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Invasão
de campo
Luiz
Alberto Machado - 28/08/2007
O
amigo internauta não precisa se preocupar
com o título deste artigo, achando que o
mesmo focalize algum incidente dessa natureza, que,
lamentavelmente, ainda ocorre com freqüência
nos estádios e ginásios brasileiros.
Invasão
de campo é o título de um livro recém
publicado em português (Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Editor, 2007), que aborda um dos casos mais
incríveis de concorrência envolvendo
empresas produtoras de artigos esportivos, a Adidas
e a Puma.
Com
o subtítulo Adidas, Puma e os bastidores
do esporte moderno, o livro traz como chamada Três
listas, dois irmãos, uma briga, e relata
com enorme riqueza de detalhes as várias
fases da luta fratricida que se estendeu por sucessivas
gerações de uma mesma família,
desde a separação da empresa original,
chamada Gerbrüder Dassler, ainda nos idos da
década de 1930.
Como
apaixonado confesso por esportes, adorei a leitura.
Mas acredito, sinceramente, que o livro possa ser
do agrado também de pessoas que não
sejam nem praticantes nem fanáticas por qualquer
time ou modalidade de esporte. Isso porque o livro
contém dados e informações
sobre a evolução da relação
entre esportes, marketing e finanças, chamando
a atenção para aspectos que, na maior
parte das vezes, não chegaram a ser conhecidos
pela esmagadora maioria das pessoas.
A
disputa iniciada com os irmãos Adolf e Rudolf
Dassler, fundadores, respectivamente, da Adidas
e da Puma, e continuada por seus filhos Horst e
Armin, apresentou, em sua longa trajetória,
momentos de grande tensão, algo difícil
de se imaginar se considerarmos que as duas empresas
possuem suas sedes em Herzogenaurach, uma cidade
que possui atualmente cerca de 24.000 habitantes,
situada a pouco mais de 20 quilômetros à
noroeste de Nuremberg, na região da Francônia,
Alemanha, separadas apenas pelo rio que atravessa
a cidade.
Paralelamente
à acirrada disputa levada a cabo pelas duas
empresas, o livro mostra o avanço do profissionalismo
no esporte, com as diferentes etapas da transição
do amadorismo puro, quando um atleta podia ser severamente
punido por receber qualquer recompensa financeira,
até o excesso de profissionalismo que caracteriza
a situação atual, em que os atletas
- sobretudo os de alto nível - conseguem
obter valores elevadíssimos pelos diferentes
tipos de contratos que assinam na fase mais produtivas
de suas carreiras.
Outro
aspecto interessantíssimo focalizado pelo
livro diz respeito às relações,
nem sempre transparentes e éticas, travadas
entre os executivos das duas empresas e os principais
dirigentes das entidades que regulamentam o esporte
em todo o mundo, envolvendo clubes, federações
e confederações, tanto nacionais como
internacionais.
Para
que o amigo internauta tenha uma noção
de até que ponto chegou a disputa entre a
Adidas e a Puma, basta dizer que por estarem tão
preocupadas uma com a outra, ambas não conseguiram
perceber e avaliar o impacto do surgimento de novas
concorrentes como a Nike e a Reebok, que alteraram
completamente o mercado desse segmento.
Como
acompanhante inveterado do esporte há muitos
anos, fiquei com a impressão de que a autora
do livro, Barbara Smit, não seja grande entendida
do assunto, sendo o livro, portanto, o resultado
de um exaustivo trabalho de pesquisa por ela desenvolvido.
Tal impressão deriva de algumas informações
imprecisas constantes no texto, tais como a afirmação
de que Beckenbauer, o grande craque alemão,
jogava na lateral, ou a que afirma que o número
de participantes da Copa do Mundo de futebol passou
de 14 para 24 países, quando na verdade foi
de 16 para 24, de 1982 a 1994, passando a 32 países
a partir da Copa de 1998, disputada e vencida pela
França.
Tais imprecisões, no entanto, não
são suficientes para reduzir o interesse
pelo livro ou para empanar a qualidade da pesquisa
empreendida pela autora.
Em
sua fase final, o livro aborda as estratégias
adotadas pelas duas empresas após a morte
de seus principais executivos, ambos da família
Dassler, quando a Adidas e a Puma passaram por processos
de profissionalização gerencial e
adotaram novas estratégias com vistas a recuperar
a saúde financeira, sendo obrigadas, para
tanto, a diversificar suas linhas de produção
e a atuar não apenas na confecção
de artigos destinados à prática de
esportes, mas também no segmento de produtos
de grife, como pode ser observado nas tendências
e lançamentos dos principais centros da moda
da Europa e dos Estados Unidos, logo acompanhadas
pelas populações de outras partes
do mundo.
Àqueles
que seguirem minha recomendação e
lerem este livro, uma certeza: a visão que
possuem do esporte jamais será a mesma, principalmente
se esta for uma visão positiva e romântica,
incapaz de enxergar os subterrâneos e os bastidores,
parcialmente visitados ao longo da leitura.
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