|
Por Renaldo Gonçalves
As radicais mudanças de comportamento experimentadas
pelo mundo ocidental ao final dos anos 50, na música
o rock´n´roll (Elvis), na filosofia (o existencialismo,
Sartre, Camus), nos EUA os beatniks (Jack Kerouac), a bossa
nova no Brasil (Jobim) apontavam para um processo de transformação
social que se estenderia para as próximas décadas.
Na frente deste contínuo movimento de transformação
encontramos os jovens. Estes nos anos 70 protestaram contra
a guerra do Vietnã, lutaram contra as ditaduras na
América Latina (Brasil, Chile e Argentina), mobilizando
as suas respectivas sociedades.
Nos final dos anos 80 temos finalmente a democratização
da América Latina. No Brasil os jovens de caras pintadas
vão às ruas pela renuncia do primeiro presidente
eleito pelo voto direto depois da ditadura militar, uma novidade
no cenário político brasileiro.
Em 2004, temos a primeira geração que não
teve contado direto com o Estado autoritário que dominou
o Brasil de 1964 até a promulgação da
nova Constituição em 1988.
Os participantes do seminário "A importância
do Voto" são jovens com idade média de
16 anos que vivenciaram uma sociedade diferente das gerações
anteriores. Estes jovens experimentaram a sociedade com imprensa
livre, liberdade comportamental, uma ampla discussão
política e partidária, abertura para denunciar
e investigar atos de corrupção, baixa inflação,
etc. Qual a percepção destes adolescentes do
atual processo político?
Relatório: O Jovem e a Política
Informações Gerais: A Pesquisa "O Jovem
e a Política" foi realizada nos meses de abril
e maio de 2006 em todo o estado de São Paulo, com a
aplicação de 1.152 questionários em alunos
regulares do 2º grau da rede estadual e privada, bem
como em alunos do supletivo desta mesma modalidade de ensino.
A pesquisa é o resultado da parceria entre o Instituto
da Cidadania, da Secretaria da Educação do Estado
de São Paulo e da direção de escolas
privadas da região metropolitana de São Paulo.
A metodologia da pesquisa foi desenvolvida pelo departamento
de Métodos Quantitativos e Atuariais da FEA/PUC-SP.
Do total de questionários 1.080 foram aplicados em
alunos da rede pública e da rede privada com idade
de 15 a 21 anos, 72 questionários formam uma sub-amostra
de alunos de suplência com idade entre 22 a 55 anos.
Os dados apresentados no relatório abaixo se referem
aos alunos regulares do ensino médio (etário
de 15 a 21 anos), os dados da sub-amostra servirão
apenas como contraponto sendo explicitada a sua citação.
O censo educacional (INEP/MEC) registra a cifra de 2 milhões
e cem mil alunos matriculados no ensino médio do estado
de São Paulo.
Os Jovens de 15 a 21 anos.
A idade média dos alunos do ensino do segundo grau
é de 16 anos e 6 meses com desvio padrão de
1 ano, tratando-se, portanto de uma população
bastante homogenia. Deste alunado, 52,59% pertencem ao sexo
feminino e 47,41% ao sexo masculino.
Quanto a escolaridade, 60,28% destes alunos freqüentam
o terceiro ano, 22,41% o segundo ano e 12,31% o primeiro ano
do ensino médio.
Definimos escolaridade o tempo de permanência do aluno
na rede de ensino regular, assim, o ensino fundamental refere-se
a uma escolaridade igual ou inferior a 8 anos, ensino médio
igual ou inferior a 11 anos e ensino superior igual ou inferior
a 15 anos de estudo.
A escolaridade dos pais apresenta o seguinte perfil: dos
pais 46,85% têm o ensino fundamental e as mães
45,46%; o ensino médio registra a cifra de 37,41% de
pais e 37,38% das mães; no nível superior encontramos
15,74% dos pais e 16,78% das mães.
Os alunos da suplência (etário de 22 a 55 anos)
registram que a escolaridade de seus pais se concentra no
ensino fundamental, 70,83% dos pais e 73,61% das mães.
Somente 9,73% dos pais e 11,11% das mães destes alunos
têm a escolaridade do ensino superior.
Podemos afirmar que a população que hoje freqüenta
o ensino médio no estado de São Paulo tem escolaridade
maior que a de seus pais.
Do total de alunos do ensino médio 51,76% têm
ou tiraram o título de eleitor e 48,24% não
têm ou tiraram o título. Isto significa que aproximadamente
1.087.000 alunos do ensino médio vão participar
do processo eleitoral.
Isto significa que 1 milhão e 87 mil adolescentes,
(aproximadamente 53%) freqüentadores do ensino médio
tiraram o título de eleitor para participar do processo
eleitoral de maneira voluntária, visto que 70% destes
têm idade entre 15 anos e 6 meses e 17 anos e 6 meses
sendo que a participação destes não é
obrigatória por lei.
