| Por Luis Alberto Machado
"Saiu-nos caro não termos desenvolvido a tradição
do self-government. Foi elevado o preço que pagamos
por ter sido sempre o rei, o imperador, o Estado, a nos guiar
pelas mãos, como eternas crianças. Talvez seja
um exagero atribuir todos os nossos males ao excesso de centralização.
Muito possivelmente, outros fatores exerceram também
sua influência. Mas o fato concreto é que, no
mundo político brasileiro, até hoje, os partidos
políticos quase nada significam Deputados e senadores
mudam suas filiações partidárias com
a maior facilidade. Eleitos, os governantes atuam no vácuo,
sem a pressão de uma opinião pública
organizada. E isso facilita, enormemente, o jogo de interesses
pessoais, freqüentemente postos acima de tudo, em nosso
país."
José Júlio Senna
Acredito que uma das razões explicativas da dificuldade
para a consolidação da cidadania no Brasil reside
no caráter patrimonialista que envolve nossa formação
política.
A visão patrimonialista da história político-econômica
do Brasil surgiu em oposição à teoria
da dependência, que surgiu por volta da década
de 1960 e ganhou enorme popularidade nos anos seguintes. Tal
teoria, que explicava o atraso relativo dos países
latino-americanos a partir de uma relação perversa
que os vinculava aos países desenvolvidos na nova divisão
internacional do trabalho, ganhou projeção a
partir da publicação do livro Dependência
e desenvolvimento na América Latina, de autoria de
Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto. Essa corrente de
interpretação dava a todos a nítida impressão
de que o subdesenvolvimento dos países latino-americanos
de uma forma geral, e do Brasil em particular, era uma conseqüência
inevitável da exploração a que estavam
submetidos por parte dos países desenvolvidos - então
chamados de centrais -, situação a que estariam
condenados a permanecer em razão das relações
internacionais vigentes. Ficava, portanto, para quem tomava
conhecimento dessa teoria, a certeza de que a responsabilidade
pelo nosso subdesenvolvimento era integralmente dos países
desenvolvidos, não restando aos países latino-americanos
outro destino que não o de desempenhar o papel de vítimas
da história.
Esse tipo de ponto de vista, que praticamente nos isentava
de qualquer responsabilidade pelo subdesenvolvimento da região,
jogando toda a culpa pelo nosso atraso nas costas dos países
desenvolvidos, incomodou alguns pensadores e estudiosos que
enxergavam nessa postura uma forma muito confortável
de encarar a questão. Sendo assim, e agindo a princípio
de forma assistemática, já que desenvolviam
suas pesquisas e seus trabalhos em instituições
e locais diferentes, acabaram dando origem a uma corrente
de interpretação que se convencionou chamar
de patrimonialista e que tem no deslocamento do foco central
de sua análise da realidade brasileira e latino-americana
de fora para dentro dos países da região uma
de suas marcas características.
O Estado brasileiro, em sua conformação histórica,
corresponde a um tipo de dominação política
que na tipologia de Max Weber se denomina "organização
estatal-patrimonial". Trata-se de categoria que permite
abarcar em toda a sua complexidade e profundidade o fenômeno
do poder entre nós brasileiros, já que não
restrita a variáveis puramente econômicas, como
no marxismo, por exemplo. A tentativa de reduzir a formação
do Estado à simples expressão de interesses
de classe tem-se revelado insuficiente para explicar a história
política de nosso país, sobretudo por desconsiderar
as variáveis culturais como fatores configuradores
da ordem política.
1. O conceito de patrimonialismo
O mando político, no mundo hispânico, foi tradicionalmente
entendido como patrimônio pessoal do governante - uma
extensão do poder doméstico - e nisso consiste
o aspecto nuclear da dominação patrimonial.
Despojado de sua dimensão pública, o poder,
nos moldes do patrimonialismo, constitui, nas palavras de
Max Weber, "um direito próprio (do soberano) apropriado
em igual forma que qualquer outro objeto de possessão".
Diversos autores, com base nessa visão teórica
de Max Weber, desenvolveram interessante análise da
formação política do Brasil através
da qual têm procurado identificar a origem de uma série
de problemas que, até hoje, assolam o País.
Entre esses autores, alguns dos quais serão utilizados
como referência ao longo deste artigo, destacam-se Faoro,
Meira Penna, Nêumanne, Paim, Schwartzman, Senna e Vélez
Rodríguez.
As principais características das relações
entre o Estado e a sociedade no contexto do patrimonialismo
brasileiro são:
1.1. O centralismo
1.2. O estatismo (e seus subprodutos)
a) Auto-suficiência do poder
b) Raquitismo da vida civil
c) Insolidarismo
d) Privatização da coisa pública
O patrimonialismo na história político-econômica
do Brasil
O caráter patrimonialista da formação
do Estado no Brasil tem sido objeto de análise de brilhantes
observadores da realidade brasileira. A que mais me agrada
é a do jornalista José Nêumanne nos capítulos
iniciais de seu excelente livro Reféns do passado.
Neles, Nêumanne chama a atenção para a
enorme influência na época do Brasil-colônia
de três instituições trazidas prontas
pela coroa portuguesa - o Estado, o exército e a igreja
- e de seus respectivos estamentos, o estamento burocrático,
os militares e o clero. Direta ou indiretamente a influência
desses estamentos esteve presente nos grandes acontecimentos
da história política brasileira. Seus membros,
sempre que necessário, colocavam os interesses do estamento
a que pertenciam acima dos próprios interesses nacionais.
A característica comum a essas instituições
é o fato de não serem porosas à participação
da opinião pública, assumindo, no Brasil e no
exterior, vida própria, independente da vontade popular.
Na nossa história recente, voltamos a presenciar exemplos
claros desse caráter patrimonialista nos episódios
que redundaram no impeachment do presidente Collor e nos escândalos
que têm marcado os últimos meses do governo do
presidente Lula. São casos evidentes de usar a coisa
pública em benefício de interesses de grupos
particulares.
A conseqüência inevitável disso, além
dos óbvios casos de corrupção, impunidade,
empreguismo e nepotismo, é uma brutal perda de eficiência,
que compromete seriamente a produtividade e reduz a competitividade
da economia nacional.
Só não vê quem não quer!!! __________________________________________________________
Referências bibliográficas
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e desenvolvimento na América Latina. São Paulo:
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MEIRA PENNA, José Osvaldo. Dinossauro. Uma pesquisa
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Paulo: Siciliano, 1992. PAIM, Antonio. A querela do estatismo.
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RODRÍGUEZ, Ricardo Vélez. Patrimonialismo e
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Editora, 2006.
SCHWARTZMAN, Simon. Bases do autoritarismo brasileiro. Rio
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SENNA, José Júlio. Os parceiros do rei: herança
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WEBER, Max. Economía y sociedad: esbozo de sociología
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