Renaldo Antonio Gonsalves é professor do departamento de métodos quantitativos e atuariais da PUC/SP. Mestre em economia pela USP, doutorando em ciências políticas pela PUC/SP.

Consultor de economia da Eletros e consultor independente da Thao Brasil.












  


Brasil: Novos Investidores e Mercados.


Renaldo Gonçalves - 30.10.2006

Em toda atividade humana encontramos ganhadores e perdedores. Não há meio termo nesta questão, não existe um quase perdedor nem o seu inverso. Nos investimentos ocorre a mesma coisa, ou o investimento dá retorno ou dá prejuízo.

Mas como regra, não há aplicação 100% segura é sempre necessário arriscar. Mesmo as aplicações convencionais protegidas por legislação podem dar pequenos problemas. É o caso da caderneta de poupança que é protegida pelo Banco Central do Brasil (BC) para garantir investimentos com aplicação até R$ 20,0 mil. A segurança deste investimento às vezes está combinada com o desconforto de não dispor instantaneamente dos recursos quando um banco quebra. Foi o que ocorreu recentemente aos poupadores do Banco Santos, que faliu em 20/09/2005.

Os portadores de aplicação em caderneta de poupança até R$ 20,0 tiveram seu recursos liberados pelo BC, mas amargaram o pequeno transtorno da indisponibilidade de seu investimento por alguns dias. Esta é uma das aplicações mais seguras e convencionais existentes no Brasil.

É, portanto a partir do piso de remuneração da poupança que são definidos os ganhos em outros tipos de investimentos. Há alguns problemas para comparar o retorno da poupança (um produto do mercado financeiro) com investimentos feitos no lado real da economia (um pequeno comércio, indústria ou escritório de serviços).

Entendemos como "lado real da economia" aquele que produz, comercializa ou auxilia a circulação de mercadorias, a poupança ao contrário é entendida como um recurso que está disponível para ser emprestado, àqueles que desejam adquirir um imóvel (residencial ou comercial). Uma das dificuldades, nesta comparação, é que um pequeno investimento feito no lado real da economia (proprietário de um empreendimento com cifras iniciais em torno de R$ 20,0 mil) tem no seu início um retorno baixo e despende grandes recursos (financeiros e humanos).

O pequeno proprietário desdobra-se em jornadas de trabalho superiores a 10 horas por dia, tem que obter recursos para pagar fornecedores, arcar com folha de pagamento, superando continuamente gargalos financeiros, etc. O pequeno poupador ao contrário, aplica seu recurso em um produto financeiro que não requer nenhum tipo de dedicação, basta ler o extrato da conta. Minimizando as arqui-sabidas questões da burocracia, carga tributária e ineficiência do Estado brasileiro, descobrimos nesta eleição um outro elemento complicado. A grande aversão dos brasileiros aos mercados.

O medo da privatização (transformar empresas estatais em empresas privadas) deslocou aproximadamente 2,5 milhões de votos do candidato Geraldo Alckmin para o reeleito Lula. Visto na perspectiva econômica isso significa uma patologia. Nós brasileiros adoramos o mercado para consumir, obter novos produtos, adquirir tecnologia, etc., mas somos avessos a idéia de que empresas possam atuar nos mercados para atender nossas necessidades. Há, portanto uma forte resistência ideológica da população ao funcionamento pleno dos mercados. Aceitamos só o lado do consumo e rejeitamos o lado da produção do surgimento de novas empresas e empreendedores.

Nesta perspectiva o empreendimento no Brasil não deve ser visto como um risco individual, mas coletivo, investir é sempre o papel do Estado. Mesmo que haja fortes evidências de gestão responsável como no caso da Vale do Rio Doce (uma multinacional brasileira) ou conquistas de eficiência como nos celulares, operada pelas teles.

A nossa resistência é ideológica. No Brasil um programa de combate à pobreza semelhante ao desenvolvido nos EUA, nos anos 60, inicialmente desenvolvido por John Kennedy e continuado por Lyndon Johnson, fracassaria. O programa tinha como objetivo ações positivas para inclusão social de populações residentes nos guetos (geralmente negros), uma das ações era o acesso ás universidades, outra era a possibilidade de ter um "negócio próprio", geralmente um comércio. O Estado entrava com os recursos financeiros, capacitação e monitoramento para que o empreendimento pudesse andar com as próprias pernas.