Dos que declararam ter titulo de eleitor, 17,69% já
votaram e 82,31% vão votar pela primeira vez.
O conhecimento político dos jovens.
Poder Executivo.
Ao serem perguntados de que maneira se informam sobre a vida
política, 88,52% acompanham através dos telejornais,
36,57% por leituras de jornais, 29,54% nas conversas entre
amigos, e 23,52% em revistas. Esta questão permitiu
a múltipla escolha dos meios de informação,
assim, não há possibilidade de a soma das escolhas
parciais atinjam a cifra de 100%.
Nesta mesma questão quando solicitado que escrevessem
espontaneamente outras fontes de informação
sugiram majoritariamente a conversa em família e a
internet como opções.
Foi solicitado que escrevessem o nome do presidente e avaliassem
o seu governo. Dos entrevistados, 96,94% acertou o nome do
atual chefe de Estado Brasileiro, 3,06% erraram e 2,96% declararam
que não sabiam.
A avaliação do Presidente da República
gerou os seguintes percentuais: 2,31% acham ótimo;
22,50% bom; 45,37% razoável; 18,89% ruim; e 9,35% péssimo.
Na avaliação e conhecimento do nome governador
obtivemos os seguintes resultados: 92,22% acertaram o nome
do governador, 7,22% não responderam e 0,56% erraram.
No quesito avaliação, 4,54% acha ótima
a atuação do governador, 24,91% boa; 42,31%
razoável; 17,50% ruim e 7,22% péssima.
Em relação ao prefeito da cidade, a pesquisa
foi aplicada em todo estado, 80,65% acertaram o nome deste
cargo público, 19,35% erraram e 6,57% não sabiam
ou não declararam.
Em relação a qualidade da gestão municipal,
5,65% acham ótima, 27,87% boa, 37,69% razoável,
17,59% ruim e 7,87% péssima.
O grau de acerto dos estudantes do ensino médio contrasta
com os alunos da suplência. Dos alunos que fazem supletivo
88,89% sabem o nome do presidente, 86,11% o do governador
e 68,06% o nome dos prefeitos.
Esta discrepância entre as respostas dos adolescentes
e dos adultos que freqüentam a suplência, revela
o grau de atenção dos primeiros em relação
ao ambiente político do país.
Outra observação é a importância
dos governos da esfera federal e estadual em detrimento dos
governos locais (prefeituras), o ideal seria que houvesse
no mínimo o mesmo nível de preocupação
com as questões da sua própria cidade.
Poder Judiciário.
A justiça foi avaliada pelos adolescentes com os seguintes
coeficientes: 0,56% acham a justiça ótima, 3,52%
boa, 23,70 razoável, 34,72% ruim e 36,85% péssima.
Poder Legislativo.
Quanto a atuação dos vereadores, deputados
e senadores 0,74% declaram ser ótima, 6,57% boa, 45,56%
razoável, 35,00% ruim e 21,02% péssima. Estimulados
a declarar o nome de um parlamentar, 85% acertaram o nome,
5% erraram e 10% deixaram sem resposta.
É importante apontar que parte das respostas refere-se
a lideranças locais.
Políticos e Prioridades.
Esta questão permitiu a múltipla escolha dos
deveres dos políticos, assim a soma total dos itens
ultrapassa o total de questionários aplicados.
Para os alunos do ensino médio os políticos
devem:
Cumprir as suas promessas, 463 respostas como a maior prioridade,
lutar contra a corrupção, 331 como a segunda
maior prioridade, a terceira prioridade, estarem próximos
às necessidades da população atraiu 227
respostas.
O quarto lugar (ter preparo intelectual) e ter escolaridade
necessária (quinto lugar) quase que empataram com cifras
de 259 e 298 respectivamente. Em último lugar, com
contagem expressiva aparece "não defenderem interesses
próprios".
A questão da prioridade dos políticos permitiu
a múltipla escolha, assim a soma total dos itens ultrapassa
o total de questionários aplicados.
Os investimentos em educação aparecem com 402
pontos, melhorar o padrão de ensino 311 pontos, oferecer
maiores oportunidades de emprego 316 pontos.
A promoção da distribuição de
renda (item 15.4) aparece como uma prioridade equilibrada
há uma freqüência semelhante das notas atribuídas
pelos alunos. O combate a violência e maior segurança
(item 15.5) aparecem como a 5ª prioridade registrando
264 pontos, no sexto posto o combate a corrupção
(207 pontos), o lazer aparece no sétimo posto deste
ranking.
A questão de número 18, pergunta como ao aluno
qual o tipo da sua participação na política.
Dos que responderam à pesquisa 49,83% declararam que
não participam da política, 27,78% participam
de grupos de discussão e 8,89% no grêmio. O grupo
que não participa e não tem interesse registrou
a cifra de 10,83%.
