| LÁGRIMAS:
DE ALEGRIA E DE TRISTEZA
Luiz
Alberto Machado - 26/10/2006
Dois momentos me marcaram nas
transmissões esportivas das últimas semanas. Em ambas, cheguei a me emocionar,
ainda que sem chegar às lágrimas. Mas conheço gente - em bom número - que chegou
a vertê-las.
Começo pela mais recente.
Aconteceu no domingo, dia
22, logo após a vitória de Felipe Massa no GP do Brasil de Fórmula 1. Ainda que
as maiores atenções, no mundo todo, estivessem voltadas para a disputa do título
da temporada entre o espanhol Fernando Alonso (que acabou conquistando o bicampeonato)
e o alemão Michael Schumacher (que fazia em Interlagos a última corrida de sua
brilhante carreira), para nós, brasileiros, o que valeu mesmo foi a segunda vitória
do nosso jovem piloto em sua primeira temporada na Ferrari.
Assim que
Massa cruzou a linha de chegada, a Rede Globo, que detém a exclusividade da transmissão,
soltou a música Tema da vitória, magistral criação de Eduardo Souto Neto que ficou
indelevelmente associada à imagem de Ayrton Senna. Quando Massa parou o carro
e pegou uma bandeira do Brasil para a volta de comemoração, repetindo gesto característico
de Senna, a emoção aflorou, principalmente a do narrador Galvão Bueno, que era
grande amigo do falecido campeão.
Sei que Galvão Bueno é muito criticado
por seu excesso de fanatismo, confundindo muitas vezes a condição de narrador
com a de torcedor. Mas não se pode deixar de reconhecer nele a figura de um ser
humano que, além de entusiasta do esporte é, como qualquer um de nós, alguém constituído
de carne, osso, sentimentos e emoções, que explodem quando algo ou alguém que
nos é muito querido nos vem à memória.
A emoção extravasada por Galvão
Bueno fez com que muitos - centenas, milhares, milhões? - telespectadores também
se emocionassem, muitos dos quais por relembrarem das fantásticas manhãs de domingo
em que Ayrton Senna nos enchia de orgulho de sermos brasileiros.
Vale
aqui um registro. Senna, na verdade, deu seqüência a uma sucessão de pilotos brasileiros
que se destacaram no ultracompetitivo mundo da Fórmula 1, iniciada com Emerson
Fittipaldi e continuada com José Carlos Pacce, Nelson Piquet, Rubens Barricchelo
e, agora, Felipe Massa. Trata-se de um caso único, em se tratando de um país que
não está entre o grupo dos chamados desenvolvidos, Ao contrário de exemplos isolados
de pilotos de outros países latino-americanos, como o argentino Carlos Reutemann
e o colombiano Juan Pablo Montoya, o Brasil tem produzido campeões em série no
automobilismo. Esperemos que Massa, cujo início de carreira numa equipe de ponta
tem sido bastante promissor, venha a colecionar inúmeras vitórias, a exemplo de
seus ilustres antecessores.
Depois de Senna, tivemos apenas alguns poucos
ídolos em esportes individuais. O pugilista Acelino "Popó" Freitas, a ginasta
Daiane dos Santos e o cavaleiro Rodrigo Pessoa foram alguns dos que conquistaram
títulos expressivos, porém em modalidades que não chegam a despertar grandes paixões,
nem a ter grande repercussão na mídia. Houve também o caso do tenista Gustavo
Kuerten, o Guga. Este foi, sem dúvida, um verdadeiro herói, conquistando por três
vezes o Aberto da França, em Roland Garros, um dos quatro torneios que compõem
o Grand Slam (considerados os mais importantes torneios do mundo), além de ter
permanecido por 43 semanas como número 1 do ranking mundial. Considerado o rei
do saibro, foi nessa superfície que conquistou a maior parte de seus títulos,
até passar a enfrentar sérios problemas físicos que o impedem de ter uma seqüência
regular de jogos e que fizeram com que ele despencasse no ranking. Em outros países,
o aparecimento de um fenômeno como o de Guga, representou um marco e provocou
uma explosão da modalidade, com extraordinário aumento do número de praticantes
e aparecimento sucessivo de grandes jogadores. Foi assim na Argentina, por causa
de Guillermo Villas, na Suécia, graças a Bjorn Borg, e na Alemanha de Boris Becker,
só para citar alguns casos mais notórios. No Brasil, lamentavelmente, o fenômeno
Guga não gerou esse mesmo tipo de boom, e a equipe brasileira, depois de permanecer
por quase uma década na primeira divisão da Copa Davis, chegou ao fundo do poço
em 2004/2005 em razão da recusa dos principais jogadores de integrar a equipe
por causa de desentendimentos com o então presidente da CBT - Confederação Brasileira
de Tênis. Recentemente, contando com a participação dos principais jogadores,
inclusive de Guga ainda fora de suas melhores condições, o Brasil foi derrotado,
em casa, pela Suécia, perdendo a chance de retornar à divisão principal na edição
de 2007.
O outro episódio que me despertou grande emoção foi o depoimento
de Alessandra e Janeth, integrantes da seleção brasileira feminina de basquete
que, recentemente, conquistou o quarto lugar no Campeonato Mundial disputado em
São Paulo. Alessandra e Janeth fizeram parte da equipe que conquistou o título
mundial em 1994, na Austrália, e das equipes olímpicas que conquistaram as medalhas
de prata (1996) e bronze (2000), além de terem elevado o nome do Brasil em função
do ótimo desempenho apresentado quando jogaram por equipes estrangeiras, incluindo
a WNBA, versão feminina da famosa liga de basquete profissional dos Estados Unidos.
Em entrevista na televisão, Alessandra, que se contundiu na semifinal do Mundial,
tendo que se submeter a uma cirurgia no ombro, queixou-se da falta de apoio da
Confederação e Janeth, aos prantos, disse que todo o esforço e dedicação do grupo,
que conquistou o quarto lugar mesmo com o basquete brasileiro vivendo uma crise
sem precedentes, não havia recebido por parte dos dirigentes da CBB - Confederação
Brasileira de Basquete, o mesmo reconhecimento que recebeu do público. Disse que
nem os salários dos últimos dois meses haviam sido pagos às jogadoras. O presidente
da CBB, como de hábito, omitiu-se ou saiu-se com evasivas por meio de depoimentos
de seus porta-vozes.
É revoltante ver qualquer atleta, quanto mais alguém
da grandeza de uma Janeth, chorando em público por um motivo mais do que justo,
em função da incompetência e da insensibilidade de um mau dirigente esportivo.
Repete-se no basquete e no tênis o que já ocorreu em outras modalidades (como
o judô, por exemplo) e vem ocorrendo no tiro: dirigentes despreparados, cujos
nomes nego-me terminantemente a citar neste artigo, ao lado dos nomes desses grandes
ídolos aqui mencionados, prejudicando muito mais do que contribuindo para o engrandecimento
do esporte nacional.
Este, porém, será tema de um próximo artigo.
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