Havia um tempo limite para o apoio do estado, após este prazo ou a empresa quebrava ou funcionava. Muitas quebraram, mas muitas vingaram. As que funcionaram serviram para erradicar a pobreza das populações dos guetos, promoveram ascensão social e política destas comunidades. Um dos fatores críticos para o sucesso do programa é a crença no capitalismo. Coisa que não pertence só ao mundo dos americanos. Na Índia, um dos países mais pobres do mundo, o ganhador do prêmio da paz de 2006 usa o mesmo principio. A realidade de mercado é utilizada por Muhammad Yunus.

Para entender um pouco a lógica dos mercados estou colando em meu artigo alguns trechos da entrevista do Prof. Indiano. Neste trecho é relatado o inicio do seu banco o Grameen Bank. O texto está em português de Portugal.

Como lhe ocorreu a idéia de emprestar dinheiro às pessoas?
M.Y. - Eu não tinha qualquer intenção de conceder empréstimos, foram as circunstâncias que me levaram a isso. Estava a lecionar Economia, na Universidade de Chittagong, nos anos que se seguiram à independência do Bangladesh e havia muitas dificuldades. O país, em vez de progredir, estava a definhar e, em 1974, enfrentámos um terrível período de fome. Via pessoas a morrer à fome e estava frustrado, sem saber o que fazer para ajudar. Afinal, todas as grandes teorias de desenvolvimento económico que eu ensinava não contribuiam para nós.

Era precuiso olhar para o mundo como um ser abstracto, mas como se de uma pessoa se tratasse e tentar ser útil. Nem que fosse para uma só pessoa. Fui à aldeia mais próxima do "campus" universitário visitar os pobres e... foi assim que tudo começou. Vi como as pessoas sofriam, como estavam dependentes dos usurários que lhes emprestavam dinheiro, quase sempre montantes muito pequenos. Porque não fazer uma lista destas pessoas e tentar ajudá-las? Com a colaboração de alguns alunos, fizemos uma lista de 42 pessoas e chegámos à conclusão que o total de dinheiro necessário era de 27 dólares! Meu Deus! Andamos nós a falar de milhões e milhões de dólares para investir e desenvolver a economia do país e há pessoas que, apenas, precisam de um dólar.

Quando fez essa lista, foi à procura de pessoas que já tinham alguma habilidade ou vocação para trabalhar?

M.Y. - Não me preocupei com isso. O objectivo era saber quem estava dependente dos usurários. Todos os que tinham dívidas estavam na minha lista e, à data, não sabia o que ia fazer com essa lista. Quando vi o total fiquei chocado e o meu primeiro impulso, foi o de agarrar no dinheiro e dá-lo às pessoas. Não imagina como uma quantia tão pequena provocou tanta excitação e deixou tanta gente feliz. Então, porque não ir mais longe e emprestar mais dinheiro às pessoas? E isso levou-me ao banco, que recusou emprestar dinheiro a pobres sob o pretexto de que eles o gastariam todo em bens de primeira necessidade e seriam incapazes de reembolsá-lo. Além disso, não tinham garantias reais e as quantias eram tão insignificantes que o negócio não tinha interesse. Após seis meses de negociações, concordaram finalmente em emprestar-lhes dinheiro, mas tendo-me a mim como fiador. E funcionou! As pessoas pagavam regularmente os seus reembolsos e isso entusiasmou-me e encorajou-me a estender estes empréstimos a outras aldeias. Ao fim de algum tempo, pensei em criar um banco independente e propus a ideia ao Governo. Só obtive a autorização para criar o Grameen Bank dois anos depois, em 1983. Hoje, trabalhamos em 40 mil aldeias (de um total de 68 mil existentes no Bangladesh), temos 12 mil funcionários, emprestámos 2,4 milhões de dólares e 94% dos nossos clientes são mulheres. E o banco pertence-lhes...

Como lhe ocorreu a ideia de emprestar dinheiro às pessoas?
M.Y. - Eu não tinha qualquer intenção de conceder empréstimos, foram as circunstâncias que me levaram a isso. Estava a leccionar Economia, na Universidade de Chittagong, nos anos que se seguiram à independência do Bangladesh e havia muitas dificuldades. O país, em vez de progredir, estava a definhar e, em 1974, enfrentámos um terrível período de fome. Via pessoas a morrer à fome e estava frustrado, sem saber o que fazer para ajudar. Afinal, todas as grandes teorias de desenvolvimento económico que eu ensinava não contribuiam para nós. Era preciso olhar para o mundo como um ser abstracto, mas como se de uma pessoa se tratasse e tentar ser útil. Nem que fosse para uma só pessoa.