Nesta questão podemos observar uma distribuição
semelhante a que encontramos na sociedade, quase 9% participa
do grêmio e provavelmente parte destes serão
as lideranças políticas do futuro, 11% não
tem vontade de participar, provavelmente serão os que
no futuro anularão o voto ou deixarão em branco
e aproximadamente 50% participam como eleitores.
Na questão de No 19 pedimos aos alunos que declarassem
uma sugestão para melhorar a performance política
dos nossos representantes.
O banco de dados que construímos a partir das respostas
oferecidas pelos alunos permitem uma infinidade de recortes
e análises. Neste relatório apresentaremos as
respostas que acreditamos serem as mais relevantes.
Dar emprego à população, educação,
saúde e segurança.
Como diz o nome, eles são representantes da população,
se eles entendessem isso já estava de bom tamanho,
pois aprenderiam que estão lá para lutar pelo
bem coletivo.
Eles têm que serem: Honestos; ter capacidade; caráter
e respeitar a população brasileira.
Renovar a política; eleger representantes qualificados.
Eleger alguém sério voto consciente.
Chama a atenção o grau de indignação
dos alunos do ensino médio em relação
ao comportamento dos políticos brasileiros em todo
banco de respostas, no entanto, alguns acreditam que os políticos
dão emprego, saúde, educação e
segurança.
Felizmente trata-se de uma minoria. Há nesta afirmação
a espera que os políticos dêem algo à
população, na verdade a relação
é inversa. Nós é que devemos eleger e
fiscalizar os atos dos políticos para que tenhamos
o retorno adequado dos impostos pagos pela sociedade. Isto
aparece com mais freqüência e com formatos variados.
Conclusões
A educação política e a participação
na vida nacional.
As duas pesquisas patrocinadas pelo Instituto da Cidadania
preenchem esta lacuna, revelando características das
participações positivas destes jovens eleitores.
Sabemos a partir deste estudo que estes jovens acompanham
a política, as TV´s e os jornais são as
mídias preferidas para manterem-se atualizados, tem
como critério para escolha dos candidatos a suas propostas,
a corrupção é um dos principais problemas
dos políticos, acreditam que a política interfere
no dia a dia da sociedade, e a grande maioria pretende participar
da vida pública apenas como eleitores.
Do ponto de vista da cidadania, as pesquisas registram que
estes jovens eleitores têm consciência e valores
de uma democracia moderna e, portanto, estão habilitados
para participar de maneira madura do processo eleitoral.
Acreditamos que são os vínculos com o ensino
de segundo grau, que explicam a qualidade da inserção
política e social destes jovens, afinal sabemos que
os gastos com educação são investimentos
sociais, a partir dos quais as populações melhoram
sua condição de vida.
([1])"Onde a educação cria famílias
mais saudáveis... aumenta a produtividade econômica,
desenvolve uma moral social e psicológica mais elevada
e proporciona um senso maior de participação
social e política, à medida que a população
conquista seus direitos".
Esta concepção de Martin Carnoy revela o papel
da educação como principal instrumento para
o desenvolvimento sustentado das sociedades. Os países
que conquistaram a estabilidade política, social e
econômica têm altos índices de escolaridade.
A escolaridade média das nações da Comunidade
Européia, por exemplo, é superior a 15 anos,
o que representa mais que o dobro da escolaridade dos brasileiros
pelo censo do IBGE (5,7 anos, Média de anos de estudo
das pessoas de 10 anos ou mais).
No entanto, nesta fase da vida escolar (ensino médio),
1,0 milhões de adolescentes, no estado de São
Paulo, ficarão fora das escolas, sabemos também,
que esta distância aumentará na próxima
etapa. A freqüência ao ensino universitário
é mais restritiva ainda.
Temos um sistema público de educação
deficiente, desequilibrado, e inibidor do desenvolvimento
das potencialidades da nossa população. Esta
é a principal causa das desigualdades sociais.
A exclusão gerada pelos que abandonam precocemente
os bancos escolares condena parte significativa da nossa população
a viver em condições desumanas, lutando cotidianamente
apenas pela sobrevivência.
Como afirmou no século XXVII, Robert Boyle, pai da
química moderna. "As bestas habitam e desfrutam
o mundo, o homem se quiser mais, tem de estudar e se espiritualizar".
Sob o atual Estado Brasileiro parte significativa da sociedade
brasileira apenas habita e "usa" o universo disponível
a sua volta, a inclusão real destes grupos sociais
ocorrerá apenas pela educação. É
a educação que nos afasta de uma vida pequena
e rasa.
Só o aumento significativo da escolaridade da nossa
população trará a melhoria da vida nacional
pela qualidade do voto. Esta tarefa é de todos.
[1] CARNOY, Martin in Razões para investir em educação
básica p 5 UNICEF
|