| QUE
NÃO SAIBA JAMAIS SUA MÃO DIREITA O QUE PENSA SUA MÃO ESQUERDA
Ruy
Marum - 14/11/2006
Sabe, normalmente sou destro, mas em minha infância, lá pelos 1960, na minha primeira
escola, colégio de freiras, educação "muito" preocupada com a pedagogia, notava
eu uma tendência em meu processo de alfabetização em utilizar a mão esquerda nas
minhas aventuras ao garrancho.
Com a naturalidade de uma criança, língua
no canto da boca, total esforço com o lápis para esboçar as primeiras palavras
escritas da minha vida. Caminho Suave. Ah! que saudade do Caminho Suave e dos
joelhos da minha professora de argh! matemática. Mas eu não sabia, além de admirar
os belos joelhos da professora, cometia mais um pecado, talvez original para os
meus padrões, mas para as madres um pecado mortal, escrevia eu com a mão esquerda,
que terrível! Quem era da direita era do bem e da esquerda do mal. Para corrigir,
se é que devia ser corrigido, fortes reguadas na mão. Doía pra burro. Quando ia
na "casinha", fazer xixi, era um problema, ficava sempre na dúvida se devia pegar
com a mão esquerda ou com a mão direita.
Mas o tempo foi passando, fui
ficando mais esclarecido, desenvolvi outras tantas habilidades, tanto com a direita
quanto com a esquerda. E hoje, com muito orgulho, me considero um ambidestro,
talvez de centro direita, com ligeira tendência para a esquerda, porém sem traumas
de infância. Escrevo com a direita e dou marteladas com a esquerda. Sei escrever,
por exemplo, no computador com as duas mãos, sem nenhum problema, asdfg com a
esquerda, clkjh com a direita. Vivi sempre de forma pacífica com as mãos, cada
uma com suas habilidades, e sempre me saindo muito bem, não importando a atividade
exercida.
Tudo corria pacificamente até que, me lembro bem, parece que
foi ontem, na última eleição, os problemas começaram a aparecer. Realmente, não
sei se sob influência das pesquisas de opinião, minha mão esquerda, que sempre
foi dominada pela direita, se revoltou. E, pasmem, atrás da urna de papelão -
que papelão -, resolveram se rebelar.
Demorei mais de dez minutos para
decidir meu voto. Quem via de fora, não entendia nada. Uma votação tranqüila para
todos, mas na minha seção, chegou a formar fila, o mesário foi ver se eu estava
passando bem… A esquerda queria um determinado candidato "dito" de esquerda, mas
com forte tendência para as bobagens cometidas pela direita e a direita queira
o seu candidato, com discurso cola de esquerda. Confesso que embaralhou tudo.
A briga foi feia, parecia de foice no escuro.
Mas, na realidade, veja
você, prevaleceu o senso da ilusão junto ao eleitor, todos entorpecidos não sabiam
mais o que fazia uma ou a outra mão. Porque, aqui no Brasil, pode prevalecer tudo,
menos esse negócio de ideologia política. O que vale são as cartas que estão nas
mãos de quem detém o poder, não importa, o jogo é uma ilusão de ótica. As cartas
passam de uma mão para outra num passe de mágica e a gente nem vê.
Quanta
ilusão.
Por isso é muito bom que minha mão direita não saiba o que se
passa com a minha mão esquerda. |