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Por
Paulo Saab , presidente do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento
da Cidadania
A cada
dia, em centenas de locais dos grandes centros urbanos e outras
regiões do País, são cometidos crimes
de todos os gêneros, afetando, indiscriminadamente,
todas as camadas da população. Constatamos,
com pesar, que o crescente aumento da violência, da
criminalidade e da marginalidade passou a fazer parte do cotidiano
da população brasileira, que assiste essa situação
de mãos atadas, sem condições de ter
e dar uma resposta que contenha a brutal onda de crimes.
A freqüência
com que assassinatos, roubos, seqüestros e tráfico
de drogas ocorrem ganhou tal dimensão que verifica-se,
hoje, uma verdadeira banalização da violência,
na qual o debate em torno das soluções para
o problema inclusive deixou de ter destaque na mídia,
que se restringe, hoje, praticamente apenas a noticiar os
fatos.
Ocasionalmente
discute-se a necessidade de se aparelhar as polícias,
investir na formação dos policiais e na melhoria
de seus salários, ou ainda ampliar o comprometimento
dos governantes e o debate sobre as soluções
para conter a criminalidade. Mas isto ocorre apenas ocasionalmente.
Não há um engajamento da sociedade, da mídia
e das autoridades civis em aprofundar esse debate e a busca
de alternativas que permitam reverter o atual quadro.
O que
se verifica é uma situação de quase apatia,
que tem origem na falta do hábito de se debater, dialogar
e buscar saídas coletivas para os problemas da população.
Ou seja, um dos fatores que alimentam esta imobilidade é
a ausência do exercício mesmo da cidadania, tão
mais desenvolvido em outros países.
Mas se
poderia questionar: como desenvolver a cidadania em um País
que convive com pobreza, violência, marginalidade? O
trabalho que vimos desenvolvendo no Instituto Brasileiro para
o Desenvolvimento da Cidadania aponta um caminho inequívoco:
a educação.
A sociedade brasileira está começando a entender
que o único caminho para tornar-se mais justa e equilibrada
é através da educação. A própria
plenitude da cidadania somente será exercitada, no
seu conjunto de obrigações e direitos , quando
formos um povo educado, nas diversas acepções
que o termo permite entender.
Começam
a ganhar corpo e força em todo o País diversos
tipos de iniciativas, maiores ou menores, mas todas igualmente
importantes, como a do Instituto da Cidadania , voltadas para
dotar a sociedade de uma consciência de Nação,
através da educação, que permitirá
sua melhor organização, discernimento e ação
na formatação do Brasil pretendido.
Mas esta tampouco é uma tarefa simples, principalmente
considerando que as mudanças de ordem econômica,
cultural e social vêm provocando uma grande transformação
nos valores que norteiam a vida das pessoas, e conseqüentemente,
nos conceitos de ética e cidadania.
Antigamente,
a educação estava voltada para a formação
das chamadas "pessoas de bem" - aquelas que trabalham,
são honestas e pautam sua atuação dentro
de princípios moralmente aceitáveis, ou, como
dizemos hoje, politicamente corretos. Os desencontros sociais,
a corrupção, as contradições econômicas
e as bruscas mudanças impostas pelo avanço tecnológico
parecem ter alterado, contudo, a escala de valores.
Ganhou
importância a busca desenfreada por um melhor lugar
na sociedade, estimulando-se a competitividade até
predatória do mercado de trabalho. Ao mesmo tempo,
a brutal velocidade das mudanças tecnológicas
tornaram essa busca mais feroz e complexa, acentuando, de
outro lado, os desequilíbrios sociais.
Na corrida
irracional pela conquista de bens, a falta de escrúpulos
e a desonestidade tornaram-se prática freqüente
no meio político e civil, com a corrupção
se desenvolvendo e sendo instrumento fácil de usurpação
de bens. Simultaneamente, acentuou-se a falta de uma ação
comum e pública que pudesse conter a corrupção,
de um lado, ou buscar, de outro, uma diminuição
dos desequilíbrios sociais, através de meios
lícitos e corretos.
Falta
não só atenção dos cidadãos
para problemas que afligem a sociedade, como o desrespeito
dos padrões considerados historicamente como éticos
tornou-se usual. O conceito de cidadania também tem
sido relegado a plano secundário, bem como a ética.
O cidadão
comum assiste, quase sempre impotente, às manipulações
que ocorrem à sua volta e aviltam sua condição
de cidadão. Esta sensação gera desestímulo
e banaliza os maus valores. Deixa a todos anestesiados, levando
a sociedade a se acomodar em conflito com nossos valores,
como se tivesse que ser sempre assim.
É
hora de impedir que isso domine a sociedade, através
do exercício da plenitude dos direitos e obrigações
dos cidadãos e da redescoberta dos princípios
da ética.
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