre as competições e seus bastidores, esclarecimentos sobre as diversas modalidades, resenhas dos livros que versam sobre o tema e procurando compartilhar lições aprendidas nas quadras esportivas que me têm sido extremamente úteis na vida profissional.













Da vida para as quadras e das quadras para a vida


Luiz Alberto Machado - 24/01/2007

 

Em sua edição da última sexta-feira, dia 19 de janeiro, a Folha de S. Paulo publicou interessante matéria sobre a experiência de Gary Boren, um analista financeiro que, aos 53 anos, inconformado com o fato de que profissionais da NBA, que ganham salários milionários, erravam lances livres com tanta freqüência, decidiu iniciar seus treinos para entender melhor a mecânica deste tipo de jogada que, de certa forma, assemelha-se ao pênalti no futebol. Hoje, aos 67 anos, ele brilha como único técnico de lance livre da NBA, tendo já atuado como consultor para mais de 46 equipes.

Na referida matéria, Boren contou que em 1992 deixou por 13 meses seu escritório no Equity Group para se dedicar aos treinos. "Eu decidi que chutaria lances livres até acertar a cesta 500 vezes por dia. Cheguei a fazer mais de mil arremessos", afirma. "No final desse período, eu sabia muito de lance livre. Decidi então passar o conhecimento adiante, procurando um técnico profissional", conclui.

No trabalho que vem desenvolvendo, Boren combina uma parte que envolve a mecânica do arremesso com outra voltada para o cérebro dos atletas, já que segundo ele, o lance livre é uma guerra entre a mente e o corpo, cabendo a ele fazer ver a seus pupilos que a primeira deve prevalecer. "No arremesso, o cérebro sabe o que fazer. Mas os músculos não obedecem. No lance livre, os atletas ficam calmos porque acham que vão acertar, porque a cabeça conhece o movimento. Aí fazem besteira".

Trata-se, portanto, de um caso típico de quem levou a disciplina e o conhecimento de executivo financeiro para as quadras de basquete.

Em minha síntese curricular desta coluna, menciono, com orgulho, o fato de defender a seleção brasileira de basquete nos campeonatos pan-americanos e mundiais de veteranos que são realizados, alternadamente, todos os anos. Em 2006, em razão de problemas físicos e de afazeres profissionais, não pude participar da quarta edição do Campeonato Pan-Americano, disputado em abril, no Guarujá. Mas, a pedido de José Luiz Coimbra de Melo, o Iso, grande incentivador do basquete e criador da AVEBESP - Associação dos Veteranos de Basquete do Estado de São Paulo, escrevi, juntamente com o presidente da Brasilprev, Eduardo Bom Ângelo, um artigo para a revista Cesta, publicada pela referida Associação. É este artigo que reproduzo nesta semana, falando sobre as lições aprendidas nas quadras que nos têm sido muito úteis em nossas carreiras profissionais.

Conhecemo-nos nas quadras de basquete, onde fomos adversários por diversas vezes, primeiro jogando por clubes diferentes nas categorias menores e, mais tarde, por atléticas de faculdades diferentes. Apesar de rivais dentro das quadras, fomos nos tornando amigos fora delas. E essa amizade foi se estreitando à medida que nossos caminhos foram se cruzando em nossas trajetórias profissionais e nas arquibancadas do Parque Antártica ou de outros estádios em que atuava o "glorioso" Verdão.

Em diversas oportunidades, nos cursos e congressos de que tivemos oportunidade de participar, conversávamos a respeito de temas de interesse comum. Dessas conversas faziam parte, invariavelmente, o Palmeiras, a NBA e a conjuntura econômica, além de detalhes de nossos respectivos trabalhos.

Numa dessas conversas veio à tona um dos livros de Bill Bradley, senador eleito sucessivas vezes pelo estado de New Jersey e que se tornou mais conhecido no Brasil ao ser derrotado na disputa à candidatura para presidente dos Estados Unidos pelo Partido Democrata, nas eleições de 2000.

The Values of the Game é o quarto livro de Bill Bradley. O que muita gente não sabe é que Bill Bradley, graduado na Universidade de Princeton, professor visitante das Universidades de Stanford, Maryland e Notre Dame, foi um excelente jogador de basquete, tendo sido o capitão da seleção americana de basquete na conquista da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 1964, e campeão da NBA em 1970 e 1973 pelo New York Knicks.

Como não poderia deixar de ser, o referido livro logo chamou nossa atenção. Afinal, somos dois ex-jogadores e fãs assumidos de basquete: "We love this game", numa adaptação do slogan das campanhas publicitárias da NBA.

