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O
fim de uma hegemonia?
Luiz
Alberto Machado - 26/09/2006
Em menos de um mês as seleções de basquete dos Estados Unidos, masculina e feminina,
furaram as previsões da esmagadora maioria dos analistas, deixando de conquistar
os títulos mundiais, respectivamente no Japão e no Brasil, embora fossem consideradas
amplamente favoritas.
Nos dois campeonatos, as seleções norte-americanas
conquistaram o terceiro lugar, vencendo a Argentina no masculino, e o Brasil no
feminino. Diante desses resultados surgiu a inevitável pergunta: chegou ao fim
a hegemonia dos Estados Unidos na modalidade? Minha opinião é de que não, embora
a distância que separa o basquete norte-americano dos demais seja hoje muito menor
do que o era até alguns anos atrás.
A resposta, no entanto, precisa separar
o masculino do feminino. No feminino a hegemonia norte-americana, que foi absoluta
nos últimos 12 anos, jamais foi tão clara como no masculino. A rigor, a seleção
dos Estados Unidos só se firmou como a melhor do mundo nos anos 90, pois antes
disso a supremacia esteve com a União Soviética, que venceu os Campeonatos Mundiais
de 1959, 1964, 1967, 1971 e 1975, perdendo para os Estados Unidos em 1979, mas
voltando a vencer em 1983.
Parte dessa hegemonia deveu-se à enorme vantagem
que levava em relação às suas adversárias por contar em suas fileiras com a gigante
Uliana Semenova, uma pivô de 2,09m que nenhuma outra seleção conseguia neutralizar
adequadamente. Com ela na equipe, as soviéticas venceram todas as principais competições
internacionais, como os Jogos Olímpicos e os campeonatos mundiais.
As
coisas começaram a mudar com o fim da carreira de Semenova, que nunca teve uma
substituta à altura. Paralelamente a isso, o desmembramento da União Soviética
também contribuiu para o enfraquecimento daquela que era a maior potência até
então. A criação da WNBA, a versão feminina da famosa liga profissional masculina,
foi fator decisivo para consolidar a liderança dos Estados Unidos. Ocorre, no
entanto, que, ao contrário do que ocorreu na liga masculina, em que a entrada
de estrangeiros demorou muito a acontecer, na liga feminina jogadoras de diversos
países surgiram logo nos primeiros anos, favorecendo um equilíbrio maior entre
os países.
A par disso, a existência de jogadoras excepcionais em outros
países, como Hortência e Paula no Brasil, e agora Lauren Jackson e Penelope Taylor
na Austrália, permitiram que essas seleções interrompessem a série de vitórias
das americanas. Entretanto, a derrota da seleção dos Estados Unidos para as russas
na semifinal do mundial disputado em São Paulo foi, a meu juízo, um acidente,
provocado provavelmente pelo excesso de confiança das norte-americanas que já
haviam vencido as mesmas adversárias na primeira fase por uma confortável vantagem.
A facilidade com que derrotaram as brasileiras na disputa do terceiro
lugar foi mais uma prova de sua superioridade, uma vez que dois dias antes, na
sua semifinal, as brasileiras deixaram escapar ótima oportunidade de vitória contra
a Austrália, futura campeã. No masculino, porém, as decepções vêm se repetindo
com muito mais freqüência, sugerindo que a liderança dos Estados Unidos já não
existe.
Essas decepções tiveram início em 1972, em Munique, quando os
norte-americanos sofreram sua primeira derrota em Jogos Olímpicos, a única competição
às quais eles compareciam com a melhor - e mais treinada - seleção universitária.
Pelas regras da FIBA, os jogadores da liga profissional não podiam disputar as
competições consideradas amadoras.
A segunda grande decepção veio em 1987,
quando os Estados Unidos montaram uma forte seleção para disputar os Jogos Pan-Americanos
disputados em Indianápolis. A surpreendente derrota para o Brasil, na histórica
final em que Oscar, Marcel e companhia só faltaram fazer chover, deu início a
uma grande reviravolta. Com a nova derrota, desta vez para os iugoslavos, nos
Jogos Olímpicos de 1988, os Estados Unidos conseguiram uma mudança nas regras
da FIBA que passou a permitir, a partir dos Jogos de Barcelona, em 1992, a participação
dos profissionais.
O que se viu em Barcelona foi um verdadeiro show. Com
uma constelação que reunia as maiores estrelas da NBA, os Estados Unidos montaram
o lendário Dream Team, com Michael Jordan, Magic Johnson, Larry Bird, Pat Erwing,
Karl Malone, Charles Barkley, Scottie Pipen, Clyde Drexler, Chris Mullin, David
Robinson (que havia integrado a equipe derrotada pelo Brasil no Pan-Americano
de 1987), John Stockton e Christian Laettner (o único universitário do grupo).
Apesar do pouco treino, as partidas foram verdadeiros passeios e todos
os jogos terminaram com uma vantagem mínima de aproximadamente 30 pontos. Previsões
feitas na época sugeriam que a diferença que separava a seleção norte-americana
das demais seleções garantiria folgadas vantagens por pelo menos mais uns vinte
anos. A realidade, porém, foi bem diferente. Ao contrário do que se imaginava,
as competições seguintes estiveram longe de confirmar tal favoritismo.
Os Estados Unidos conquistaram ainda a medalha de ouro em 1996, nos Jogos de Atlanta,
e em 2000, em Sidney, sendo que esta última já com grande dificuldade. Embora
as seleções fossem chamadas de Dream Team 2 e 3, a verdade é que jamais os Estados
Unidos conseguiram formar uma equipe que fosse sequer uma lembrança da de 1992.
Daí para a frente, só grandes decepções. Primeiro no Mundial de 2002, novamente
disputados em Indianápolis. Mesmo com uma seleção que contava com alguns famosos
jogadores da NBA, os norte-americanos tiveram que engolir um amargo sexto lugar.
Humilhados, resolveram montar uma equipe mais forte para recupera a hegemonia
nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004. Nova decepção. Os argentinos conquistaram
a medalha de ouro disputando a final contra a Itália, depois de incontestável
vitória sobre os norte-americanos na semifinal. Cansados de tantas derrotas, os
Estados Unidos decidiram se preparar melhor e montar um grupo poderoso para um
ciclo que se iniciaria com o Mundial do Japão e se estenderia até os Jogos Olímpicos
de 2008 a serem disputados em Pequim.
A ausência de alguns jogadores fundamentais,
motivada por contusões, problemas pessoais ou desinteresse em disputar um torneio
que não tem a mesma repercussão do campeonato da NBA, já provocou mais uma decepção:
mesmo sendo considerada favorita, a seleção obteve apenas o terceiro lugar, a
duras penas, no Japão, depois de ser surpreendida pela Grécia na semifinal.
Restou,
uma vez mais, a sensação de que embora ainda sejam os melhores, ficou faltando
alguma coisa para a vitória. Mas essa nova decepção deixou uma certeza. Para reconquistar
a hegemonia, não bastará reunir apenas alguns dos mais destacados astros da NBA.
De agora em diante, vai ser necessário juntar todos os melhores e, além disso,
será preciso muito treino. Se isso for feito, provavelmente os norte-americanos
mostrarão que continuam na liderança.
Com que vantagem? E até quando?
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