Fui à aldeia mais próxima do "campus" universitário visitar os pobres e... foi assim que tudo começou. Vi como as pessoas sofriam, como estavam dependentes dos usurários que lhes emprestavam dinheiro, quase sempre montantes muito pequenos. Porque não fazer uma lista destas pessoas e tentar ajudá-las? Com a colaboração de alguns alunos, fizemos uma lista de 42 pessoas e chegámos à conclusão que o total de dinheiro necessário era de 27 dólares! Meu Deus! Andamos nós a falar de milhões e milhões de dólares para investir e desenvolver a economia do país e há pessoas que, apenas, precisam de um dólar.

Quando fez essa lista, foi à procura de pessoas que já tinham alguma habilidade ou vocação para trabalhar?
M.Y. - Não me preocupei com isso. O objectivo era saber quem estava dependente dos usurários. Todos os que tinham dívidas estavam na minha lista e, à data, não sabia o que ia fazer com essa lista. Quando vi o total fiquei chocado e o meu primeiro impulso, foi o de agarrar no dinheiro e dá-lo às pessoas.

Não imagina como uma quantia tão pequena provocou tanta excitação e deixou tanta gente feliz. Então, porque não ir mais longe e emprestar mais dinheiro às pessoas? E isso levou-me ao banco, que recusou emprestar dinheiro a pobres sob o pretexto de que eles o gastariam todo em bens de primeira necessidade e seriam incapazes de reembolsá-lo. Além disso, não tinham garantias reais e as quantias eram tão insignificantes que o negócio não tinha interesse. Após seis meses de negociações, concordaram finalmente em emprestar-lhes dinheiro, mas tendo-me a mim como fiador.

E funcionou! As pessoas pagavam regularmente os seus reembolsos e isso entusiasmou-me e encorajou-me a estender estes empréstimos a outras aldeias. Ao fim de algum tempo, pensei em criar um banco independente e propus a idéia ao Governo. Só obtive a autorização para criar o Grameen Bank dois anos depois, em 1983. Hoje, trabalhamos em 40 mil aldeias (de um total de 68 mil existentes no Bangladesh), temos 12 mil funcionários, emprestámos 2,4 milhões de dólares e 94% dos nossos clientes são mulheres. E o banco pertence-lhes...

Na seqüência apresento as atividades que atraem os créditos do Grameen Bank.

E qual é o tipo de crédito mais procurado?
M.Y. - O crédito para actividades produtivas, nomeadamente, a criação de gado bovino (vacas leiteiras), o cultivo do arroz e a exploração de aviários de galinhas. É para onde vai a maior parte do nosso dinheiro, cerca de 80%. São actividades tradicionais e muito seguras, com as quais se pode fazer dinheiro de imediato.

A experiência desenvolvida por Muhammad Yunus, revela o tempo médio de duração do apoio que o Banco usa para atender as necessidades de financiamento que promovem a integração social dos empreendedores indianos.

Quantos anos são necessários para uma família que beneficia do microcrédito ultrapassar o limiar da pobreza?
M.Y. - Os nossos dados apontam para um período entre cinco e 15 anos. Queremos reduzir este tempo para um máximo de dez anos e depois, progressivamente, para oito ou sete anos. Temos de olhar, também, para as questões de saúde. As pessoas doentes não podem trabalhar...

Isso significa que o crédito não é tudo. As pessoas também precisam de programas de saúde, de ensino, de formação?
M.Y. - Mil e uma coisas. O crédito é, apenas, uma parte mas é a peça-chave que representa o ponto de partida para as restantes.

Nesta seqüência, apresentamos os critérios operacionais do banco Grameen Bank.

Para dar lucro, o Grameen Bank tem de cobrar juros às pessoas. Quais são as vossas taxas de juro, relativamente às de outros bancos comerciais?

M.Y. - No Bangladesh, a taxa média ronda os 15%. No Grameen Bank, cobramos duas taxas: 20%, nos empréstimos a um ano e 8%, nos empréstimos à habitação, o que dará uma média próxima dos 15%, praticamente idêntica à dos restantes bancos comerciais.

Surpresa!!! Os juros praticados são de mercado....

A partir do exposto podemos afirmar que o medo do mercado que temos é uma característica nossa. Não acreditamos nos mercados, produzir, comercializar, prestar serviços, ou emprestar recursos. Esperamos que o Estado faça. Ao que tudo indica, ficaremos muitos anos de costas para a realidade, com programas sociais que tem uma visível porta de entrada e sem nenhuma porta de saída.

Uns chamam estes programas de eleitoreiros, outros de "atender as necessidades dos pobres", mas a realidade é que como coletivo temos uma doença patológica, somos capitalistas para consumir e sonhamos com um socialismo sem mercado para obter nossa renda.

O site para ler a entrevista completa do Prof. Indiano é -

http://www.janelanaweb.com/digitais/yunus.html





 
 

 

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