O livro, lançado em 1998, relata a passagem de onze anos do autor pela NBA e a influência deste período em sua vida. Coincidentemente, a exemplo do que fez o senador Bill Bradley, nós também temos procurado aplicar em nossas vidas profissionais uma série de lições aprendidas e vivenciadas nas quadras esportivas. O basquete, enquanto esporte coletivo, é rico em lições que se podem traduzir na construção da trajetória profissional. Os valores que se seguem são alguns dos que têm pautado nossa carreira profissional e que gostaríamos de compartilhar com os amigos internautas leitores desta coluna, independentemente de serem ou não apreciadores do basquete, uma vez que os valores que se seguem podem ser fundamentais em qualquer tipo de trabalho, seja ele profissional, seja voluntário.

1) Paixão - Envolver-se com a sua atividade, colocar emoção naquilo que se faz, é o primeiro passo para ser bem sucedido. Nada como sentir, no exercício da atividade profissional, a mesma sensação de suor nas mãos ou de friozinho na barriga dos momentos que antecedem qualquer jogo.

2) Disciplina - Treinar, treinar, treinar!!! Estar bem preparado é fundamental para a boa performance no momento do jogo. Na vida profissional o verbo é estudar, reciclar, aprimorar seus fundamentos. Não tenha medo de perguntar para quem sabe mais.

3) Desprendimento - No basquete quem faz o passe é tão importante quanto quem faz a cesta. A equipe de trabalho equilibrada é aquela que tem bons arremessadores convivendo em harmonia com bons armadores e bons reboteiros. Todos juntos, pensando e fazendo o possível para obter a vitória, respeitando as diferenças individuais e valorizando as habilidades de cada um.

4) Respeito - Agir de acordo com as regras do jogo, atuar com ética, não menosprezar o adversário. Quando você respeita os outros, acima de tudo você está respeitando a si mesmo.

5) Perspectiva - Por ser um jogo que pode ser decidido nos segundos finais, o basquete mostra quão tênue é a linha divisória entre a vitória e a derrota. Desenvolver esta percepção é um bom caminho para o autoconhecimento.

6) Coragem - Todo jogador deve estar mentalizado para vencer. Ao arremessar para a cesta, deve fazê-lo com a convicção de que vai acertar, não hesitando quando a oportunidade surgir. Este aspecto, muitas vezes, é o que distingue equipes vencedoras de equipes apenas boas... Nas primeiras, os jogadores estão preparados para assumir o risco do arremesso decisivo. Nas segundas, os jogadores estão preparados para não errar, mas na hora do "vamos ver", preferem passar a bola. Podem até não errar o passe, porém o time perde o jogo, porque não tem aquele jogador capaz de chamar para si a responsabilidade do arremesso decisivo. Da mesma maneira, existem equipes de trabalho que apenas cumprem tabela, fazendo burocraticamente as suas tarefas; assim como existem aquelas que se superam, logo sendo identificadas como equipes vencedoras.

7) Persistência - No basquete, assim como na vida profissional, o processo de tomada de decisões é muito rápido. A bola quase perdida pode transformar-se em pontos decisivos. Marcar bem, roubar uma bola ou dar um toco pode valer tanto quando fazer uma cesta. Nunca desista.

8) Responsabilidade - Seu trabalho é muito importante para o desempenho da equipe. Concentre-se para fazer bem feito na primeira vez. O dever do técnico, por sua vez, é definir claramente o que espera de cada jogador. O paralelo com o ambiente empresarial é perfeito.

9) Resistência - A vida é bela, mas é dura também. Saber lidar com a adversidade é desenvolver a capacidade de aprender com os erros e derrotas. Transformar dificuldades em oportunidades de aprendizado e de negócios.

10) Imaginação - Inovação e criatividade são irmãs gêmeas no basquete. O jogo permite variações quase ilimitadas. Trazer este espírito para a atividade profissional é ser capaz de reinventar, sonhar, olhar para o futuro. Lamentavelmente, o que temos observado em muitas empresas e instituições é a manutenção de práticas que deram certo no passado, gestores que administram com o olho no retrovisor.

11) Liderança - Significa levar as pessoas a pensar, acreditar, ver e fazer o que possivelmente não fariam sem você. Pode aparecer num discurso para centenas de pessoas, num diálogo, ou ainda num simples gesto. Significa jamais conjugar "Eu ganhei, nós empatamos, eles perderam".

A leitura de The values of the game teve efeito semelhante em nossas vidas, reforçando nossa regra de ouro: fazer o que gosta; fazer com foco e energia; se não estiver se divertindo, repense ou mude, deve estar fazendo errado.

 

 





 
 

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