A
decisão do Supremo Tribunal Federal derrubando a cláusula de barreira caiu como
uma bomba no mundo político. Fica tudo como dantes no quartel de Abrantes, a começar
pela fragmentação da representação parlamentar. Seguiremos contando com cerca
de 20 partidos com representação no Congresso.
Apenas sete deles receberam
mais de 5% dos votos nacional para deputado federal. Oito tiveram menos de 2%.
O PCdoB, o PPS, o PV e o PSOL, que representam correntes minoritárias mas respeitáveis
de opinião, estão soltando foguetes. Têm motivos: ganharam uma bela sobrevida.
Também estão comemorando a decisão do STF os picaretas que controlam as legendas
de aluguel e os cartórios eleitorais montados para usufruir as benesses do sistema,
em especial os recursos do fundo partidário e a propaganda na televisão. Também
têm motivos: seus negócios continuarão a pleno vapor.
Entre os grandes
partidos, o clima é de absoluta surpresa. Ninguém esperava uma decisão dessas.
Ainda é cedo para saber como eles reagirão, mas uma coisa é certa: a queda da
cláusula de barreira inviabilizou, de uma vez por todas, a concepção minimalista
de reforma política predominante no Congresso, que considerava possível enxugar,
organizar e oxigenar o atual sistema de representação política através de mudanças
que coibissem suas distorções mais gritantes, otimizando seu funcionamento, sem
mexer no voto proporcional em listas abertas.
Para essa concepção, a cláusula
de barreira, a fidelidade partidária e talvez o financiamento público de campanha
bastariam para voltar a dar operacionalidade e confiabilidade ao nosso sistema
de representação, que teria disfunções, mas não vícios insanáveis. Ou seja, seu
problema não estaria na origem – ou seja, no fato de que o voto em lista aberta,
na prática, é um voto em pessoas e não em partidos, que produz necessariamente,
depois de algumas décadas de funcionamento, deputados donos do mandato e partidos-acampamento.
Com alguns ajustes bem calibrados, a máquina voltaria a rolar nos trilhos.
Essa concepção, poucas vezes defendida abertamente, mas muito influente nos bastidores
do Congresso, tinha na cláusula de barreira sua pedra de toque. A avaliação era
de que ela obrigaria, sem alterar as regras fundamentais do jogo, os políticos
e os eleitores progressivamente a concentrar suas preferências em cima de uma
meia dúzia de partidos. Daqui a uns dez ou doze anos, teríamos um quadro bem mais
compacto no Congresso.
O julgamento do Supremo desferiu um golpe mortal
nessa concepção. Ela não fica de pé somente com a introdução de mecanismos que
impeçam o troca-troca de partidos ou com mudanças no financiamento de campanhas.
E por isso mesmo, o mundo político encontra-se agora diante de um dilema: ou começa
a discutir uma reforma política para valer, que mude nosso sistema eleitoral,
fortalecendo os partidos no momento do voto do eleitor e não depois dele, por
procedimentos administrativos; ou não faz reforma política alguma.
Até
a próxima crise deixar claro que a situação atual é absolutamente insustentável.
FRANKLIN
MARTINS - CONEXÃO POLÍTICA
Fonte:
www.portalig.org.br |